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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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ziguezagueava de um extremo ao outro da ravina. Em
certos momentos o rufo dos tambores amortecia a ponto de ser apenas perceptível. Noutros,
parecia bater tão perto que se esperava encontrá-los na próxima curva.
Quando estavam a meio caminho do cume, uma águia passou voando tão próximo deles que
sentiram no rosto o ar deslocado pelas suas asas. Num buraco da rocha jazia um monte de ossos.
Tudo era estranho e provocava uma sensação de opressão. E o índio cheirava cada vez pior.
Saíram finalmente da ravina, em pleno sol. O cume da mesa era uma superfície plana de terra.
- Isto parece a torre de Charing-T - comentou Lenina. Mas não teve oportunidade de gozar muito
tempo de tão tranquilizadora descoberta. Um ruído de passos amortecidos fê-los virarem-se. Nus
do pescoço ao umbigo, o corpo bronzeado listrado de riscas brancas (« como campos de ténis de
cimento» , explicaria mais tarde Lenina), o rosto tornado inumano pela pintura escarlate, negra e
ocre, dois índios vinham correndo ao longo do carreiro. Os seus cabelos negros estavam
entrançados com tiras de pele de raposa e de flanela vermelha. Um manto de penas de peru
flutuava-lhes nos ombros, enormes diademas de plumas lançavam em volta da cabeça reflexos
de tons brilhantes. A cadapasso que davam, elevava-se o guisalhar das suas pulseiras de prata e
dos pesados colares de ossos e de turquesas.
Aproximavam-se calados, correndo silenciosamente com os seus sapatos de pele de gamo. Um
deles trazia uma espécie de espanador; o outro, em cada mão, o que parecia ser, à distância, três
ou quatro pedaços de corda grossa. Uma das cordas torcia-se inquietador amente, e Lenina viu
de súbito que eram serpentes.
Os homens aproximaram-se, cada vez mais perto. Os seus olhos sombrios encaram-na, mas sem
darem qualquer sinal de a terem visto ou de terem consciência da sua existência. A serpente, que
antes se retorcia, pendia agora, molemente, junto às outras. Os homens continuaram o seu
caminho.
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- Isto não me agrada - disse Lenina. - Não me agrada mesmo nada.
O que a esperava à entrada do pueblo ainda lhe agradou menos, quando o guia os abandonou por
momentos para ir receber instruções. Primeiro a suj idade, montes de imundícies, poeira, cães,
moscas.
O rosto de Lenina franziu-se numa careta de nojo. Levou o lenço ao nariz.
- Mas como podem eles viver assim? - explodiu, numa voz de incredulidade indignada. Não, não
era possível.
Bernard encolheu filosoficamente os ombros. O
- Seja como for - disse -, há cinco ou seis mil anos que eles o fazem. De maneira que creio que
actualmente devem estar habituados.
- Mas a limpeza é a aproximação da Fordinidade - insistiu ela.
- Sim, e a civilização é a esterilização - continuou Bernard, terminando ironicamente com a
segunda lição hipnopédica de Higiene Elementar. - Mas esta gente nunca ouviu falar de Nosso
Ford e não é civilizada. De maneira que não tem interesse ...
- Oh! - Ela agarrou-lhe o braço. - Olhe! Um índio quase nu descia muito lentamente a escada do
terraço do primeiro andar de uma casa próxima, degrau após degrau, com a trémula atenção da
extrema velhice. A sua cara estava cheia de rugas e era negra como uma máscara de obsidiana.
A boca, sem dentes, estava chupada. Aos cantos dos lábios e de cada lado do queixo brilhavam
alguns pêlos eriçados, quase brancos sobre a pele escura. Os longos cabelos, não entrançados,
caíam-lhe em farripas grisalhas em volta do rosto. O corpo estava curvado e tão magro que
parecia não ter carne sobre os ossos. Descia muito lentamente, parando em cada degrau antes de
arriscar outro passo.
- Que tem ele? - murmurou Lenina, com os olhos esbugalhados de pasmo e horror.
- É apenas velho - respondeu Bernard com todo o desprendimento que lhe foi possível. Também
ele estava perturbado, mas fez um esforço para não o demonstrar. - Velho? - repetiu ela. - Mas o
Director também é velho, e há muita gente que é velha e, apesar disso, não é assim.
- Porque nós não lhes permítimos que o sejam. Preservamo-los das doenças; mantemos
artificialmente as suas secreções internas ao nível do equilíbrio da juventude; não deixamos cair
o seu índice de magnésio e de cálcio abaixo do que era aos trinta anos; fazemos-lhes transfusões
de sangue novo; mantemos o seu metabolismo permanentemente estimulado. Assim,
evidentemente,O eles não têm este aspecto. Em parte - acrescentou - porque a maioria de entre
eles morre muito antes de ter atingido a idade deste velho. A juventude quase intacta até aos
sessenta anos. Depois, trás! O fim.
Mas Lenina não o ouvia. Observava o velho. Lentamente, muito lentamente, ele descia. Os seus
pés tocaram o so'lo. Virou-se. Nas órbitas profundas, os olhos eram ainda extraordinariamente
vivos.
Olharam-na um longo momento, vazios de expressão, sem surpresa, como se ela simplesmente
não estivesse ali. Depois, lentamente, de costas curvadas, o velho, pé aqui, pé ali, passou em
frente deles e desapareceu.
- Mas é terrível! - murmurou Lenina. - É espantoso! Não devíamos ter cá vindo. - Apalpou a
algibeira à procura do soma, mas verificou que, devido a um esquecimento sem precedentes,
tinha deixado o frasco na pousada. As algibeiras de Bernard estavam igualmente vazias. E Lenina
teve de enfrentar, sem socorros exteriores, os horrores de Malpaís. Estes abateram-se sobre ela,
abundantes e rápidos. O
espectáculo de duas mulheres ainda novas dando de mamar aos seus bebés fê-la corar e obrigou-
a a virar o rosto. jamais na sua vida tinha visto coisa tão indecente. E o que ainda mais agravava
o facto é que, em vez de fechar os olhos e de ter o tacto de passar adiante, Bernard começou a
fazer sobre esse revoltante espectáculo vivíparo comentários que exigiam uma resposta.
Envergonhado, agora que os efeitos do soma tinham passado, da fraqueza de que dera mostras
essa manhã no hotel, esforçava-se por se mostrar forte e livre de opiniões ortodoxas.
- Que relações maravilhosamente íntimas! - disse, ultrapassando deliberadamente todos os
limites. - E
que intensidade de sentimentos elas devem criar! Parece-me frequentemente que é possível que
nos tenha faltado qualquer coisa por não termos tido mãe. E talvez, também, lhe tenha faltado
qualquer coisa a si, Lenina, por não ser mãe. Imagine-se sentada ali, com um pequeno bebé seu
...
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- Bernard! Como pode ... ? - A passagem de uma velha com oftalmia e uma doença de pele
distraiu a sua indignação. - Vamo-nos embora - suplicou. - Nada disto está a agradar-me. Mas
nesse momento o guia reapareceu e, fazendo-lhes sinal para o seguirem, conduziu-os ao longo da
estreita rua entre as casas. Chegaram a uma esquina. Um cão morto jazia num monte de
imundícies, uma mulher com bócio catava piolhos na cabeça de uma garota. O guia parou ao pé
de uma escada, ergueu a mão no ar e em seguida projectou-a horizontalmente para a frente.
Executando essas ordens silenciosas, subiram a escada e, atravessando a porta a que ela dava
acesso, entraram numa divisão estreita e longa, muito escura e cheirando a fumo, gordura
queimada e roupa usada durante muito tempo sem ser lavada. No outro extremo da divisão havia
outra porta por onde penetrava um raio de sol, assim como o barulho, muito sonoro e próximo,
dos tambores.
Franquearam o umbral e encontraram-se num espaçoso terraço. Abaixo deles, encerrada entre
as altas casas, estava a praça da aldeia, cheia de índios. Brilhantes mantos, penas e plumas
espetadas nas cabeleiras negras, o brilho das turquesas e as peles bronzeadas, luzentes de suor.
Lenina levou novamente o lenço ao nariz. No centro da praça erguiam-se duas plataformas de
alvenaria e barro, coberturas, sem dúvida, de câmaras subterrâneas, pois no centro de cada uma
abria-se um buraco negro com uma escada que saía da obscuridade inferior. Daí subia um som
subterrâneo de flautas, que quase completamente se perdia no rufar persistente, regular,
implacável, dos tambores.
O som destes agradava a Lenina. Fechando os