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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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consistiu sempre em tratar dos embriões.
E acontecia o mesmo com todas as outras perguntas que lhe fazia. Linda parecia nunca saber
nada. O
ancião do pueblo tinha respostas bem mais precisas.
- O germ è do homem e de todas as criaturas, o germe do Sol, e o germe da Terra, e o germe do
Céu, foram todos criados, por Awonawilona, a partir do Nevoeiro do Crescimento. Ora o mundo
tem quatro matrizes e, ele colocou os germes na mais baixa das quatro. E gradualmente os
germes começaram a crescer...
Um dia, - john calculava que devia ter sido pouco depois do seu décimo segundo aniversário -
entrou em casa e encontrou no chão, no quarto de dormir, um livro que ainda não tinha visto. Era
um livro grande, que parecia muito antigo. A encadernação tinha sido roída pelos ratos e algumas
das páginas estavam soltas e amarrotadas. Apanhou-o e olhou a página inicial. O livro intitulava-
se: Obras Completas de William Shakespeare.
Linda estava estendida na cama, bebericando, por uma chávena, aquele horrível e malcheiroso
mescal.
- Foi Popé que o trouxe - disse ela. Tinha a voz grossa e rouca, como se fosse de outra pessoa. -
Estava num dos cofres da Kiva dos Antílopes. (*) Supõe-se que estava lá há centenas de anos. E
deve ser verdade, porque lhe deitei uma olhadela e parece-me cheio de asneiras! Anterior à
civilização. Enfim, sempre te servirá para te ires aperfeiçoando na leitura. - Bebeu um último
trago, pousou a chávena no chão, ao lado da cama, deitou-se de lado, soluçou uma ou duas vezes
e adormeceu.
Ele abriu o livro ao acaso:
Não, mas viver
No suor fétido de um leito imundo,
Imerso em corrupção, a fazer carícias e a amar
Sobre a pocilga asquerosa...
As estranhas palavras rolaram-lhe através do espírito, ressoando como um trovão falante, como
os tambores das danças de Verão, se os tambores tivessem podido falar; como os homens
cantando a Canção do Trigo, bela, de uma beleza de fazer choràr; como o velho Mitsima
pronunciando fórmulas mágicas sobre as suas penas, os seus bastões entalhados e os seus pedaços
de pedra e de ossos - Kiathla tsilu silokwe silokwe silokwe.
(*)-Os índios Zufii dividem-se em várias seitas ou kivas, cada uma das quais toma o nome de um
animal protector e possui um lugar de reunião, que é geralmente uma câmara subterrânea,
também chamada kiva. (N. do T.)
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Kiai silu silu, tsithl -, mas ainda melhor que as fórmulas mágicas de Mitsima, porque estavam
mais carregadas de sentido, porque era a ele que as palavras se dirigiam, porque falavam, de
uma maneira maravilhosa e apenas- semicompreensível, em fórmulas terríveis e esplêndidas, de
Linda, de Linda ali deitada e ressonando, a chávena vazia no chão, ao lado da cama, de Linda e
de Popé, de Linda e de Popé ...
Ele detestava cada vez mais Popé. Um homem pode prodigalizar sorrisos e não passar de um
celerado.
Traidor, devasso, celerado sem remorsos e sem bondade. Que significavam exactamente estas
palavras? Não o sabia ao certo. Mas a sua magia era poderosa e continuava a bramir na sua
cabeça, e sentiu-se, sem saber porquê, como se nunca tivesse realmente detestado Popé, como
se antes nunca o tivesse verdadeiramente detestado, porque nunca pudera dizer até que ponto o
detestava. Mas entretanto possuía aquelas palavras, aquelas palavras que se assemelhavam aos
tambores, aos cantos e às fórmulas mágicas. Estas palavras e a história estranha, estranha, donde
eram tiradas (ela não tinha, para ele, nem pés nem cabeça, mas era maravilhosa, apesar de tudo,
maravilhosa), davam-lhe um motivo para detestar Popé. E tornavam-lhe o seu ódio mais real,
tornavam-lhe mais real o próprio Popé.
Um dia em que entrou em casa depois de ter brincado, a porta do quarto estava aberta e viu-os
deitados na cama, adormecidos, Linda muito branca e Popé quase negro, ao lado dela, um braço
sob os seus ombros, a outra mão bronzeada repousando sobre o seu peito e uma trança dos
compridos cabelos do homem atravessada na garganta de Linda, como uma serpente negra que
a tentasse estrangular. A cabeça de Popé pendia para o chão, onde estava uma chávena ao lado
da cama. Linda ressonava.
Pareceu-lhe que o coração tinha desaparecido, deixando um buraco no seu lugar. Estava vazio.
Sentia uma sensação de vácuo, de frio, um pouco de náusea, vertigens. Encostou-se à parede
para se aguentar nas pernas. Traidor, devasso, sem remorsos ... Semelhantes aos tambores,
semelhantes aos homens cantando o encantamento do perigo, semelhantes às fórmulas mágicas,
as palavras repetiam-se e voltavam a repetir-se no seu espírito.
Depois da sensação de frio, sentiu subitamente um grande calor. Sentia o rosto em fogo com o
afluxo do sangue, o quarto girava e escurecia diante dos seus olhos. Rangeu os dentes: « Hei-de
matá-lo, hei-de matá-lo, hei-de matá-lo» , repetia sem cessar. E bruscamente surgiram-lhe
outras palavras ainda: Quando estiver ébrio e adormecido, ou encolerizado Ou nos prazeres
incestuosos do leito ...
As fórmulas mágicas estavam a seu favor, a magia explicava e dava ordens. Saiu e voltou para o
primeiro compartimento. « Quando estiver ébrio ou adormecido ... adormecido ... » A faca de
cortar a carne estava no chão, perto da lareira. Apanhou-a e voltou para a porta na ponta dos pés.
Atravessou o quarto a correr e golpeou - Ah! O sangue! -, golpeou de novo, enquanto Popé se
libertava com um estremeção do amplexo do sono.
Golpeou ainda outra vez, mas sentiu o pulso aprisionado, dominado e - oh! oh! - torcido. Não
podia mexer-se, tinha caído numa ratoeira. E eis que os olhinhos pretos de Popé, muito próximos,
mergulhavam nos seus. Virou-se. Viu dois golpes no ombro esquerdo de Popé. - Oh! Vejam o
sangue!
- gritou Linda. - Vejam o sangue! - Ela nunca pudera suportar a vista do sangue. Popé levantou a
outra mão, para lhe bater, pensou ele. Encolheu-se para receber o golpe. Mas a mão contentou-
se em segurar-lhe o queixo e voltar-lhe a cara, de modo a obrigá-lo a cruzar novamente o olhar
com o seu. Isso durou muito tempo, horas e horas. E de súbito não conseguiu dominar-se e
começou a chorar. Popé rebentou a rir. - Vai - disse ele, empregando as outras palavras, as
índias - vai, meu bravo Ahaiy uta. - Saiu a correr para o outro aposento a fim de esconder as
lágrimas.
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- Ten's quinze anos - disse o velho Mitsima em língua índia. - Agora já te posso ensinar a
trabalhar o barro.
Acocorados na beira do rio, trabalhavam juntos.
- Primeiro - começou Mitsima, amassando com as mãos uma bola de barro húmida - fazemos
uma pequena lua. O ancião amassou a bola para lhe dar a forma de um disco, depois recurvou os
bordos, alua transformou-se numa tigela côncava.
Lenta e desajeitadamente, ele imitou os gestos delicados do velho.
Uma lua, uma tigela e agora uma serpente. - Mitsima amassou um outro pedaço de barro para
fazer um longo cilindro flexível, curvou-o em círculo e apoiou-o no bordo da tigeela. - Mais outra
serpente. Mais outra. Mais outra. - Círculo sobre círculo, Mitsima decorou o bojo da tigela, a
principio estreito, depois largo, voltando a estreitar no gargalo. Mitsima amassou, bateu, alisou e
raspou. E eis que o objecto se ergueu por fim, jarro de água, vulgar em Malpaís quanto à forma,
mas de um branco leitoso em vez de ser negro, e ainda mole quando se lhe tocava. Paródia do de
Mitsima, o seu erguia-se a par do outro.
Comparando os dois potes, viu-se obrigado a rir.
- Mas o próximo será melhor - disse ele. E começou a amassar um outro pedaço de barro.
Modelar, dar uma forma, sentir os dedos adquirirem mais destreza e poder, tudo lhe dava um
prazer extraordinário. A, B, C, Vitamina D» , cantava para si mesmo enquanto trabalhava. « O
óleo está no fígado, o bacalhau nadou. E Mitsima também cantava uma canção que falava da
caçada e morte de um urso. Trabalharam assim todo o dia, e durante todo o dia sentiu uma
felicidade intensa, absorvente.
- Este Inverno - prometeu o velho Mitsima - hei-de ensinar-te a fazer