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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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um arco.
Ele ficou muito tempo de pé diante da casa. Finalmente, as cerimónias que se realizavam no
interior acabaram e eles saíram. Kothlu vinha à frente; trazia o braço direito rígido e a mão bem
fechada, como para guardar qualquer jóia preciosa. Com a mão estendida da mesma forma, ela,
Kiakimé, caminhava atrás dele. Caminhavam em silêncio, e era em silêncio que vinham atrás
deles os irmãos, as irmãs, os primos e o grupo completo dos velhos.
Saíram do pueblo e atravessaram a mesa. Detiveram-se junto da falésia, de face para o Sol
nascente.
Kothlu abriu a mão.
Tinha na palma da mão um punhado de farinha de trigo candial. Soprou-a, murmurou algumas
palavras, depois atirou-a, punhado de poeira branca, na direcção do Sol. Klakimé fez o mesmo.
Então o pai de Klakimé adiantou-se e, brandindo um bastão de orações guarnecido de plumas, fez
uma longa prece e atirou depois o bastão atrás da farinha.
- Acabou-se - disse o velho Mitsima com voz forte. - Estão casados.
- Está bem - disse Linda enquanto eles se afastavam. - Só posso dizer que esta gente faz muitos
trejeitos para nada. Nos países civilizados, quando um rapaz deseja uma rapariga contenta-se
com ...
Mas, onde vais tu, john?
Ele não deu nenhuma atenção aos seus apelos e fugiu a correr, para longe, para longe, não
importava para onde, para poder ficar só.
Tinha acabado. As palavras do velho Mitsima repetiram-se no seu espírito. Acabado, acabado ...
Silenciosamente e de muito longe, mas violentamente, desesperadamente, sem a menor
esperança, ele tinha amado Klakimé. E agora tinha acabado. Ele tinha dezasseis anos.
Quando fosse lua cheia, na Kiva dos Antílopes, iam ser ditos segredos, e segredos iam ser
realizados e sofridos. Eles iam descer para a kiva garotos. Quando saíssem, seriam homens.
Todos os garotos tinham medo e estavam ao mesmo tempo impacientes. E por fim chegou o dia.
Deitou-se o Sol, levantou-se a Lua. Ele foi com os outros. Os homens estavam de pé, sombrios, à
entrada da kiva; a escada mergulhava nas profundezas iluminadas por clarões vermelhos. já os
garotos da frente tinham começado a descer. De repente um dos homens avançou, agarrou-o por
um braço e tirou-o da fila. Ele escapou-se e voltou ao seu lugar no meio dos outros. Desta vez o
homem castigou-o 63
e puxou-lhe os cabelos: "Não para ti, cabelo branco! Não para ti, filho de uma cadela" gritou
outro homem. Os garotos riram. « Vai-te!» E, como ele se demorasse perto do grupo, os homens
gritaram-lhe outra vez: "Vai-te." Um deles baixou-se para apanhar uma pedra, que lhe atirou.
"Vai-te, vai-te, vai-te!" Choveram pedras. Sangrando, ele meteu-se pela noite dentro. Da kiva
iluminada por clarões vermelhos vinha um rumor de cantos. O último dos garotos tinha chegado
ao fundo da escada. Estava sozinho.
Sozinho, fora do pueblo, na planície nua da mesa. O rochedo assemelhava-se a ossos
esbranquiçados pelo luar. Em baixo, no vale, os chacais uivavam à Lua. Ainda lhe doíam as
contusões e os golpes ainda sangravam. Mas não era a dor que o fazia soluçar; chorava por estar
sozinho, por ter sido escorraçado, sozinho, para o mundo sepulcral dos rochedos e do luar. Sentou-
se à beira do precipício.
A Lua estava atrás dele; mergulhou os olhos na sombra negra da mesa, na sombra negra da
morte.
Tinha só que dar um passo, um pequeno salto... Estendeu a mão direita ao luar. Do golpe do pulso
ainda corria sangue. Com intervalos de alguns segundos, caía uma gota, sombria, quase incolor
na luz morta. Uma gota, uma gota, uma gota... « Amanhã, e amanhã, e ainda amanhã ...
Tinha descoberto o Tempo, a Morte e Deus.
- Só, sempre só - dizia o rapaz. Estas palavras acordaram um eco doloroso no espírito de Bernard.
Só, só...
Eu também - disse ele num sopro de confidência. - Terrivelmente só.
- Você também? - john espantou-se. - Pensei que Além ... Quer dizer, Linda,dizia sempre que
nunca ninguém estava só.Bernard corou, contrafeito.
- É preciso esclarecer - continuou, gaguejando e desviando os Olhos - que devo ser um pouco
diferente da maioria das pessoas. Se acontece às pessoas serem diferentes desde a decantação ...
- Sim, é isso, precisamente. - O rapaz aprovou com um sinal de cabeça. - Ser diferente condena
a uma fatal solidão. E a um tratamento abominável. Acredita que eles me mantiveram
absolutamente afastado de tudo? Quando os outros garotos iam passar a noite nas montanhas -
sabe quando é, quando se deve ver em sonho qual é o nosso animal sagrado -, não consentiram
que eu fosse com os outros. Não quiseram confiar-me nenhum dos segredos. O que não impediu
que eu o fizesse sozinho - acrescentou.
- Estive sem comer cinco dias, e depois fui uma noite sozinho para as montanhas, além. - E
designou-as com o dedo.
Bernard teve um sorriso protector.
- E você conseguiu ver qualquer coisa em sonho? - perguntou.
O outro fez um sinal afirmativo com a cabeça.
- Mas não posso dizer-lho. - Calou-se uns momentos, para acrescentar em voz baixa: - Um dia fiz
uma coisa que os outros nunca tinham feito: fiquei de pé contra um rochedo, num meio-dia de
Verão, com os braços estendidos, como Jesus crucificado.
- Mas porquê?
- Porque queria saber o que representa ser crucificado. Suspenso ali, em pleno sol ...
- Mas porquê?
- Porquê? Meu Deus... - Hesitou. - Porque sentia que o devia fazer. Se Jesus o pôde suportar ... E
se, além disso, praticou qualquer mal ... Por outro lado, sentia-me infeliz. E essa era uma outra
razão.
- Parece-me uma maneira esquisita de se curar a infelicidade - comentou Bernard. Mas,
reflectindo no caso, pareceu-lhe que o acto talvez fosse bastante sensato. Mais sensato que tomar
soma ...
- Desmaiei passado algum tempo - disse o rapaz. - Caí de bruços. Está a ver a cicatriz do golpe
que fiz?
- E afastou da testa
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a espessa madeixa de cabelos louros. A cicatriz era visível, pálida e enrugada, na têmpora direita.
Bernard analisou-a e depois, vivamente e com um pequeno arrepio, desviou os olhos. O seu
condicionamento tinha-o tornado mais apto a desmaiar que a encher-se de piedade com qualquer
bagatela. A simples referência a doenças ou a ferimentos era para ele não apenas uma coisa
apavorante, mas, sobretudo, repulsiva, e até repugnante. Como a imundície, a deformidade ou a
velhice. Mudou rapidamente o rumo da conversa.
- Não lhe agradaria voltar connosco a Londres? - perguntou ele, iniciando o primeiro movimento
de uma campanha de que tinha secretamente começado a elaborar o plano estratégico desde o
momento em que, na casinha, compreendera quem devia ser o « pai» deste jovem selvagem. -
Seria coisa que lhe agradasse?
- Está a falar a sério?
- Sem dúvida, desde que consiga obter autorização, bem entendido.
- E Linda também?
- Acontece que... - Hesitou, enredado por uma dúvida. Aquela criatura repugnante! Não, era
impossível. A não ser que, a não ser que ... E subitamente ocorreu a Bernard que o facto de ela
ser assim tão repugnante constituía em si mesmo um trunfo formidável. - Mas sem dúvida -
exclamou, compensando as hesitações iniciais com um excesso de ruidosa cordialidade.
O rapaz suspirou profundamente.
- Pensar que aquilo com que sonhei toda a minha vida se realiza ... Lembra-se do que disse
Miranda?
- Quem é Miranda? Mas o rapaz não ouviu, evidentemente, a pergunta.
- Oh, maravilha! - exclamava ele. Tinha os olhos brilhantes e o rosto purpureado de luz. -
Quantos seres encantadores há aqui! Como a humanidade é bela!O - O seu rubor acentuou-se
subitamente; pensava em Lenina, num anjo vestido de viscose verde-garrafa, resplandecente de
mocidade e de cremes de beleza, rechonchudo, sorrindo com meiguice. A sua voz estremeceu. -
Oh, admirável mundo novo... - recomeçou ele. Depois interrompeu-se subitamente; o sangue
fugira-lhe do rosto e estava branco como papel. - E você está casado com ela? - perguntou.
- Estou... quê?
- Casado. Você sabe como é, para sempre. Diz-se « para sempre»