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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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embriaguez do sucesso; voltara a ter, em
jejum, o seu eu antigo. E, em contraste com o balão temporário das últimas poucas semanas, o
eu antigo parecia ser, como nunca o fora, mais pesado que a atmosfera ambiente.
A esse esvaziado Bernard testemunhou o Selvagem uma simpatia inesperada.
- Você voltou agora a parecer-se com o que era no tempo da sua estada em Malpaís - disse ele
depois de Bernard lhe ter contado a lamentável história. - Lembra-se de quando começámos a
conversar? Em frente da casinha? Você está parecido com a criatura que era então.
- Porque sou outra vez infeliz, é essa a razão.
- Pois bem! Eu preferiria ser infeliz a conhecer essa espécie de felicidade falsa e mentirosa que
você gozava aqui!
- Você tem cada uma! - comentou Bernard com amargura. - E então sendo você a causa de
tudo! Você recusou-se a vir à minha reunião e pô-los todos contra mim!
Ele sabia que o que estava a dizer era absurdamente injusto; reconheceu no seu foro íntimo, e por
fim declarou-o em palavras, a verdade do que lhe dizia agora o Selvagem acerca do valor nulo
desses amigos que podiam transformar-se em inimigos perseguidores por causa de uma tão
pequena afronta.
Mas, ainda que o soubesse e o reconhecesse, ainda que o apoio e a simpatia do seu amigo fossem
agora o seu único conforto, Bernard nem por isso deixou de alimentar perversamente,
coexistindo com a sua afeição inteiramente sincera, um secreto ressentimento contra o
Selvagem, pondo-se a meditar numa campanha de vingançazinhas contra ele. Manter um
ressentimento contra o arquichantre era coisa inútil e não tinha nenhuma possibilidade de se
vingar do chefe dos enfrascadores ou do predestinador adjunto. Como vítima, o Selvagem
possuía, para Bernard, esta superioridade enorme sobre os outros: era acessível. Uma das
principais funções de um amigo consiste em suportar (sob uma forma mais suave e mais
simbólica) os castigos que desejaríamos, mas não podemos, infligir aos nossos inimigos.
Bernard teve como segundo amigo-vítima Helmholtz. Quando, derrotado, voltou a procurar esta
amizade que, na prosperidade, não tinha considerado útil conservar, Helmholtz tornou a dar-lha.
E
restituiu-lha sem uma censura, sem um comentário, como se tivesse esquecido que houvera
entre eles um desentendimento. Comovido, Bernard sentiu-se ao mesmo tempo humilhado por
esta magnanimidade, magnanimidade tanto mais extraordinária e por isso tanto mais humilhante
por não ser devida ao soma, mas sim e inteiramente ao carácter de Helmholtz. Era o Helmholtz
da vida quotidiana, que esquecia e perdoava, não o Helmholtz das fugas proporcionadas por meio
grama de soma. Bernard mostrou-se grato, como devia - era um grande conforto voltar a
encontrar o amigo -, mas também saturado de ressentimento - seria um prazer vingar-se de
Helmholtz e da sua generosidade.
Por ocasião do seu primeiro encontro depois da separação, Bernard contou-lhe a história das suas
misérias e aceitou as consolações oferecidas. Só alguns dias depois veio a saber, com espanto e
com vergonha lancinante, que não era o único que estava em dificuldades. Também Helmholtz
estava em conflito com a Autoridade.
- Foi a propósito de alguns versos - explicou Helmholtz. - Estava a fazer o meu curso habitual de
Técnica Emocional, o curso superior para os estudantes do terceiro ano. Doze conferências, das
quais a sétima trata de versos. « Do Emprego dos Versos na Propaganda Moral e na
Publicidade» , para ser exacto. Ilustro sempre as minhas conferências com uma grande
quantidade de exemplos técnicos. Desta vez pensei em dar-lhes um que eu mesmo tinha escrito.
Era pura loucura, bem entendido, mas não fui capaz de resistir. - Pôs-se a rir. - Tinha curiosidade
de ver quais seriam as reacções dos alunos. Além disso - acrescentou mais gravemente -, queria
fazer uma propagandazinha; 83
tentava levá-los a sentir o que eu tinha sentido ao escrever os versos. Ford! - Riu-se outra vez. -
Que escândalo! Fui chamado pelo Director, que me ameaçou com a expulsão imediata. Sou um
homem marcado!
- Mas como eram os seus versos? -perguntou Bernard.
- Falavam da solidão. Bernard arqueou as sobrancelhas.
- Vou recitar-lhos, se quiser. E Helmholtz começou:
A reunião de ontem, Dúvidas,
um tambor silenciado,
Meia-noite sobre a cidade,
Flutuam no vácuo,
Lábios fechados, faces adormecidas,
Todas as máquinas paradas,
O silêncio e a desordem
Onde esteve a multidão.
Todo o silêncio se alegra,
Lamenta-se (ruidosamente ou débil),
Fala, mas com uma voz
Que não sei donde vem.
Lamenta a ausência de Susan,
A ausência de Egeria,
A falta dos seus braços e dos seus corações,
Dos seus lábios, ah, mas depois,
Lentamente, nota-se a sua presença;
De quem? E, pergunto, de quê
Tão absurdo na essência,
Essa coisa indefinida, sem existência,
Nunca conseguirá povoar
A noite vazia mais solidamente
Que aquela que copulámos.
Porque tem ela um aspecto tão esquálido?
Aqui está: dei-lhes isto como exemplo, e eles denunciaram-me ao Director.
- Não me admira - volveu Bernard. - Está em completo desacordo com tudo o que lhes foi
ensinado durante o sono. Lembre-se disto: martelaram-lhes pelo menos um quarto de milhão de
vezes a advertência contra a solidão.
- Bem sei. Mas eu queria ver o efeito que causaria.
- Pois bem! Agora já sabe. Helmholtz limitou-se a rir.
- Parece-me - acrescentou depois de um silêncio - que começo justamente a ter um tema para
desenvolver, que começo a ser capaz de usar este poder que sinto existir em mim, este poder
suplementar, latente. Parece-me que sinto isso.
Apesar de todas as suas dificuldades, ele parecia, pensou Bernard, profundamente feliz.
Helmholtz e o Selvagem foram atraídos desde o primeiro momento por uma simpatia recíproca.
Tão cordial mesmo que Bernard chegou a sentir ardentes ciúmes. Depois de tantas semanas não
tinha alcançado um grau de imtimidade tão completa com o Selvagem como o conseguido
imediatamente por Helmholtz. Observando-os, ouvindo as suas conversas, arrependia-se às
vezes, cheio de ressentimento, de os ter apresentado. Tinha vergonha do seu ciúme, e umas vezes
fazia esforços de vontade e noutras tomava soma para o não sentir, Mas os seus esforços não
tiveram, porém, muito êxito. Entre as fugas do soma havia, forçosamente, intervalos. O odioso
sentimento persistia em voltar.
Por ocasião do seu terceiro encontro com o Selvagem, Helmholtz recitou-lhe os seus versos
acerca da solidão.
- Que lhe parecem? - perguntou ao terminar.
O Selvagem meneou a cabeça.
- Ouça isto - disse à guisa de resposta. E, abrindo com uma volta de chave a gaveta onde
guardava o seu livro roído pelos ratos, tirou-o e leu:
Que o pássaro de mais forte gorjeio
Sobre a única árvore da Arábia,
Seja um melancólico arauto e uma trombeta ...
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Helmholtz escutou com uma excitação crescente. Depois de « a única árvore da Arábia»
sobressaltou-se; depois de « tu, mensageiro ruidoso» sorriu com súbito prazer; depois de « todo o
pássaro de asa tirânica» o sangue subiu-lhe à cara; porém, depois de « música fúnebre»
empalideceu e tremeu com uma emoção inteiramente nova. O Selvagem continuou a ler:
O sentido do eu ficou aterrado, Desse eu que não é o mesmo; Natureza única de duplo nome
Nem dois nem um era chamado. A própria razão confundida
Viu a divisão aumentar nela ...
- Orgia-folia! - disse Bernard, interrompendo a leitura com um riso sonoro e desagradável. - É,
nada mais, nada menos, um cantico da Cerimónia de Solidariedade.
Vingava-se assim dos seus dois amigos por sentirem um pelo outro mais afeição que por ele.
Durante as duas ou três reuniões seguintes repetiu frequentemente este pequenino acto de
vingança.
Era simples e extremamente eficaz, pois tanto Helmhotz como o Selvagem ficavam
profundamente penalizados vendo quebrar e macular um cristal poético que lhes era caro. Por
fim, Helmholtz ameaçou pô-lo na