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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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como se alguém lhe tivesse aplicado um soco vigoroso.
Meio grama de soma bastara a Lenina para a fazer esquecer os seus receios e constrangimentos.
- Então, john - disse, sorrindo e passando diante dele para entrar no compartimento.
Ele fechou automaticamente a porta e seguiu-a. Lenina sentou-se. Houve um longo silêncio.
- Você parece não estar muito contente por me ver, john - disse ela finalmente.
- Não estou contente? - O Selvagem olhou-a com ar de censura. Caiu inesperadamente de
joelhos diante dela e, pegando-lhe na mão, beijou-a com reverência. - Não estou contente? Ah!
Se soubesse! -
murmurou. E, reunindo toda a sua coragem para erguer os olhos para ela, continuou: - Lenina,
como eu a admiro, verdadeiro píncaro da admiração, digna de tudo o que de mais precioso há no
mundo... - Ela sorriu-lhe com ternura deliciosa. - Oh, tão perfeita (ela inclinou-se para ele, os
lábios entreabertos), criada tão perfeita e incomparável (cada vez mais próxima), criada com
tudo o que há de melhor em todos os seres ...
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Lenina estava ainda mais próxima. O Selvagem pôs-se subitamente de pé. - É por isso - disse ele,
desviando os olhos - que eu queria primeiro realizar alguma coisa ... Quer dizer: provar que era
digno de si. Não que eu julgue vir alguma vez a consegui-lo. Mas queria, pelo menos provar que
não sou absolutamente indigno. Queria realizar alguma coisa.
- Porque acha que isso é necessário? ... Lenina começou a frase, mas não a acabou. Havia uma
nota de irritação na sua voz. Quando nos inclinámos para diante, cada vez mais perto, os lábios
entreabertos, para nos vermos de repente e sem mais nem menos, enquanto um pateta imbecil se
levanta, inclinados para um lugar vazio, meu Ford, tem-se razão, mesmo com meio grama de
soma circulando no sangue, tem-se razão para estar seriamente contrariado.
- Em Malpaís - gaguejou o Selvagem em tom incoerente era preciso trazer a pele de um leão das
montanhas, quero dizer, quando se queria casar com alguém. Ou então um lobo.
- Mas não há leões na Inglaterra - objectou Lenina com voz quase cortante.
- Mesmo que os houvesse - acrescentou o Selvagem, com um ressentimento brusco e desdenhoso
-, seriam destruídos com gases tóxicos ou qualquer coisa do género lançada de helicópteros. Mas
eu não farei isso, Lenina! - Atirou o peito para a frente, animou-se a olhá-la e cruzou-se com o
seu olhar de incompreensão contrariada. - Farei tudo - continuou coM crescente incoerência -,
tudo o que me ordenar. Existem jogos dolorosos, como sabe. Mas a dificuldade realça-lhes as
delíciaS. Eis o que sinto. Quero dizer que, se me ordenasse, varreria o chão.
- Mas nós aqui temos aspiradores - observou Lenina, assombrada -, e isso não é necessário.
Não, já se vê que não é necessário. Mas há algumas coisas vis que se suportam nobremente. Eu
quisera suportar qualquer coisa nobremente. Não me compreende?
- Mas desde que existem aspiradores ...
- Não é essa a questão.
- E Epsilões semiabortos para os fazer funcionar - continuou ela. - Assim, na verdade, porquê? -
- Porquê? Mas por si, por si! Apenas para provar que eu...
- E que relação poderá existir entre os aspiradores e os leões?
- Para lhe provar quanto...
- Ou entre os leões e o facto de estar contente por me ver? Ela exasperava-se cada vez mais.
- Como eu a amo, Lenina - conseguiu ele dizer, quase em desespero de causa.
Como um reflexo da sua fremente alegria interior, o sangue coloriu as faces de Lenina.
É verdade, john? Mas não tinha a intenção de o dizer - gritou o Selvagem, unindo as mãos como
num paroxismo de dor. - Não antes de ... Ouça, Lenina: em Malpaís as pessoas casam-se.
- As pessoas ... quê? - A irritação recomeçou a invadir-lhe a voz. De que estaria ele a falar
agora?
- Para sempre. As pessoas prometem viver juntas para sempre.
- Que ideia horrorosa! - Lenina estava sinceramente escandalizada.
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- Durando mais que o brilho exterior da beleza, com uma alma que se renova mais depressa que
o sangue se destrói'.
- O quê?
- Também está assim em Shakespeare: « "Mas se quebras o nó virginal antes de todas as
cerimónias sagradas se terem cumprido na plenitude dos seus santos ritos ..."
- Pelo amor de Ford, john, diga coisas sensatas! Não compreendo uma única palavra do que está
a dizer. Primeiro, fala de aspiradores, depois de nós. Você enlouquece-me! - Ela levantou-se de
um salto e, como se receasse que ele pudesse fugir-lhe fisicamente como o fazia em espírito,
segurou-lhe o pulso. Responda a esta pergunta: você gosta realmente de mim, ou não gosta?
Estabeleceu-se um breve silêncio. Depois, em voz muito baixa, ele confessou.
- Amo-a mais que tudo no mundo.
- Mas, então, porque o não dizia? - exclamou ela. Estava exasperada a tal ponto que lhe enterrou
as unhas no pulso. - Em vez de dizer tolices sem fim a propósito de nós, de aspiradores e de leões
e de me fazer sofrer semanas e semanas! - Ela soltou-lhe a mão, repelindo-a com cólera. - Se eu
não gostasse tanto de si, ter-lhe-ia uma raiva louca! E subitamente passou-lhe o braço em volta
do pescoço. Ele sentiu os lábios de Lenina apertados brandamente contra os seus. Tão
deliciosamente doces, tão tépidos, tão eléctricos, que inevitavelmente começou a pensar nos
beijos das Três Semanas em Helicóptero. - Uh! Uh! - A loura estereoscópica. - Aah! - O negro
mais que real! Horror, horror, horror!
... Tentou desprender-se, mas Lenina apertou-o com mais força - Porque não o disse? -
murmurou ela, afastando o rosto para o contemplar. Tinha os olhos cheios de terna censura.
- O antro mais sombrio, o lugar mais propício - a voz da consciência declamava poeticamente -,
tudo o que o nosso demónio nos possa propor de pior, não fará nunca transformar a minha honra
em vis desejos. Nunca, nunca! - Tal foi a sua resolução.
- Grande tolo! - disse Lenina. - Eu desejava-o tão ardentemente! E, se também me queria,
porque é que não? ...
- Mas, Lenina... - começou ele a protestar. E, como ela afrouxasse imediatamente os braços e
recuasse, acreditou, por um instante, que ela agia de acordo com a muda indicação que lhe
fizera. Quando, porém, ela desafivelou o seu cinto de couro branco envernizado e o pendurou
cuidadosamente nas costas da cadeira, começou a suspeitar de que se tinha enganado.
- Lenina! - repetiu, apreensivo. Ela levou a mão ao pescoço e baixou-a com um longo gesto
vertical: a sua blusa branca à marinheiro abriu-se até à extremidade inferior. A suspeita
condensou-se em realidade sólida, demasiado sólida.
- Lenina! Ah! Que faz você? Zip, zip! A resposta dispensou palavras. Ela desembaraçou-se das
calças de boca de sino. A sua combinação-calça com fecho éclair era de um rosa pálido de
concha. O T de ouro do arquichantre pendia no seu peito.
"Porquê esses seios que, através das grades das janelas, perturbam os olhos dos homens ... " As
palavras cantantes, ribombantes, mágicas, faziam-na parecer duplamente perigosa, duplamente
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tentadora. Doces, doces, mas quão penetrantes! Furando e brocando a razão, abrindo um túnel
através da sua resolução. "Quando o sangue está inflamado, os juramentos mais inflamados não
são mais que palha. Pratica mais a abstinência, senão ..."
Zip! O arredondado róseo abriu-se como uma maçã habilmente partida. Agitou os braços,
levantando o pé direito, depois o esquerdo: a combinação-calça de fecho éclair jazia no chão,
sem vida, como se tivesse sido esvaziada.
Ainda com as meias e os sapatos e a boina branca tombada para o lado, ela dirigiu-se para john
estendendo-lhe os braços.
Querido. Querido! Se ao menos tivesse dito isso há mais tempo! Mas, em vez de lhe dizer
também «
Querida I » e de lhe estender, por sua vez, os braços, o Selvagem, aterrorizado, fugiu agitando as
mãos para ela como se tentasse afugentar um animal importuno e perigoso. Quatro passos para
trás, e esbarrou na parede.
- Meu querido - disse Lenina, pousando-lhe as mãos nos ombros