A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
181 pág.
Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

Pré-visualização | Página 44 de 50

Não estava habituada a manifestações deste género nos visitantes e, além disso,
nunca havia muitos visitantes; nem nenhuma razão para que houvesse muitos. - O senhor não se
sente doente, pois não?
Ele abanou a cabeça.
- É minha mãe - disse com voz que mal se percebia. A enfermeira lançou-lhe um olhar cheio de
horror e em seguida virou-se bruscamente. Do pescoço à raiz dos cabelos o seu rosto não era
mais que um rubor ardente.
- Leve-me junto dela - pediu o Selvagem, esforçando-se por falar em tom natural.
Sempre ruborizada, ela conduziu-o através da sala. Fisionomias ainda jovens e sem rugas (pois a
senilidade galopava tão depressa que não dava ao rosto o tempo de envelhecer, atacando apenas
o coração e o cérebro) voltaram-se à sua passagem. A sua marcha era seguida por olhos vagos,
sem curiosidade, de segunda infância. O Selvagem sentiu um frémito ao encará-los.
Linda estava deitada no último leito da segunda fila, encostado à parede. Amparada por
travesseiros, olhava as meias-finais do Campeonato Sul-Americano de Ténis em Estrado
Riemann, que se desenrolavam em reprodução silenciosa e reduzida no écran do receptor de
televisão junto do leito. As pequenas silhuetas precipitavam-se aqui e além no quadrado de vidro
iluminado, semelhantes a peixes num aquário, habitantes silenciosos mas agitados de um outro
mundo.
Linda contemplava o espectáculo sorrindo vagamente e sem compreender. No seu rosto pálido e
inchado havia uma expressão de felicidade imbecil. A cada instante as suas pálpebras fechavam-
se e durante alguns segundos ela parecia dormitar. Depois, com um pequeno sobressalto,
acordava, acordava para os jogos de aquário dos campeonatos de ténis, para a audição por
supervoz wurlitzeriana de Beija-me, Aperta-me, Acaricia-me sem Descanso, para a rajada
tépida de verbena soprada pela bandeira acima da sua cabeça, despertava para todas estas
coisas, ou, antes, para um sonho, onde estas coisas, transformadas e embelezadas pelo soma que
tinha no sangue, eram os elementos maravilhosos, e sorria novamente, com um sorriso desfeito,
descorado, de contentamento infantil.
- E agora tenho de ir - disse a enfermeira. - Tenho o meu grupo de crianças que estão para
chegar. E há também o n.o 3. - Estendeu o dedo para o outro lado da sala. - Está quase a ir-se de
um momento para o outro, agora ... Mas instale-se à sua vontade. - E afastou-se a passos largos.
O Selvagem sentou-se ao lado do leito.
- Linda - murmurou, tomando-lhe a mão. Ouvindo o seu nome, ela voltou-se. Os seus olhos vagos
tiveram um lampejo de consciência. Ela apertou-lhe a mão, sorriu-lhe, moveu os lábios. Mas
subitamente a sua cabeça tombou para trás. Tinha adormecido. Ele ficou ali a contemplá-la,
procurando entre a carne fanada, procurando e reencontrando aquele rosto jovem e vivaz que se
inclinara sobre a sua infância em Malpaís, evocando (fechou os olhos) a sua voz, os seus gestos,
todos os acontecimentos da sua vida comum. « No meu estreptococo alado, voai para Banbury -
T...» Como eram estranhas as suas canções! E estes versos infantis, como eram magicamente
estranhos e misteriosos!
A, B, C, vitamina D.
O óleo está no fígado, o bacalhau nadou.
Sentiu as lágrimas que o queimavam romper através das pálpebras, enquanto se lembrava das
palavras e da voz de Linda repetindo-as. E depois as lições de leitura: o gato está no prato, o
assado está na panela. E as Instruções Elementares para Uso dos Trabalhadores Beta-Menos do
Depósito de Embriões. E os longos serões ao canto da lareira, ou, no Verão, no terraço da
casinha, enquanto ela lhe contava aquelas histórias de Além, algo que ficava fora da Reserva: o
Além maravilhoso, maravilhoso, de que se lembrava ainda como de um paraíso de bondade e de
beleza, total e intacto, não poluído pelo contacto com a realidade desta Londres real, destes
homens e destas mulheres efectivamente civilizados.
Um ruído súbito de vozes agudas forçou-o a abrir os olhos e, depois de ter apressadamente
enxugado as lágrimas, a voltar-se. O que parecia ser um fluxo contínuo de gémeos machos,
idênticos, de oito anos, engolfava-se no aposento. Gémeo após gémeo, gémeo após gémeo,
entravam, autêntico pesadelo. O
rosto, este rosto que se repetia, porque só havia um rosto para 93
todos, arregalava-se, nariz achatado, só narinas, e olhos pálidos e redondos como vidros de
óculos. O
uniforme era de caqui. Tinham todos a boca aberta e o lábio caído. Entraram chilreando e
palrando. Ao cabo de um momento parecia que a sala fervia. Amontoavam-se em cachos entre
os leitos, subiam para cima deles, arrastavam-se por baixo, olhavam para os receptores de
televisão, faziam caretas aos doentes.
Ao verem Linda, surpreenderam-se e deram mostras de uma certa inquietação. Um grupo ficou
junto do leito, encarando-a com a curiosidade medrosa e estúpida dos animais que defrontam
inesperadamente o desconhecido.
- Oh! Olhem, olhem! - Falavam em voz baixa e espantada.
- Mas que é que ela tem? Porque será ela assim tão gorda?
Nunca tinham visto um rosto parecido com o de Linda, nunca tinham visto um rosto que não
fosse jovem, que não tivesse a pele lisa, nem corpo que não fosse fino e aprumado. Todas
aquelas sexagenárias moribundas tinham o ar de raparigas quase crianças. Com quarenta e
quatro anos, Linda parecia ser, por contraste, um monstro de senilidade flácida e desengonçada.
- Não é verdade que ela é horrível) - Tais eram os comentários sussurrados. - Olhem para os
dentes dela!
De repente, de sob a cama, um gémeo de rosto achatado apareceu entre a cadeira de john e a
parede e pôs-se a contemplar o rosto adormecido de Linda.
- Diga-me então... - começou ele. Mas a frase terminou prematuramente num guincho.
O Selvagem tinha-o agarrado pela gola do casaco e com uma bofetada sonora afugentara-o aos
berros.
Os gritos chamaram a atenção da enfermeira-chefe, que se precipitou em seu socorro.
- Que foi que lhe fez? - perguntou, enfurecida. - Não admito que bata nas crianças!
- Está bem! Mas então afaste-as desta cama. - A voz do Selvagem tremia de indignação. - E,
além disso, que fazem aqui estes fedelhos repugnantes? É vergonhoso!
- Vergonhoso? Mas que quer dizer? Condicionamo-los para a morte. E deixe-me dizer-lhe -
continuou num tom de advertência feroz - que, se o apanho outra vez a perturbar o seu
condicionamento, chamo os carregadores e mando-o pôr na rua.
O Selvagem pôs-se de pé e deu dois passos para ela. Os seus movimentos e a expressão do seu
rosto eram tão ameaçadores que a enfermeira recuou aterrorizada. Com um esforço violento,
ele conteve-se e, sem uma palavra, virou-se e sentou-se ao lado da cama.
Tranquilizada, mas com uma dignidade que era bastante vazia e incerta, a enfermeira insistiu:
- já o avisei. Agora já sabe. Apesar de tudo, afastou os gémeos demasiado curiosos e obrigou-os
a entrar na partida de zipfurão que uma das suas colegas organizara na outra extremidade da
sala.
- Pode ir agora tomar a sua chávena de solução de cafeína, minha cara - disse para a outra
enfermeira.
O exercício da autoridade restabeleceu-lhe a confiança em si própria e fez-lhe bem. - Vamos,
meus filhos - gritou.
Linda tinha-se agitado, inquieta. Abriu os olhos um instante, lançou um vago olhar à sua volta e
adormeceu de novo. Sentado a seu lado, o Selvagem fez esforços violentos para recuperar o
estado de espírito de há pouco. « A, B, C, vitamina D» , repetia para si próprio, como se estas
palavras fossem um sortilégio que chamaria à vida o passado morto. Mas o sortilégio não
produziu efeito. Obstinadamente, as recordações maravilhosas recusaram-se a aparecer; houve
apenas uma ressurreição detestável de ciúmes, de fealdade e de misérias. Popé ensopado no
sangue que lhe corria do ombro cortado e Linda horrendamente adormecida, enquanto as
moscas zumbiam em volta do mescal derramado no chão perto da cama. E os garotos gritando
aqueles nomes todos ao passarem... Ah! Não, não!