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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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Fechou os olhos, sacudiu a cabeça para
afastar vigorosamente estas recordações. « A, B, C, vitamina D...» Tentou pensar nos momentos
em que estava sentado nos joelhos de Linda, quando ela o abraçava e cantava, recomeçando
continuamente, embalando-o, embalando-o para o adormecer: « A, B, C, vitamina D, vitamina
D, vitamina D...»
A supervoz wurlitzeriana elevara-se num crescendo soluçante, e subitamente a verbena foi
substituída no aparelho de circulação de perfume por um pachuli intenso. Linda agitou-se, 94
acordou, olhou espantada por uns momentos os semifinalistas, Depois, levantando o rosto, aspirou
uma ou duas vezes o ar novamente perfumado, e então sorriu, com um sorriso de êxtase infantil.
- Popé! - murmurou, fechando os olhos. - Oh! Como gosto disto, como gosto ...
Suspirou e deixou-se cair sobre os travesseiros.
- Que tens, Linda? - O Selvagem empregou um tom implorativo. - Não me reconheces?
Ele esforçara-se tanto, fizera tudo o que lhe era possível, porque não lhe permitia ela esquecer?
Apertou-lhe a mão quase violentamente, como se a quisesse obrigar a abandonar o sonho de
prazeres ignóbeis, as recordações vis e detestáveis para penetrar no presente, na realidade: o
presente assustado, a espantosa realidade, sublímes mas pesados de significação,
desesperadamente importantes precisamente por causa da iminência daquilo que os tornava tão
aterradores.
- Não me reconheces, Linda? Como resposta, sentiu uma leve pressão de mão. Vieram-lhe as
lágrimas aos olhos. Inclinou-se para ela e beijou-a.
Ela moveu os lábios: "Popé!", murmurou de novo. E ele teve a sensação de que lhe atiravam à
cara um balde de imundícies.
A cólera ferveu subitamente nele. Contrariada pela segunda vez, a paixão da sua dor tinha
encontrado outra saída, transformando-se em paixão de cólera que atingiu o paroxismo.
- Mas eu sou o john! - gritou. - Sou o john! Na sua dor furiosa, agarrou-a decididamente pelos
ombros', e sacudiu-a.
Os olhos de Linda abriram-se com um bater de pálpebras, ela viu-o e reconheceu-o. « John!»
Mas colocou o rosto real, as mãos reais e violentas num mundo imaginário, entre os
correspondentes interiores e pessoais do pachuli e da supervoz wurlitzeriana, entre as recordações
transfiguradas e as sensações estranhamente transpostas que constituíam o universo do seu sonho.
Ela reconhecia-o como sendo john, seu filho, mas representava-o como um intruso neste Malpaís
paradisíaco onde passava a sua fuga de soma com Popé. Ele estava zangado porque ela amava
Popé, abanava-a porque Popé estava ali, na sua cama, como se houvesse nisso algum mal, como
se todas as pessoas civilizadas não agissem da mesma maneira. « Cada um pertence a...» A voz
de Linda esvaiu-se subitamente,'até não ser mais que um crocitar ofegante, que mal se percebia;
abriu a boca e fez um esforço desesperado para encher os pulmões de ar. Mas era como se já
não soubesse respirar. Tentou chamar, mas não se ouviu nenhum som; só o terror dos olhos
arregalados revelava a intensidade do seu sofrimento. Levou as mãos à garganta, procurou
agarrar convulsivamente o ar, o ar que já não podia respirar, o ar que, para ela, tinha deixado de
existir.
O Selvagem estava de pé, debruçado sobre ela.
- Que é que sentes, Linda? Que sentes tu? A sua voz implorava; dir-se-ia que lhe suplicava que o
sossegasse.
O olhar que ela lhe dirigiu estava carregado de um terror indizível, de terror e, pareceu-lhe, de
censura.
Ela tentou erguer-se na cama, mas tombou sobre os travesseiros. Tinha o rosto horrorosamente
contorcido, os lábios azuis.
O Selvagem virou-se e correu para a outra extremidade da sala.
- Depressa! - gritou. - Depressa! De pé no meio de uma dança de roda de gémeos brincando ao
zipfurão, a enfermeira- chefe voltou-se. O primeiro instante de surpresa deu quase
instantaneamente lugar à desaprovação.
- Não grite! Pense nas crianças - disse ela, franzindo os sobrolhos. - Você arrisca-se a
descondicioná-las ... Mas que está a fazer? - Ele rompera a roda. Preste atenção!
Uma das crianças berrava.
- Depressa, depressa! - Agarrou a enfermeira pela manga e arrastou-a atrás dele. - Depressa!
Aconteceu qualquer coisa! Matei-a!
Quando chegaram à extremidade da sala, Linda estava morta. O Selvagem ficou um momento
de pé, imobilizado no silêncio, depois caiu de joelhos ao lado da cama e, cobrindo o rosto com as
mãos, soluçou desvairadamente.
A enfermeira estava sem saber que fazer, olhando ora a forma ajoelhada perto da cama (que
escandalosa exibição!), ora (pobres crianças!) os gémeos que tinham interrompido a sua partida
de zipfurão e olhavam, estarrecidos, os olhos e as narinas
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arregaladas, na outra extremidade da sala, a cena escandalosa que se desenrolava junto do leito
n.º 20.
Deveria falar-lhe? Procurar conduzi-lo ao sentido das conveniências? Que prejuizo fatal podia
causar àqueles pobres inocentes! Destruir assim todo o seu bom condicionamento para a morte
com esta repugnante explosão de gritos, como se a morte fosse qualquer coisa de terrível, como
se houvesse pessoa que tivesse semelhante importância! Isto podia dar-lhes as ideias mais
desastrosas acerca do assunto, perturbá-los e fazê-los reagir de uma maneira@' totalmente
errada, totalmente anti-social.
Ela dirigiu-se a ele e tocou-lhe no ombro.
Não será capaz de se conduzir convenientemente? - disse em voz baixa, zangada.
Mas, virando a cabeça, viu que uma meia dúzia de gémeos estava já de pé e atravessava a sala.
A roda desagregava-se. Mais um instante e ... Não, o risco era muito de considerar; o' grupo
inteiro arriscava-se a ficar retardado seis ou sete meses no seu condicionamento. Avançou a
correr para aqueles cuja guarda lhe fora confiada e que estavam ameaçados.
- Vamos, quem quer um bolo de chocolate? - perguntou' com voz forte e alegre.
- Eu! - berrou em coro todo o grupo Bokanovsky . A cama n.º 20 estava completamente
esquecida.
« Oh! Deus, Deus, Deus!...» , continuava a repetir para si próprio o Selvagem. Entre o caos de
dor e de remorso que lhe' enchia o espírito, era a única palavra que articulava. « Deus!» ,
murmurou mais alto. « Deus...»
- Que é que ele está a dizer? - perguntou uma voz muito próxima, nítida e penetrante, através do
chilrear da supervoz wurlitzeriana.
O Selvagem sobressaltou-se violentamente e, destapando a cara, olhou em volta. Cinco gémeos
vestidos de caqui, cada um com um bocado de um grande bolo na mão direita, o rosto idêntico
diversamente lambuzado de chocolate líquido, mantinham-se em linha, arregalando para ele os
olhos redondos como vidros de óculos.
Cruzaram os olhares e começaram a rir simultaneamente. Um apontou com o bolo.
- Ela está morta? - perguntou.
O Selvagem encarou-os um momento em silêncio. Depois, ainda em silêncio, levantou-se.
Silenciosamente, dirigiu-se com lentidão para a porta.
- Ela está morta? - repetiu o gémeo curioso que caminhava a seu lado.
O Selvagem baixou o olhar sobre ele e, sempre sem dizer uma palavra, repeliu-o. O gémeo
tombou por terra e começou imediatamente a berrar. O Selvagem nem sequer se voltou.
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CAPÍTULO DÉCIMO Q UINTO
O pessoal doméstico do Hospital para Moribundos de Park Lane compunha-se de cento e sessenta
e dois Deltas, divididos em dois grupos Bokanovsky , compreendendo, respectivamente, oitenta e
quatro gémeas ruivas e setenta e oito gémeos dolicocéfalos de cabelos pretos. Às seis horas,
terminado o seu dia de trabalho, os dois grupos reuniam-se no vestíbulo do hospital e recebiam
das mãos do subecónomo interino a ração de soma.
Saindo do elevador, o Selvagem irrompeu pelo meio deles. Mas tinha o espírito distante, com a
morte, com a sua dor, com o seu remorso. Maquinalmente, sem ter consciência daquilo que
fazia, começou a abrir, aos empurrões, caminho através da multidão.
- Quem é você para estar a empurrar dessa maneira? Onde pensa que vai?
Num tom agudo e baixo, saídas de uma multidão de gargantas