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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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diferentes, só duas vozes pipilaram
ou rosnaram. Multiplicadas até ao infinito, como numa sucessão de espelhos, dois rostos, um em
lua cheia manchada de sardas e cercada por uma auréola alaranjada, o outro em forma de
máscara de pássaro, fina e adunca, hirsuta, com barba de dois dias, voltaram-se para ele com
raiva. As suas palavras e cotoveladas vigorosas nas costas quebraram-lhe a concha de
inconsciência. Ele acordou de novo para a realidade exterior, olhou em volta de si, reconheceu o
que viu com uma horrível e repugnante sensação de queda no vácuo, de delírio incessantemente
renovado dos seus dias e das suas noites, do pesadelo deste enxame de identidades que nada
permitia distinguir. Gémeos, gémeos ... Como larvas, tinham vindo, em bando, macular o
mistério da morte de Linda. Larvas ainda, mas maiores, inteiramente adultas, rastejavam agora
sobre a sua dor e sobre o seu arrependimento. Deteve-se, e com os olhos fixos e horrorizados
lançou um olhar circular sobre a multidão vestida de caqui. No meio e mais alto que ela, a sua
cabeça sobressaía, dominando-a. « Como há aqui seres encantadores!» As palavras cantantes
vergastaram-no com o seu sarcasmo. « Como a humanidade é bela! "Oh, admirável mundo novo
..."
- Distribuição de soma - gritou uma voz forte. - Em ordem fazem favor. Vocês, aí, andem um
pouco mais depressa.
Abrira-se uma porta e tinham trazido uma mesa e uma cadeira para o vestíbulo. A voz era a de
um jovem Alfa jovial, que entrara trazendo uma pequena caixa preta de metal. Um murmúrio
de satisfação elevou-se entre os gémeos fartos de esperar. Esqueceram completamente o
Selvagem. A sua atenção concentrava-se agora na caixa preta, que o jovem colocara em cima
da mesa e a que tentava abrir a fechadura. Levantou a tampa.
- U-uh! - gritaram simultaneamente os cento e sessenta e dois, como se estivessem a admirar um
fogo de artifício.
O rapaz tirou da caixa um punhado de minúsculas caixas de pílulas.
- Agora- disse em tom peremptório -avancem, façam favor. Um a um, e nada de empurrões.
Um a um e sem atropelos, os gémeos adiantaram-se. Primeiro dois homens, depois uma mulher,
logo depois um outro homem, a seguir três mulheres, depois ...
O Selvagem estava ali , contemplando a cena. "Oh, admirável mundo novo, oh, admirável
mundo novo
... " No seu espírito as palavras cantantes pareceram mudar de tom. Elas tinham-no escarnecido
através da sua miséria e dos seus remorsos, escarnecido com aquele horroroso acento de
zombaria cínica!
Rindo como os demónios, elas tinham insistido sobre a sua imundície vil, a fealdade nauseabunda
deste pesadelo. Agora e repentinamente, elas trombeteavam um apelo às armas. "Oh, admirável
mundo novo!" Miranda proclamava a possibilidade do esplendor, a possibilidade de transformar
até esse pesadelo em qualquer coisa de belo e nobre. "Oh, admirável mundo novo!" Era um
desafio, uma ordem.
- Não empurrem, vejam lá! - vociferou o subecónomo interino, furioso. Fechou com estrondo a
tampa da caixa. - Suspendo a distribuição se vocês não se portam convenientemente!
Os Deltas murmuraram, empurraram-se levemente uns aos outros e calaram-se. A ameaça fora
eficaz.
Privarem-nos de soma - que coisa horrível!
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- Agora está bem- disse o jovem, voltando a abrir a caixa. Linda fora uma escrava, Linda estava
morta; outros, pelo menos, viveriam livres, e uma beleza nova brilharia sobre o mundo. Era uma
reparação, um dever. E subitamente surgiu ao Selvagem, com uma claridade luminosa, o que
tinha a fazer. Foi como se abrissem uma janela ou corressem uma cortina.
- Vamos adiante - disse o subecónomo. Uma outra mulher de caqui adiantou-se.
Parem! - gritou o Selvagem, com voz forte e retumbante. - Parem!
Abriu caminho até à mesa; os Deltas encararam-no, assombrados.
- Ford! - exclamou o subecónomo interino, em voz mais baixa que um sopro. - É o Selvagem. -
Sentiu-se atemorizado.
- Ouçam-me, suplico-lhes - gritou o Selvagem com ardor veemente. - Emprestem-me os
ouvidos ...
Nunca falara em público e tinha muita dificuldade em exprimir o que queria dizer. - Não tomem
essa nefasta droga. É veneno, é veneno.
- Diga-me, senhor Selvagem - interveio o subecónomo interino, abrindo um sorriso conciliador -,
não o incomodaria deixar-me...
- Veneno para a alma, assim como para o corpo.
- Sim, mas deixe-me continuar a minha distribuição. Seja delicado. - Ternamente,
prudentemente, como quem acaricia um animal que se sabe que é mau, deu palmadinhas no
braço do Selvagem. -
Deixe-me lá ...
- Nunca! - bradou o Selvagem.
- Mas então, meu velho ...
- Atire fora tudo isso, esse horrível veneno! As palavras « atire fora» conseguiram furar as
camadas envolventes de incompreensão, penetrando violentamente na consciência dos Deltas.
Um murmúrio irado elevou-se da multidão.
- Venho trazer-lhes a liberdade - disse o Selvagem, dirigindo-se aos gémeos. - Venho ...
o subecónomo interino não quis ouvir mais; deslizou sem ruído para fora do vestíbulo e procurou
um número na lista telefónica.
- Não está no apartamento dele - resumiu Bernard. - Também não está no meu, e no seu
também não.
Não está no Aphroditacum, nem no centro, nem no colégio. Onde diabo se terá metido?
Helmholtz encolheu os ombros. Tinham regressado do trabalho, esperando encontrar o
Selvagem, que os esperava, num ou noutro dos seus habituais pontos de encontro, mas não havia
sinais dele em parte nenhuma. Era uma contrariedade, pois tinham o projecto de irem para
Blarritz no desporticóptero de quatro lugares de Helmholtz. Se ele se demorasse, iam chegar
atrasados para o jantar.
- Vamos dar-lhe mais cinco minutos - propos Helmholtz. - Se não aparecer nestes cinco minutos,
nós ...
A campainha do telefone interrompeu-o. Pegou no aparelho.
- Alô? Sou eu mesmo. - E, depois de um longo período de escuta, blasfemou: - Ford das
Carripanas!
Vou imediatamente.
- Que aconteceu? - perguntou Bernard.
- Era um tipo que eu conheço no Hospital de Park Lane - esclareceu Helmholtz. - É lá que está o
Selvagem. Parece que enlouqueceu. Em todo o caso é urgente. Você vem comigo?
Ambos se precipitaram pelo corredor fora para os elevadores.
- Mas gostam de ser escravos? - perguntava o Selvagem quando penetraram no hospital. Tinha o
rosto inflamado e os olhos flamejavam-lhe de horror e indignação. - Gostam de ser bebés? Sim,
bebés, vagindo e babando-se - acrescentou, exasperado ante aquela estupidez bestial, a ponto de
injuriar aqueles que se tinha proposto salvar. Os insultos ressaltaram contra a carapaça de
estupidez espessa; eles encaravam-no com os olhos cheios de uma expressão vazia de
ressentimento embrutecido e sombrio. - Sim, babões - vociferou impiedosamente. A dor e o 98
remorso, a compaixão e o dever, tudo isso tinha sido esquecido agora e de qualquer maneira
absorvido por um ódio intenso que dominava tudo o que se referia àqueles monstros menos que
humanos. - Vocês não querem ser livres, ser homens? Nem sequer compreendem o que é ser
homem, o que é a liberdade?
- A raiva fazia dele um orador coerente, as palavras ocorriam-lhe facilmente, em fluxo cerrado.
- Vocês não compreendem? repetiu ele. Mas não recebeu resposta. - Pois bem - afirmou em tom
feroz -, então vou ensinar-lhes: vou impor-lhes a liberdade, - quer queiram quer não! - E,
entreabrindo uma janela que dava para o pátio interior do hospital, pôs-se a deitar fora, aos
punhados, as caixinhas de comprimidos de soma.
Por um instante, a multidão caqui ficou silenciosa, petrificada, perante o espectáculo deste
sacrilégio inaudito, plena de assombro e de horror.
- Ele está louco - murmurou Bernard, arregalando os olhos. - Eles vão matá-lo. Eles...
Um grande grito estoirou de súbito no meio da multidão, uma onda movediça arrastou-se,
ameaçadora, para o Selvagem.
- Que Ford o ajude! -disse Bernard, desviando os olhos.
- Ford ajuda aqueles que se ajudam a si próprios. E com uma gargalhada, uma