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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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Mas como sou eu
que faço as leis, posso igualmente transgredi-las. Impunemente, senhor Marx - acrescentou,
virando-se para Bernard. - Coisa que, ao que me parece, o senhor não poderá fazer.
Bernard sentiu-se mergulhado num estado de miséria ainda mais desesperada.
- Mas porque está ele proibido? - perguntou o Selvagem. Emocionado por se encontrar em frente
de um homem que tinha lido Shakespeare, esquecera-se momentaneamente de todas as outras
coisas.
O Administrador encolheu os ombros.
- Porque é velho, eis a razão principal. Aqui não temos o culto das coisas velhas.
- Mesmo quando são belas?
- Sobretudo quando são belas. A beleza atrai, e nós não queremos que as pessoas sejam atraídas
pelas coisas velhas. Queremos que amem as coisas novas.
- Mas as novas são tão estúpidas@ tão horrorosas! Estes espectáculos onde só há helicópteros a
voar por todos os lados e onde se sentem as pessoas que se beijam! - Fez uma careta. - Bodes e
macacos! -
Só repetindo as palavras de Othello pôde manifestar convenientemente o seu desprezo e o seu
ódio.
- Animais bem gentis e nada desagradáveis, no entanto - murmurou o Administrador, como num
parêntesis.
- Porque não lhes dá para apreciação o Othello?
- já lhe disse: é velho. E, por outro lado, eles não compreenderiam.
Sim, era verdade. Lembrou-se de como Helmholtz tinha rido de Romeu e julieta.
- Pois bem! Então - continuou depois de um silêncio - qualquer coisa nova semelhante ao Othello
e que eles sejam capazes de compreender. - Aí está o que todos nós há muito desejamos
escrever - disse Helmholtz, rompendo um silêncio prolongado.
- E é o que você nunca escreverá - disse o Administrador - porque, se a obra se parecesse
realmente com o Othello ninguém estaria em condições de a compreender. E, se fosse coisa
nova, não se podia parecer em nada com o Othello.
- Porque não?
- Sim, porque não? - repetiu Helmholtz. Esquecia também as realidades desagradáveis da
situação.
Verde de terror e de apreensão, Bernard era o único que se lembrava. Mas os outros não
reparavam nele. - Porque não?
- Porque o nosso mundo não é o mesmo que o de Othello. Não se podem fazer calhambeques
sem aço e não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora. As
pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter.
Sentem-se bem, estão em segurança, nunca estão doentes, não receiam a morte, vivem numa
serena ignorância da paixão e da velhice, não são sobrecarregadas
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com pais e mães, não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer
emoções violentas, estão de tal modo condicionadas que, praticamente, não podem deixar de se
portar como devem. E se por acaso alguma coisa correr mal, há o soma, que o senhor atira
friamente pela janela em nome da liberdade, senhor Selvagem. A liberdade! - Pôs-se a rir. - O
senhor espera que os Deltas saibam o que é a liberdade!
E agora espera que os Deltas sejam capazes de compreender Othello! Meu caro amigo!
- Apesar de tudo - insistiu obstinadamente o Selvagem, que se mantivera calado -, é belo, é
melhor que os filmes perceptíveis.
- Não há dúvida - assentiu o Administrador. - Mas esse é o preço que temos de pagar pela
estabilidade.
É preciso escolher entre a felicidade e o que outrora se chamava a grande arte. Nós sacrificamos
a grande arte. Temos em seu lugar os filmes perceptíveis e os órgãos de perfumes.
- Mas são coisas sem sentido nenhum.
- Têm o seu sentido próprio. Representam para os espectadores uma porção de sensações
agradáveis.
- Mas, contudo... são narrados por um idiota.
O Administrador pôs-se a rir.
- Você não está a ser muito delicado para o seu amigo senhor Watson. Um dos nossos mais
distintos engenheiros de emoção ...
- Mas ele tem razão - concordou Helmholtz com uma tristeza sombria. - É realmente idiota.
Escrever quando se não tem nada a dizer...
- Exactamente. Mas isso exige uma habilidade extraordinária. Fabricamos calhambeques com o
mínimo possível de aço, obras de arte utilizando apenas sensação pura.
O Selvagem abanou a cabeça.
- Tudo isso me parece absolutamente horrível.
- Sem dúvida. A felicidade real parece sempre bastante sórdida quando comparada com as
largas compensações que se encontram na miséria. E é evidente que a estabilidade, como
espectáculo, não chega aos calcanhares da instabilidade. E o facto de se estar satisfeito não tem
nada do encanto mágico de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate
contra a tentação ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade
nunca é grandiosa.
- É evidente - concordou o Selvagem, depois de um silêncio. - Mas será indispensável atingir o
grau de horror de todos estes gémeos? - Passou as mãos pelos olhos como se tentasse apagar a
lembrança da imagem daquelas longas fileiras de anões idênticos nos bancos de montagem,
daquelas manadas de gémeos em bicha na estação do monocarril de Brentford, daquelas larvas
humanas invadindo o leito de morte de Linda, do rosto indefinidamente repetido dos assaltantes.
Olhou a mão esquerda coberta por um penso e estremeceu. - Horrível!
- Mas tão útil! Estou a ver que não gosta dos nossos grupos Bokanovsky , mas, garanto-lhe, eles são
os alicerces sobre os quais está edificado o restante. São o giroscópio que estabiliza o avião-
foguete do Estado na sua marcha inflexível. - A voz profunda vibrava, fazendo-o palpitar, a mão
gesticulante representava implicitamente todo o espaço e o impulso da irresistivel máquina. O
talento oratório de Mustafá Mond estava quase ao nível dos modelos sintéticos.
- Pergunto a mim próprio - disse o Selvagem - como consegue tolerá-los no final de contas, dado
poder produzir aquilo que quiser nessas provetas. já que está entregue a essa função, porque não
faz de cada um deles um Alfa-Mais-Mais?
Mustafá riu novamente.
- Porque não temos vontade nenhuma de nos fazer estrangular - respondeu. - Acreditamos na
felicidade e na estabilidade. Uma sociedade composta de Alfas não poderia deixar de ser instável
e miserável.
Imagine uma fábrica onde todo o pessoal fosse constituído por Alfas, quer dizer, por indivíduos
distintos, sem relações de parentesco, de boa hereditariedade e condicionados 102
de forma a serem capazes (dentro de certos limites) de escolher livremente e de arcar com
responsabilidades. Imagine isso ! - repetiu.
O Selvagem tentou imaginar, mas sem grande sucesso.
- É um absurdo. Um homem decantado em Alfa, condicionado em Alfa, enlouqueceria se
tivesse de fazer o trabalho de um Epsilão semiaborto, enlouqueceria ou começaria a destruir
tudo. Os Alfas podem ser completamente socializados, mas com a condição de só os obrigarem a
fazer trabalhos de Alfas. Só a um Epsilão se pode pedir que faça os sacrifícios de um Epsilão,
pela boa razão de que se não trata de sacrifícios. É a linha ' da menor resistência. O seu
condicionamento traçou a via que terá de percorrer. Não tem outro remédio, está fatalmente
predestinado. Mesmo depois da decantação, está sempre dentro de uma proveta, de uma invisível
proveta de fixações infantis e embrio nárias. Cada um de nós, já se vê - prosseguiu
meditativamente o Administrador -, atravessa a vida dentro de uma proveta. Mas se acontece
sermos Alfas, a nossa proveta, relativamente, é enorme. Sofreríamos intensamente se
estivéssemos condicionados num espaço mais limitado. Não se pode deitar pseudochampanhe
para castas superiores em provetas da casta inferior. É teoricamente evidente. Mas é coisa que
está igualmente demonstrada na vida real. O resultado da experiência de Chipre foi convincente.
- Masque experiência foi essa? -perguntou o Selvagem. Mustafá Mond sorríu.
- Pode-se, sem dúvida e se o quisermos, designá-la como uma experiência de
reemprovetamento. A experiência começou no ano 473 de N. F. Os Administradores fizeram
evacuar da ilha de Chipre os