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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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da produção em série aplicado, enfim, à biologia. Mas,
infelizmente - o Director agitou a cabeça -, não podemos bokanovskizar indefinidamente.
Noventa e seis, tal parecia ser o limite; setenta e dois, uma boa média. Fabricar com o mesmo
ovário e os gâmetas do mesmo macho o maior número possível de grupos de gémeos idênticos
era o que melhor se podia fazer - um melhor que, infelizmente, nada mais era que um menos
mal. E mesmo isso Já era difícil.
- Porque, na Natureza, são necessários trinta anos para que duzentos óvulos atinjam a
maturidade. Mas a nossa tarefa é estabilizar a população neste momento, aqui e agora. Produzir
gémeos a conta-gotas durante um quarto de século, para que servirá isso?
Evidentemente, isso não serviria para nada. Mas a técnica de Podsnap tinha acelerado imenso o
processo da maturação. Podia-se obter pelo menos cento e cinquenta óvulos maduros no espaço
de dois anos.
- Fecunde-se e bokanovskize-se, ou Onoutros termos, multiplique-se por setenta e dois, e obter-se-
á uma média de quase onze mil irmãos e irmãs em cento e cinquenta grupos de gémeos
idênticos, todos da mesma idade, em perto de dois anos. E, em casos excepcionais, podemos
obter de um único ovário mais de quinze mil indivíduos adultos.
Fez sinal a um rapaz louro, de rosto rosado, que, por acaso, passava nesse momento: - Senhor
Foster. -
O rapaz de rosto rosado aproximou-se. - Pode indicar-nos a máxima produção obtida de um só
ovário, 9
senhor Foster?
- Dezasseis mil e doze, aqui, neste centro - respondeu o Sr. Foster sem nenhuma hesitação,
falando muito depressa. Tinha olhos azuis e vivos e um evidente prazer em citar algarismos. -
Dezasseis mil e doze em cento e oitenta e nove grupos idênticos. Mas, é claro, tem-se feito muito
melhor - continuou com vigor - em alguns centros tropicais. Singapura tem frequentementte
produzido mais de dezasseis mil e quinhentos e Mombaça atingiu já os dezassete mil. Mas eles
são injustamente privilegiados. É ver como um ovário de negra reage ao líquido pituitário! É
espantoso, quando se está habituado a trabalhar com materiais europeus. Ainda assim -
acrescentou, rindo (mas o brilho da luta notava-se no seu olhar e o levantamento do queixo era
um desafio) , ainda assim, temos intenção de os ultrapassar, se for possível. Trabalho neste
momento num maravilhoso ovário de Delta-Menos. Tem apenas dezoito meses certos. Mais de
doze mil e setecentas crianças já, quer decantadas, quer em embrião. E ele ainda produz mais.
Havemos de conseguir vencê-los!
- Ora aí está o estado de espírito que me agrada! - exclamou o Director, dando uma palmada nas
costas do Sr. Foster. - Venha connosco e faça aproveitar a estes garotos dos seus conhecimentos
de especialista.
O Sr. Foster sorriu modestamente.
- Com muito prazer. Seguiram-no. Na Sala de Enfrascamento tudo era agitação harmoniosa e
actividade ordenada. Placas de peritónio de porca, todas cortadas nas dimensões convenientes,
chegavam continuamente, em pequenos monta-cargas, do Armazém de órgãos, no subsolo. Bzzz,
em seguida flap! As portas do monta-cargas abriam-se completamente. O preparador de
provetas apenas tinha de estender a mão, segurar a placa, introduzi-la, achatar as bordas e, antes
que a proveta assim preparada tivesse tempo de se afastar ao longo do transportador sem fim -
bzzz, flap! -, uma outra placa de peritónio tinha subido rapidamente das profundezas subterrâneas,
pronta a ser introduzida numa outra proveta, que seguía a anterior nessa lenta e interminável
procissão sobre o transportador.
Após os preparadores, vinham os matriculadores. Um a um, os ovos eram transferidos dos seus
tubos de ensaio para recipientes maiores; com destreza, a guarnição de peritónio era cortada, a
mórula era colocada no devido lugar, a solução salina introduzida ... e já a proveta tinha chegado
mais longe, à vez dos classificadores. A hereditariedade, a data de fecundação, as indicações
relativas ao grupo Bokanovsky , todos os pormenores eram transferidos do tubo de ensaio para a
proveta. Não já anónima, mas com nome, identificada, a procissão retomava lentamente a
marcha, a marcha através de uma abertura na parede, a marcha para entrar na Sala de
Predestinação Social.
- Oitenta e oito metros cúbicos de fichas de cartão - disse o Sr. Foster, com manifesto prazer, ao
entrarem.
- Contendo todas as informações úteis - acrescentou o Director.
- Postas em ordem diariamente, todas as manhãs.
- E coordenadas todas as tardes.
À base das quais são feitas os cálculos. Tantos indivíduos desta ou daquela qualidade - disse o Sr.
Foster.
- Divididos nestas ou naquelas quantidades.
- A percentagem de decantação óptima em qualquer momento desejado.
- Sendo as perdas imprevistas rapidamente compensadas.
- Rapidamente - repetiu o Sr. Foster. - Se soubessem quantas horas extraordinárias tive de fazer
após o último terramoto no Japão! - Riu com bom humor e sacudiu a cabeça.
- Os predestinadores enviam os seus números aos fecundadores.
- Que lhes mandam os embriões que eles desejam.
- E as provetas chegam aqui para serem predestinadas pormenorizadamente.
- Para depois descerem ao Depósito de Embriões.
- Onde vamos agora. E, abrindo uma porta, o Sr. Foster tomou a dianteira para descer uma
escada e conduzi-los ao subsolo.
A temperatura era ainda tropical. Desceram numa penumbra que cada vez era maior. Duas
portas e um corredor com duas esquinas protegiam a cave contra qualquer possível infiltração da
luz diurna.
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- Os embriões parecem-se com uma película fotográfica - disse o Sr. Foster humoristicamente,
abrindo a segunda porta. - Apenas suportam a luz vermelha.
Com efeito, a obscuridade, onde reinava um pesado calor, em que os estudantes então seguiram,
era visível e encarnada, como, numa tarde de Verão, é a obscuridade apercebida através das
pálpebras cerradas. Os lados arredondados das provetas que se alinhavam até ao infinito, fila
sobre fila, prateleira sobre prateleira, brilhavam como inúmeros rubis, e entre os rubis moviam-
se fantasmas vermelhos e vagos de homens e de mulheres de olhos purpúreos, de faces
rutilantes. Um zunido, um rumor de máquinas, imprimiam ao ar uma ligeira vibração.
- Dê-lhes alguns números, senhor Foster - disse o Director, que estava fatigado de falar.
O Sr. Foster nada mais desejava senão isso.
- Duzentos e vinte metros de comprimento, duzentos de largura, dez de altura. - Apontou com a
mão para cima. Como 9 galinhas a beber água, os estudantes ergueram os olhos para o tecto
distante. - Três andares de porta-provetas: ao nível do solo, primeira galeria, segunda galeria.
A estrutura metálica das galerias sobrepostas, leve como uma teia de aranha, perdia-se em todas
as direcções, na obscuridade. Perto deles, três fantasmas vermelhos estavam activamente
ocupados em descarregar provetas que retiravam de uma escada móvel, o escalator que partia
da Sala de Predestinação Social.
Cada proveta podia ser colocada num de entre quinze porta-garrafas, cada um dos quais, embora
não fosse po'ssível notar-se, era um transportador que avançava à velocidade de trinta e três
centímetros e um terço por hora. Duzentos e sessenta e sete dias, à razão de oito metros por dia.
Um total de dois mil cento e trinta e seis metros. Uma volta à cave ao nível do solo, uma outra à
altura da primeira galeria, metade de outra à altura da segunda e, na ducentésima sexagésima
sétima manhã, a luz do dia na Sala de Decantação. Daí em diante, a existência independente -
assim era denominada.
- Mas nesse intervalo de tempo - disse o Sr. Foster como conclusão - conseguimos fazer-lhes
bastantes coisas. Oh! Muitas coisas. - O seu riso era satisfeito e triunfante.
- Aí está o estado de espírito que me agrada - disse de novo o Director. - Vamos dar a volta. Dê-
lhes todas as explicações, senhor Foster.
Com eficácia, o Sr. Foster deu-as. Falou-lhes do embrião, que se desenvolve no seu leito