A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
181 pág.
Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

Pré-visualização | Página 6 de 50

de
peritónio.
Fez-lhes provar o rico pseudo-sangue de que ele se alimenta. Explicou por que razão tinha
necessidade de ser estimulado pela placentina e pela tiroxina. Falou-lhes do extracto de corpus
luteum. Mostrou-lhes os tubos reguladores por onde, em todos os doze metros entre zero e dois
mil e quarenta ele é injectado automaticamente. Falou dessas doses gradualmente crescentes de
líquido pituitário administradas durante os últimos noventa e seis metros do seu percurso.
Descreveu a circulação materna artificial instalada em cada proveta no metro cento e doze.
Mostrou-lhes o reservatório de pseudo-sangue, a bomba centrífuga que mantém o líquido em
movimento sobre a placenta e o impele para o pulmão sintético e para o filtro dos resíduos. Disse
algumas palavras acerca da perigosa tendência do embrião para a anemia, das doses maciças de
extracto de estômago de porco e de fígado de poldro fetal que, em consequência, é necessário
fornecer-lhe. Mostrou-lhes os mecanismos simples por meio dos quais, durante os dois últimos
metros de cada percurso de oito, todos os embriões são simultaneamente agitados para se
familiarizarem com o movimento. Aludiu ao perigo daquilo que se chama « traumatismo de
decantação» e enumerou as precauções tomadas a fim de reduzir ao mínimo, por um
ajustamento apropriado do embrião na proveta, esse perigoso choque. Falou-lhes das provas de
sexo efectuadas próximo do metro duzentos e explicou-lhes o sistema de classificação: um T
para os machos, um círculo para as fêmeas, e para os que estavam destinados a ser neutros um
ponto de interrogação negro sobre fundo branco.
- Porque, é claro - disse o Sr. Foster - , na imensa maioria dos casos a fecundidade é
simplesmente um incómodo. Um ovário fértil em cada mil e duzentos chegaria à vontade para as
nossas necessidades.
Mas precisamos de ter por onde escolher. E, além disso, é necessário conservar uma enorme
margem de segurança. Assim, deixamos que se desenvolvam normalmente cerca de trinta por
cento dos embriões femininos. Os outros
11
recebem uma dose de hormonas sexuais masculinas em tod os vinte e quatro metros durante o
resto do percurso. Resultado - quando são decantados, estão neutros, absolutamente normais sob o
ponto de vista da estrutura, salvo - teve de reconhecer - possuírem, é verdade, uma leve
tendência para o crescimemto da barba, mas estéreis. Estéreis garantidos. O que nos leva, enfim
- continuou o Sr. Foster -, a abandonar o domínio da simples imitação estéril da Natureza para
entrarmos no mundo muito mais interessante da descoberta humana. - Esfregou as mãos.
Porque, é evidente, não nos contentamos unicamente em incubar os embriões: isso qualquer vaca
é capaz de fazer. Também os predestinamos e condicionamos. Decantamos os nossos bebés sob
a forma de seres vivos socializados, sob a forma de Alfa ou de Epsilões, de futuros varredores ou
de futuros ...
Esteve a ponto de dizer « futuros Administradores Mundiais» , mas, corrigindo-se a tempo, disse
« futuros Directores de Incubação» .
O D. I. C. mostrou-se sensível ao cumprimento, que recebeu com um sorriso.
Encontravam-se no metro trezentos e vinte, no porta-garrafas n.º 11. Um jovem mecânico Beta-
Menos trabalhava com uma chave de parafusos e uma chave inglesa, na bomba de pseudo-
sangue de uma proveta que passava. O zunido do motor eléctrico tornava-se mais grave, em
mudanças Ograduais, e enquanto ele apertava os parafusos ... Mais grave, mais grave., uma
torção final, uma olhadela ao contador de voltas, e terminou. Avançou dois passos ao longo da
fila e começou a mesma operação na bomba seguinte.
- Ele diminui o número de voltas por minuto - explicou o Sr. Foster. - O pseudo-sangue circula
mais lentamente e, em consequência, passa para os pulmões com intervalos mais demorados; dá,
assim, menos oxigénio ao embrião. Nada melhor que a falta de oxigénio para manter um
embrião abaixo normal. - De novo esfregou as mãos.
- Mas para que é preciso manter o embrião abaixo normal? - perguntou um estudante ingénuo.
- Que burro! - disse o director, quebrando um longo silêncio. - Nunca lhe veio à ideia que é
necessário ao embrião Epsilão um ambiente de Epsilão, assim como uma hereditariedade de
Epsilão?
Era evidente que isso nunca lhe tinha passado pela ideia.
Ficou confuso e contrito.
- Quanto mais baixa é a casta - disse o Sr. Foster -, menos oxigénio se lhe dá. O primeiro órgão
atingido é o cérebro. Em seguida o esqueleto. Com setenta por cento do oxigénio normal, obtêm-
se anões. Com menos de setenta por cento, monstros sem olhos. Os quais para nada servem -
concluiu o Sr. Foster. - No entanto - a sua voz tornou-se confidencial, desejoso de expor o que
tinha a dizer -, se se pudesse descobrir uma técnica para reduzir a duração da maturação, que
benefício isso seria para a sociedade! Consideremos o cavalo.
Eles consideraram-no.
- Adulto aos seis anos; o elefante aos dez, enquanto aos treze um homem não é ainda adulto
sexualmente e não o é fisicamente senão aos vinte. Daqui, naturalmente, esse fruto do
desenvolvimento retardado: a inteligência humana. Mas entre os Epsilões - continuou muito
justamente o Sr. Foster - não temos necessidade de inteligência humana. Não há necessidade e,
portanto, não se obtém. Mas, se bem que entre os Epsilões o espírito esteja maduro aos dez anos,
é necessário esperar dezoito para que o corpo esteja apto para o trabalho. Tantos anos de
maturidade, supérfluos e sem utilidade! Se fosse possível acelerar o desenvolvimento físico até o
tornar tão rápido como, digamos, o de uma vaca, que enorme economia poderia daí resultar para
a comunidade!
- Enorme! - murmuraram os rapazes.
O entusiasmo do Sr. Foster era contagioso. As suas explicações tornaram-se mais técnicas: falou
da coordenação anormal das endócrinas, que faz que os homens cresçam tão lentamente, e
admitiu, para explicar tal facto, uma mutação germinal. Poder-se-ão destruir os efeitos dessa
mutação? Poder-se-á fazer retroceder o embrião do Epsilão, por meio de uma técnica
apropriada, até ao carácter normal que existe entre os cães e as vacas? Tal era o problema. E
estava quase a ser resolvido.
Pilkington, em Mombaça, tinha conseguido produzir indivíduos sexualmente aptos aos quatro anos
e de tamanho adulto aos seis e meio. Um triunfo científico, mas, socialmente, sem utilidade. Os
homens e mulheres de seis anos e meio eram demasiado
12
estúpidos, até mesmo para realizar o trabalho de um Epsilão. E o processo era do género tudo ou
nada: ou não se Conseguia modificar nada, ou se modificava tudo completamente. Tentava-se
ainda encontrar o meio termo ideal entre adultos de vinte anos e adultos de dez. Infelizmente, até
ao presente, sem sucesso algum. O Sr. Foster suspirou, meneando a cabeça.
As suas peregrinações na penumbra avermelhada tinham-nos levado, próximo do metro cento e
setenta, ao porta-garrafas n.º 9. A partir desse ponto, o porta-garrafas desaparecia numa abertura
e as provetas terminavam o restante trajecto numa espécie de túnel, interrompido aqui e ali por
aberturas de dois ou três metros de largura.
- O condicionamento ao calor - explicou o Sr. Foster. Túneis quentes alternavam com túneis frios.
O
frio estava combinado com outras sensações desagradáveis, sob a forma de raios X duros. Logo
que eram decantados, os embriões tinham horror ao frio. Estavam predestinados a emigrar para
os Trópicos, a serem mineiros, tecelões de seda de acetato, operários de fundição. Mais tarde, o
seu espírito seria formado de maneira a confirmar o julgamento do corpo.
- Nós condicionamo-los de tal maneira que eles suportam bem o calor - disse o Sr. Foster,
concluindo. -
Os nossos colegas lá de cima ensiná-los-ão a gostar dele.
- E é aí - disse sentenciosamente o Director, à guisa de contribuição ao que estava a ser dito - que
está o segredo da felicidade e da virtude: gostar daquilo que se é obrigado a fazer. Tal é o fim de