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Antologia da Alimentacao no Bra   Luis da Camara Cascudo

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e outras bebidas; 12.000 sorvetes, 12.000
taças de punch, 20 peças de açúcar para centro de mesa e 500 pratos de
doces variados. Serviram-se 18 pavões, 80 perus, 300 galinhas, 350 frangos,
30 fiambres, 10.000 sanduíches, 18.000 frituras, 1.000 peças de caça, 50
peixes, 100 línguas, 50 mayonnaises e 25 cabeças de porco recheadas.”
Francisco Marques dos Santos. “As duas últimas festas da Monarquia”, no
Anuário do Museu Imperial, vol. II, 1941, p. 77, nota 1.
48 Hélio Vianna, “Diários de Exílio de D. Pedro II”, folhetins publicados no
Jornal do Commercio a 17 e 24 de abril, 1º de maio de 1964. Farão parte do
livro Novos estudos de história imperial.
Nota: Estudo especialmente escrito para Antologia da alimentação no
Brasil. O autor, Hélio Vianna, era professor universitário de História,
eminente pesquisador, grande conhecedor do Brasil Imperial e historiador.
31 – Um jantar baiano em 1889
J. M. CARDOSO DE OLIVEIRA (1865-1962)
Achavam-se todos reunidos em casa do Tavares, que disto fizera questão
de gabinete. “Apesar de só conhecer de vista o sr. Santos Pinto, esperava que
ele lhe desse a honra de vir com a família, em companhia do Luz, que um
mau jantar se passava depressa”, dissera.
O modesto empregado, homem de parcos recursos, d. Eugênia, sua
mulher, e a Inacinha, a filha casada, havia pouco tempo, com um moço
português, empregado numa fundição no Pilar, timbravam em suprir com as
mais delicadas atenções e requintadas finezas o que faltava em luxo ao
apetitoso jantar. Neste abundavam os pratos baianos, correspondendo ao
desejo que, em conversa, o Luz manifestara de conhecê-los. Melhor ocasião
não se lhe poderia deparar, porque se d. Eugênia era perita doceira, não era
menos uma cozinheira de nota. Naquele dia, então, se esmerou. Desde
manhã estava a casa em rebuliço. Na véspera, mandara o Tavares da cidade
baixa dois ou três ganhadores com os balaios carregados de mercearias
compradas pela cuidadosa lista que lhe dera a mulher. E o que ia por aquela
sala de jantar! O sofá cheio de vasos com flores, embrulhos, rumas de pratos
e guardanapos. Nas janelas estendia-se uma fila de compoteiras de doces.
Em cima da mesa enfileiravam-se as terrinas com ovos batidos, os alguidares
de massas, os pacotes de noz-moscada, de cravo e de açúcar. A um canto a
Inacinha, apesar de enjoada, temperava o pão de ló, os bons-bocados, os
manuês; na cozinha as raparigas aprontavam o caruru de quiabo e de folhas,
sessavam a farinha para o vatapá, catavam camarões para o efó. As pretas
africanas na quitanda na mesma rua forneciam os abarás, acarajés e aberéns.
D. Eugênia tomara ao seu cargo os bolinhos de aipim, os acaçazinhos de leite
e as suas duas especialidades – as queijadinhas de coco e o toucinho do céu;
mas metia a sua colher em tudo, provando aqui, adicionando manteiga
acolá.
– Justina, não te esqueças da cabidela.
– A galinha está muito dura, Iaiá, não quer cozinhar.
– Põe duas rolhas de cortiça dentro, negrinha, que amolece logo.
– Farta vinagre, sinhá, só chegou para pôr o peru de vinha-d’alho.
– Fizeste-o beber bastante cachaça para a carne ficar macia?
– Sim, senhora.
– Toma o ponto da cocada, Folô.
– Mamãe, e a frigideira de camarões?
– A Joana está fazendo.
– Toma sentido que o leite não queime!
– Espreme o coco, Sabina; que negrinha vagarosa, meu Deus! Olha que é
para o feijão. Já está catado?
– Estou ainda ocupada com o cuscuz.
– Iá Inacinha, veja Totônio que está furtando as amêndoas.
– Passa pr’aqui, moleque! Já sentado naquele canto!
Atarefadas como estavam as duas senhoras, de mangas arregaçadas, mas
sem perder a cabeça no meio de tanta confusão, apresentou-se-lhes para a
palestrinha do costume o primo Elias, comensal do Tavares e amigo do mata-
rato e das calçadas. Gostava de fazer versos e metera-se em cabeça compor
uma ode à prima Eugênia no seu aniversário natalício, cuja data ela por
pirraça nunca lhe tinha querido dizer. De resto, que necessidade havia disto,
se d. Eugênia, bem conservada, jovial e calma, aguentava muito mais
galhardamente o peso dos anos, do que suportaria o dos versos? A lira do
Elias era fanhosa, mas pródiga... O pobre Tavares que o dissesse. Se o não
sustentava, nutria-lhe ao menos a convicção de que não perdia o seu tempo.
Fechava-lhe o caminho a outras ocupações que julgava abaixo de um vate, é
verdade, mas abria-lhe as portas da posteridade!
Aqueles preparativos de festa, cujo verdadeiro motivo ele ignorava,
fizeram-no desconfiar. Ofereceu-se para ajudá-las em alguma coisa e
maliciou:
– Temos mouro na costa; vai haver foliata?
– Esperamos uns amigos do Tavares para jantar. Se você quiser, apareça.
O Elias sorriu com ar incrédulo; farejou tudo, olhando para a prima,
para o chão muito bem lavado e coberto de areia e folhas de pitanga, para o
ar e para todos os lados, onde se viam florões e enfeites de “barbas-de-barata”
e folhas da Independência e afirmou balançando o dedo como um finório
que se não deixava iludir:
– Não me embaça, não, minha prima. Esta casa hoje... Você faz anos!...
Pegou o lápis! D. Eugênia viu o perigo e cortou-lhe as asas da inspiração.
– Pois sim, como você quiser, contanto que me ajude a desembaraçar
esta mesa que o Tavares não tarda.
E era tempo, porque este, suando e sobraçando cinquenta embrulhos,
chegou dentro em pouco, folgazão, fez uma carícia à filha, deu um beijo na
mulher, um piparote no Totônio, uma palmada no Elias; e, em mangas de
camisa, de martelo em punho, pregou duas tábuas para aumentar a mesa,
algumas arandelas pelas paredes e um susto ao poeta, dizendo-lhe que lhe
havia arranjado um emprego. E depois, gabando à mulher, radiante de
alegria, a prontidão e o bom gosto dos seus arranjos, dava-lhe ao mesmo
tempo a boa-nova de que a festa seria abrilhantada pela presença do velho
professor Buriti, exímio artista no violão, e do afamado flautista Libêncio:
– Eles gostam de tocar duetos de improviso, um criando dificuldades ao
outro, para o levar à parede, e nunca houve vencedor, nem vencido. Ah!
Vem também o Zeca do cavaquinho.
– Quem é?
– Aquele português que encontramos um dia na recepção em palácio.
– Ah! sim! Toca divinamente.
– Pois por causa do toque, minha amiga, o Presidente, ao retirar-se,
arranjou-lhe um bom emprego que exerce até agora. Veja o que é ter
prendas!
O Elias rejubilou, lembrando-se da lira, e mais influído que nunca,
martelou:
Excelsa estrela, sem medir o abismo...
Mas o que ele também não mediu foi o passo porque, avançando com ar
resoluto e heroico para cruzar o imaginário abismo, cuja dimensão tão pouco
lhe importava, arrumou uma valente pisadela no pé do Totônio,
desalojando-lhe o melhor dos bichos. Assustado pelo grito do moleque, o vate
deu um pinote, e perdendo com o fio da ode o equilíbrio do corpo, com tal
força agarrou as longas correntes de um relógio de parede, que este lhe caiu
em cheio no planalto da careca reluzente, apavorando os pacatos habitantes
das capoeiras circunvizinhas; e, por uma irônica alegoria, o lápis, que com o
papel lhe saltara das mãos, foi prender a folha branca no pão recheado,
onde se espetou endereçando efetivamente à iguaria a ode ideada à prima.
Bateram palmas na porta da rua.
– Quem é?
– Não é ninguém não, sou eu.
– Eu quem?
– Tiago, irmão! Uma esmola para o Divino Espírito Santo!
– Entre.
E apareceu na sala um indivíduo entre moço e velho, suando ranço,
incenso e rapé, e trazendo uma opa encarnada e uma vara, em cuja ponta
uma pomba de prata simbolizava o Espírito Santo. Do peito pendia-lhe uma
chapa do mesmo metal, representando idêntico símbolo. Ambos foram
respeitosamente beijados por todos os que estavam na sala e pelo pessoal de
serviço, que para isso veio da cozinha, retirando-se o homem da opa com
uma esmola, depois de haver bebido um copo de vinho oferecido por d.
Eugênia.
– Deus lhe acrescente – disse ao sair; não rezando a história se o
agradecimento se referia à esmola