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Antologia da Alimentacao no Bra   Luis da Camara Cascudo

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umas poucas prateleiras. Sobre
uma banqueta, adrede construída, acham-se potes contendo água, sempre
pronta para dela se beber ou fazer outro uso qualquer; e por cima deles há
uma concha, feita de um coco vazio, que serve para tirar água dos potes e de
copo para os escravos.
Quando da minha primeira estada, havia muitas relações entre ingleses
e a gente da terra. Os estrangeiros faziam o que podiam por acompanhar os
gostos e as maneiras dos residentes; no entanto e a pouco e pouco, sendo as
visitas feitas e pagas, nossos modos e usos foram se introduzindo entre eles. A
hora do jantar era cerca do meio-dia; pela justaposição de duas ou mais
mesinhas formava-se uma única, comprida e estreita, tão alta que dava pelo
peito quando a pessoa a ela se assentava; os assentos eram constituídos por
tamboretes toscos ou cadeiras. Cobria-se a mesa com uma toalha de algodão
limpa, porém grosseira, com alguns bordados abertos e franjas nas
extremidades. Nunca jantei em casa brasileira que parte dos objetos de mesa
não fossem ingleses, especialmente a louça e a cristaleira. Antes de tais luxos
terem sido introduzidos, usavam de pratos de estanho ou de uma espécie de
cerâmica holandesa, com uns pequeninos copos portugueses sem pé,
estreitos no fundo e com a boca larga; cabaças e cocos, em lugar de terrinas e
xícaras, eram comuns, mesmo quando tinham convidados. As colheres e os
garfos eram de prata, ambos pequenos e frequentemente de modelo antigo.
Cada convidado comparecia com sua própria faca, em geral larga,
pontiaguda e com cabo de prata. Por vezes havia pessoas que faziam grande
exibição de metais preciosos e joias; não raro que a fortuna andasse
justamente nas mãos daqueles que menos conheciam os modos de usar dela
com graça e conforto.
Antes de servir-se o jantar, os convidados todos, no caso de serem só
homens, ficavam livres de seguir sua própria fantasia, perambulando à toa,
ou recostando-se em cadeiras, mesas, camas ou esteiras, no soalho. Havia
outro ponto em que todos pareciam também estar à vontade, sacando fora o
casaco, os sapatos e outras peças que o calor tornasse opressivas e, nalguns
casos, guardando apenas o traje que a decência requer. Quando presentes
senhoras, havia um pouco mais de consideração pelo decoro. Nesse caso, a
disposição à mesa parecia-nos estranha: ou bem as damas ficavam todas
juntas de um lado só e os cavalheiros do outro, ou bem a dona da casa
sentava-se ao lado do marido, tendo junto dela uma outra senhora e, então,
o marido desta, de tal maneira que duas esposas fiquem sempre no meio dos
seus respectivos cônjuges; moda indicativa de uma precaução zelosa, mas
não de todo desarrazoada entre um povo de cabeça tão quente. Constitui
prova de confiança notável e de grande respeito pela reunião o fato de se
trazerem moças solteiras para a mesa; mas este é um favor raramente
concedido. O dono da casa senta-se à cabeceira e serve as iguarias que, nos
dias livres do calendário, são de espécies variadas; nos dias santos, só servem
peixe, feito de maneiras diversas, em geral com uma quantidade suficiente
de azeite, embora não desagradável ao paladar. Os pratos são trazidos um
por um, serve-se uma porção a cada qual sucessivamente, ninguém recusa
nem principia a comer antes do último estar servido; põem-se, então todos
juntos, a devorar vorazmente o conteúdo de seus pratos.
Comem muito e com grande avidez e, apesar de embebidos em sua
tarefa, ainda acham tempo para fazer grande bulha. A altura da mesa faz
com que o prato chegue ao nível do queixo; cada qual espalha seus cotovelos
ao redor e, colocando o pulso junto à beirada do prato, faz com que, por
meio de um pequeno movimento hábil, o conteúdo todo se lhe despeje na
boca. Por outros motivos além deste, não há grande limpeza nem boas
maneiras, durante a refeição; os pratos não são trocados, sendo entregues ao
copeiro segurando-se o garfo e a faca numa mesma mão; por outro lado, os
dedos são usados com tanta frequência quanto o próprio garfo. Considera-se
como prova incontestável de amizade alguém comer do prato do seu
vizinho; e, assim, não é raro que os dedos de ambos se vejam
simultaneamente mergulhados num só prato. Usa-se de uma espécie de
vinho tinto fraco, mas, como este é bebido em copos, seus efeitos por vezes se
tornam fortes; antes do final da refeição, todos se tornam barulhentos,
exagera-se a gesticulação de que mesmo normalmente usam em suas
conversas e despedem punhadas no ar, de faca ou garfo, de tal maneira que
um estrangeiro pasma que olhos, narizes e faces escapem ilesos. Quando
facas e garfos se acham em repouso, fica cada um numa das mãos, vertical e
descansando sobre a extremidade do cabo, e quando deles não se tem mais
necessidade, limpa-se ostensivamente a faca na toalha da mesa e devolve-se
à bainha por detrás das costas. Ali fica ela, até que uma ocasião semelhante a
requeira; ou então faz-se uso dela para cortar uma varinha no mato, ou
talvez, ainda, para obedecer aos ditames da vingança.
Ficam à mesa cerca de duas horas. Os brasileiros não economizam o
vinho, tomando-o aos poucos. Bebe-se uma quantidade suficiente com a
comida, e as visitas à garrafa estendem-se muito longe. Quando um
cavalheiro toma vinho em companhia doutro, o grau da consideração que
reciprocamente alimentam se mede pela plenitude de seus copos, e ambos
tudo fazem para levá-lo aos lábios sem derramar uma gota; o vinho é
engolido num gole só e, tanto quanto possível, ao mesmo tempo para os dois.
Quando o dono da casa propõe uma saúde, em geral dedica-a a sua esposa;
e a fim de bem homenageá-la, já vi de uma feita, engolir-se de uma vez uma
garrafa inteira, sem tomar fôlego. Mas tais cortesias, em grande parte,
constituem novidade no Rio, ainda se tendo implantado firmemente nem
difundido muito. O fato é que elas foram adotadas em consideração aos
ingleses, dos quais desgraçadamente se contou que são muitos devotos da
garrafa. Os brasileiros, pouco acostumados a tais maneiras de cortejar,
frequentemente representam cenas de bestialidade para as quais a intenção
amistosa não constitui escusa bastante.
Terminado o jantar, traz-se o café, de que cada qual toma uma só xícara,
como sedativo. Surge então um escravo, de bacia e jarro, ambos em geral de
metal maciço e com uma grande toalha atirada ao ombro, vai de convidado
em convidado despejando água do jarro sobre as mãos que eles sustêm sobre
a bacia. Por esta forma ele lava tudo o que quer e não somente as mãos, como
também sua boca e talvez mesmo seu rosto e braços. Embora essas abluções
não sejam executadas com muito decoro, elas constituem um dos hábitos
mais asseados e de melhores maneiras da terra. Depois disso, cada qual se
retira para a sesta, distendendo os membros onde quer que encontre uma
sombra bastante para favorecer-lhe o repouso. Alguns há que estendem uma
esteira ao ar livre, sob a densa folhagem de uma árvore, entregando-se à
volúpia total da preguiça; outros que recorrem ao que enfaticamente
denominam suas diversões.
Esta descrição aplica-se, porém, quase que exclusivamente ao interior;
na cidade, as pessoas logo após o jantar retiram-se para suas respectivas
casas, onde repousam ou empregam a tarde como melhor lhes parece. Fora
da cidade, especialmente se a lua estiver quase cheia, o entardecer encontra
os convidados remanescentes em plena alegria de espírito; o sono já dissipou
os vapores do álcool, se é que dele se abusou, a roda aumentou com a
concorrência dos vizinhos e as guitarras soam, pois que todos sabem tocar; as
canções se sucedem, geralmente em tons macios e plangentes, e a dança
não fica esquecida. E desta maneira as horas da noite correm, ou nos lanços
sempre variados da manilha, ou em ditos jocosos e réplicas inteligentes, em
feitos de agilidade e folguedos inocentes (Rio de Janeiro, 1808).
No momento em que regressávamos, fomos abordados por um senhor de
boa aparência e maneiras polidas que nos informou ter dado