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cap 5

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se imaginarmos 
que uma pessoa que não conhece a verdade da sentença (20b), escute-a, necessariamente ela 
passará a ter um novo conhecimento sobre o planeta Vênus, pois agora a pessoa conhece dois 
sentidos diferentes para alcançar a referência Vênus, isto é, dois caminhos diferentes de se 
alcançar o mesmo objeto no mundo. Portanto, concluímos que, como conhecedores da língua, 
sabemos discernir que a sentença (20a) é diferente da sentença (20b), porque a segunda passa 
uma informação e a primeira não. Resta, portanto, ao semanticista explicitar essa diferença, 
pois, em termos de referência, vimos que isso não é possível. 
 Por isso Frege propõe a utilização da noção de sentido para se explicar a diferença 
entre as sentenças em (20). Façamos o mesmo tipo de raciocínio feito acima para a 
referência, usando também a noção de sentido. Se adotarmos a ideia de que cada expressão 
linguística transmite um sentido diferente, teremos, para (20b), que a expressão a estrela da 
manhã tem um sentido que é a ideia que eu tenho sobre o que é ser a estrela da manhã, que 
tem como referência o planeta Vênus no universo, e, portanto, tem como significado x. A 
expressão a estrela da tarde, por sua vez, tem o sentido que é a ideia que eu tenho sobre ser a 
estrela da tarde, que também tem como referência o planeta Vênus, e, portanto, tem como 
significado y. Se a função do verbo ser, nesse contexto, é de equivaler as duas expressões, 
concluímos que x = y. Essa equação, com certeza, está passando uma informação de que eu 
tenho duas maneiras de apresentar um mesmo objeto no mundo. Analisemos, pois, a sentença 
(20a). Temos que a expressão a estrela da manhã tem um sentido que é a ideia que eu tenho 
sobre o que é ser a estrela da manhã, que aponta para a referência Vênus no mundo, e, 
portanto, tem como significado x. Se a mesma expressão é equiparada na sentença pelo verbo 
ser, concluímos que x = x. Essa é uma sentença que não passa nenhum tipo de informação, 
pois não nos mostra nada de novo sobre o mundo. Esse é um primeiro argumento usado por 
 
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Frege para mostrar que é essencial adotar a noção do sentido, quando se analisa o significado 
de sentenças. 
 O segundo argumento de Frege está relacionado ao que ele chamou de contexto 
indireto e Quine (1960), de contexto opaco. Antes de entrarmos nessa questão propriamente, 
faz-se necessário falar rapidamente sobre o Princípio de Composicionalidade de Frege. O 
autor afirma que, em determinados contextos, o valor de verdade de uma sentença complexa 
é função exclusiva dos valores de verdade das partes que a compõem. Esse tipo de operação é 
totalmente cego para o sentido da sentença: dadas as referências das sentenças simples, 
calcula-se, mecanicamente, o valor de verdade de qualquer sentença complexa que contenha 
essas sentenças simples: 
 
 (21) a. A namorada do José é modelo. 
 b. A namorada do José é a moça mais bonita do bairro. 
 c. A namorada do José é modelo e é a moça mais bonita do bairro. 
 
Se (21a) tem como referência a verdade no mundo, ou seja, é uma sentença verdadeira, e 
(21b) também tem a mesma referência no mundo, ou seja, é uma sentença verdadeira, 
podemos afirmar que (21c) é verdadeira, sem que saibamos nada sobre o sentido das 
sentenças (a) e (b). Isso se deve ao fato de que (21a e b) são sentenças simples que compõem 
a sentença complexa (21c). Esse tipo de substituição possibilita criar uma linguagem 
extensional, isto é, uma linguagem em que somente é levada em conta a referência. Portanto, 
sentenças formadas pelo operador e e outros operadores como ou, se somente, se... então... 
são as chamadas sentenças extensionais, em que se pode aplicar o Princípio de 
Composicionalidade de Frege. Entretanto, há inúmeros casos a que esse princípio não se 
aplica. Por exemplo, as sentenças encaixadas após verbos que exprimem crenças não 
apresentam esse comportamento: são as chamadas sentenças de contexto indireto ou opaco. 
Usando esses casos, Frege mostra outro argumento a favor da utilização do sentido no estudo 
do significado. Vejamos o exemplo: 
 
 (22) O Dênis acredita que o presidente do Brasil é um gênio. 
 
 
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O valor de verdade da sentença acima não pode ser deduzido das partes que a compõem. Não 
podemos afirmar que se Dênis acredita em algo é uma sentença verdadeira, e que se a 
sentença o presidente do Brasil é um gênio é verdadeira também, então a sentença complexa 
em (22) é verdadeira. A verdade da sentença (22) depende de Dênis acreditar que o 
presidente do Brasil é um gênio, e não da verdade de o presidente do Brasil é um gênio; tanto 
que isso pode não ser verdade, o presidente do Brasil pode não ser um gênio, e a sentença 
(22), que exprime o fato do Dênis acreditar nisso, continuará verdadeira. Essas sentenças são 
chamadas de sentenças intensionais, pois elas dependem do sentido ou intensão. Sendo a 
língua repleta de sentenças desse tipo, fica evidente que não é possível se pensar em 
significado sem a composição do sentido e da referência. 
 Vejamos outro exemplo com sentenças intensionais e extensionais: 
 
 (23) a. A namorada do José é modelo. 
 b. A namorada do José é a moça mais bonita do bairro. 
 c. A moça mais bonita do bairro é modelo. 
 
Vemos que em (23), a verdade das sentenças (a) e (b) acarreta necessariamente a verdade de 
(c). Isso se dá porque as sentenças em (23) são exemplos de sentenças extensionais e seguem 
o princípio de Composicionalidade de Frege, permitindo a substituição de expressões que 
tenham o mesmo referente
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. Tentemos verificar a mesma relação para sentenças intensionais: 
 
 (24) a. Um ex-operário da classe trabalhadora é o presidente do Brasil. 
 b. O João acredita que o presidente do Brasil está ajudando o país. 
 c. O João acredita que um ex-operário da classe trabalhadora está ajudando o país. 
 
Se é verdade a sentença (a) e a sentença (b), não podemos concluir necessariamente a verdade 
de (c), pois o João pode não saber que ex-operário da classe trabalhadora e o presidente do 
Brasil têm a mesma referência no mundo. Ou seja, com sentenças intensionais não podemos 
fazer a substituição de expressões que tenham a mesma referência no mundo, como é 
possível com as sentenças extensionais, sem que se altere o valor de verdade das sentenças. 
 
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 Veja que as sentenças em (23) usam o operador se a e b então c. 
 
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Portanto, não se aplica o Princípio da Composicionalidade. Frege não propõe um tratamento 
formal para esse tipo de sentença, mas observa que existe uma referência indireta em todas as 
sentenças intensionais e que a substituição nesses casos será possível, se mantivermos o 
sentido da expressão. Nas sentenças intensionais, a verdade não é uma função dos valores das 
partes e o Princípio da Composicionalidade não se aplica. Entretanto, pode haver uma 
substituição desde que se mantenha o mesmo sentido. Para Frege, a referência das sentenças 
em contextos opacos ou indiretos não é a referência ordinária, o objeto no mundo. A 
referência nesse tipo de sentença é uma referência indireta e se refere ao sentido da sentença. 
Vejamos como pode ser feito esse tipo de substituição: 
 
 (25) a. A professora de semântica é a mãe do Frederico. 
 b. O João acha que a professora de semântica é otimista. 
 c. O João acha que a mãe de Frederico é otimista. 
 d. O João acha que a pessoa que ensina semântica é otimista. 
 
Veja que, se eu substituir as expressões que têm a mesma referência, (25b) e (25c), eu não 
posso afirmar que a verdade da segunda decorre da verdade da primeira, pois o João pode não 
saber que a mãe de Frederico e a professora de Semântica são a mesma pessoa. Entretanto, se 
eu substituir (25b) por (25d), a verdade da sentença não se altera, pois a expressão

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