A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
4 pág.
INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA

Pré-visualização | Página 1 de 2

�PAGE �
�PAGE �4�
CURSO DE DIREITO
ANTROPOLOGIA APLICADA AO DIREITO – texto n° 1
PROFA. MARIA LUIZA HEINE
INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA
(Alves e Santos, 2007)
1. História da Antropologia
Os antecedentes da criação da Antropologia como ciência humana e social estão vinculados ao Século XVI em diante (descoberta do continente americano, renascimento greco-romano na Europa, emergência do capitalismo comercial e dos Estados Nacionais na Europa Ocidental, o neo-colonialismo europeu, o positivismo e evolucionismo científico na Europa etc.).
Segundo Azcona, os pensadores do Século XVI começaram a vislumbrar o problema da alteridade multicultural, como também, de suas próprias instituições e valores. Houve perplexidade diante da diversidade.
No entender de Laplantine, tais questionamentos se manifestam através de duas ideologias divergentes entre si, em relação ao selvagem americano: a) a recusa do estranho apreendido, cujo corolário é a boa consciência que se tem sobre si e sua sociedade; b) a fascinação pelo estranho, cujo corolário é a má consciência que se tem sobre si e sua sociedade.
Ainda segundo Laplantine, no que diz respeito ao selvagem americano, a grande questão é a seguinte: aqueles que acabaram de ser descobertos pertencem à humanidade, quando o critério essencial é religioso? O selvagem tem alma? O pecado original também lhe diz respeito?
As respostas para estas questões oscilam entre as ideologias do mau e do bom selvagem.
Na percepção de Laplantine, estas atitudes etnocentristas e aparentemente protecionistas, em relação aos ameríndios, foram marcantes nos relatos dos viajantes dos séculos XVI e XVII, que buscavam mais entendimento cosmológico do que pesquisa etnográfica. Afora algumas incursões tímidas para a área das inclinações e dos costumes, o objeto de observação, nessa época era mais o céu e a terra, a fauna e a flora, do que o ser humano em si mesmo.
Segundo Laplantine, o final do século XVIII teve um papel essencial na elaboração da Antropologia científica, mas devemos admitir as limitações desse século. São dois os motivos dessas limitações:
1° - A distinção entre o saber científico e o saber filosófico, mesmo sendo abordada, não é de forma alguma realizada.
2° - O discurso pré-antropológico do século XVIII é inseparável do discurso histórico desse período, isto é, de sua concepção de uma história natural, liberada da teologia animando a marcha das sociedades no caminho de um progresso universal.
É no século XIX que se constitui a Antropologia enquanto disciplina autônoma: a ciência das sociedades primitivas em todas as suas dimensões (biológica, técnica, econômica, política, jurídica, religiosa, lingüística e psicológica). Esta autonomia é favorecida pelo contexto geopolítico do século XIX, com o surgimento do neo-colonialismo europeu, onde o tratado de Berlim de 1885 partilha o continente africano entre as potências européias. Nessa época, a África, a Índia, a Austrália e a Nova Zelândia passam a ser povoadas por um número considerável de emigrantes europeus. Instalou-se uma rede de informações, com questionários sendo enviados por pesquisadores das metrópoles (em especial da Grã-Bretanha) para os quatro cantos do mundo, e cujas respostas constituem os materiais de reflexão das primeiras grandes obras da Antropologia.
Estas obras têm o objetivo do estabelecimento de um verdadeiro corpus etnográfico da humanidade, caracterizando-se por uma mudança radical de perspectiva em relação aos séculos XVI, XVII e XVIII; o indígena das sociedades extra européias não é mais o mau ou o bom selvagem dos séculos anteriores; tornou-se o primitivo, isto é, o ancestral do civilizado europeu. O neo-colonialismo vinculará a Antropologia científica emergente ao conhecimento da cultura primitiva das civilizações não européias, visando sua aculturação através de um discurso científico evolucionista.
2. As Teorias da Cultura e o surgimento da Antropologia científica
No século XIX, com o neo-colonialismo europeu sobre os continentes da África, da Ásia e da Oceania, ocorreu gradativamente o surgimento da Antropologia Científica, a serviço dos Estados europeus, onde a visão científica predominante era o evolucionismo.
A Antropologia se desenvolveu como ciência humana, libertando-se do controle dos Estados neo-colonialistas, construindo sua epistemologia, seus objetos de estudo, seus métodos teóricos e de pesquisa de campo, suas escolas, desde o século XIX, até os nossos dias.
3. Conceituando Antropologia
O termo Antropologia, etimologicamente, significa (anthropos=homem; logos=estudo) o estudo do homem. Atualmente podemos estender esta idéia a toda a humanidade, dando-lhe um significado de Ciência da Cultura da humanidade, em seu tríplice aspecto interdisciplinar:
a) Ciência Social – propõe conhecer o ser humano enquanto integrante de grupos sociais organizados.
b) Ciência Humana – estuda o ser humano como um todo, sua história, suas crenças, usos e costumes, filosofia, linguagem etc.
c) Ciência Natural (Biológica) – estuda o conhecimento somático do ser humano e sua evolução física e genética.
3.1. As diferenças entre Etnologia e Antropologia
Existe, ainda hoje, uma polêmica entre Etnologia e Antropologia para designar a Ciência Social que estuda a Cultura do gênero humano.
A palavra Etnologia estuda a Cultura das Etnias humanas (termo mais utilizado pelos franceses como sinônimo de Antropologia).
Entretanto, nos países anglo-saxônicos se utiliza o termo Antropologia como estudo da cultura ampla do gênero humano.
A Antropologia social (termo utilizado pelos britânicos) tem como objeto de estudo as instituições sociais, desde as tradicionais até as modernas.
Todavia, a Antropologia cultural (termo utilizado pelos norte-americanos) estuda os comportamentos humanos nas sociedades simples e complexas.
Para efeitos didáticos, adotamos o pensamento de Laplantine, que adotou o pensamento de Lévi-Strauss, que compreende que a Etnografia, a Etnologia e a Antropologia constituem os três momentos do processo de pesquisa no campo antropológico, a saber:
- A Etnografia é a coleta direta, e o mais minuciosa possível, dos fenômenos que observamos, por uma impregnação duradoura e contínua e um processo que se realiza por aproximações sucessivas. Esses fenômenos podem ser recolhidos tomando-se notas, mas também por gravação sonora, fotográfica ou cinematográfica.
- A Etnologia consiste em um primeiro nível de abstração: analisando os materiais colhidos, fazer aparecer a lógica específica da sociedade que se estuda.
- A Antropologia consiste em um segundo nível de inteligibilidade: construir modelos que permitam comparar as sociedades entre si.
3.2. Objeto de estudo.
No entender de Presotto e Marconi, o objeto de estudo da Antropologia engloba as formas físicas primitivas e atuais do ser humano e suas manifestações culturais. Interessa-se, preferencialmente, pelos grupos simples, culturalmente diferenciados, e também pelo conhecimento de todas as sociedades humanas, letradas ou ágrafas, extintas ou vivas, existentes nas várias regiões da Terra.
3.3. Divisão e Campos da Antropologia.
A antropologia, sendo uma ciência que estuda a cultura da humanidade, tem um campo de investigação científica amplo, pois atinge toda a terra habitada, no espaço e no tempo, engloba todas as sociedades simples no passado e presente e sociedades complexas atuais. Em relação à tipificação específica de seus campos de estudo, não existe um consenso geral entre os antropólogos. Laplantine divide a Antropologia em:
a) Antropologia Biológica (ex-física): consiste no estudo das variações dos caracteres biológicos do ser humano no espaço e no tempo. Sua problemática é das relações entre o patrimônio genético e o meio geográfico, ecológico, social; estuda as formas de crânios, mensurações de esqueletos, tamanho, peso, cor da pele, anatomia comparada das etnias e dos sexos e pela genética das populações, que permite discernir

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.