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FACULDADE DE DIREITO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO
MARIANA GOMES DE OLIVEIRA
PSICOPATIA NO ÂMBITO DO DIREITO PENAL
SÃO BERNARDO DO CAMPO - SP
2018
MARIANA GOMES DE OLIVEIRA
RA 16.528 – 5ºG
PSICOPATIA NO ÂMBITO DO DIREITO PENAL
Trabalho de Conclusão de Curso (Monografia) apresentado à banca Examinadora da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, como exigência parcial para obtenção do grau de Bacharel em Direito.
Orientador: 	Professor Alberto Soiti Yoshita.
SÃO BERNARDO DO CAMPO - SP
2018
DEDICATÓRIA
À minha família e meu amor, razões e fontes de incentivo de toda esta jornada.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a todos os amigos, parentes e familiares que de alguma forma e na sua medida contribuíram para a realização desse trabalho. Agradeço ao meu companheiro de vida por todo o apoio, incentivo e motivação dado ao longo de toda essa caminhada, ao professor Alberto Yoshita por toda paciência, ajuda e orientação, aos amigos que sempre acreditaram e incentivaram o desenvolvimento deste projeto e à minha família, maior incentivadora da realização deste sonho. Um sonho sonhado sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade.
RESUMO
A presente monografia tem como fim abordar a temática da psicopatia sob o prisma do direito penal, assunto tão pouco debatido e abordado em nosso campo acadêmico. Mediante pesquisas doutrinárias e jurisprudenciais, procurou-se elucidar o posicionamento de nossa justiça acerca do tratamento dado ao criminoso psicopata, sintetizando as características comportamentais do agente, a aplicação do direito ao indivíduo psicopata no que se refere a sua imputabilidade, semi-imputabilidade ou inimputabilidade, bem como aplicação da pena adequada. Assim como disposto ao longo do trabalho, o estudo não visa buscar uma solução para a problemática do psicopata no campo do direito penal, seu objetivo final é proporcionar uma análise e reflexão acerca do tema, com base no cenário legislativo atual.
Palavra-chave: Psicopatia. Psicopata. Imputabilidade. Semi-imputabilidade. Inimputabilidade. Pena. 
ABSTRACT
This monograph aims to address the issue of psychopathy under the prism of criminal law, a subject not so much debated and addressed in our academic field. Through doctrinal and jurisprudential research, we sought to elucidate the position of our justice regarding the treatment given to the criminal psychopath, synthesizing the behavioral characteristics of the agent, the application of the right to the psychopathic individual with regard to their imputability, semi-imputability or imputability, as well as applying the appropriate penalty. As stated throughout the paper, the study does not seek to find a solution to the problem of the psychopath in the field of criminal law, its ultimate goal is to provide an analysis and reflection on the subject, based on the current legislative scenario.
Keyword: Psychopathology. Psycho. Imputability. Semi-imputability. Incomputability. Penalty.
INTRODUÇÃO
	Antes de darmos início ao tema, cumpre salientar que o presente trabalho não tem por finalidade conceituar a psicopatia de maneira aprofundada, tampouco esgotar o tema sobre o assunto, pois trata-se de matéria de extrema complexidade, de modo que o assunto será abordado através do prisma do panorama geral, bem como a formação geral do conceito ao longo do tempo.
	O presente trabalho tampouco tem por objetivo trazer uma solução definitiva para a problemática acerca da psicopatia, visto que não existe a estimativa de uma cura para a psicopatia, ou sequer um tratamento eficaz quando o indivíduo se encontra na fase adulta.
	O presente trabalho tem por objetivo trazer uma análise a respeito da figura do psicopata dentro do sistema jurídico brasileiro e proporcionar uma reflexão acerca das adequações das sanções e penalidades às quais são submetidos, bem como sua respectiva efetividade.
	No que diz respeito à psicopatia, é necessário elucidar inicialmente que a história do conceito tem seguido um caminho nebuloso e sinuoso, resultante das divergentes denominações utilizadas ao longo dos anos.
	O fato é que o termo “psicopatia” vem sendo utilizado com muita frequência, seja em documentos legais, pareceres jurídicos, mas principalmente nas realizações de perícias inerentes as áreas do direito penal e até mesmo, em alguns casos, de matéria civil. Todavia, o termo muitas vezes é utilizado de maneira errônea, em seu sentido amplo e não técnico, em situações que muitas vezes não são adequadas as características que integram verdadeiramente o indivíduo psicopata.
	Efetivamente, a expressão personalidade psicopática, em seu conceito atual, foi introduzida no final do século XVIII, para designar um grupo de extensas patologias de comportamentos sugestivos de psicopatologias, mas que não correspondem a qualquer outra categoria relacionada a desordem ou transtorno mental.
	Por certo, a expressão é dotada de diversas interpretações, dependendo da utilização dos profissionais das áreas do direito ou das áreas específicas da saúde, sendo de grande importância estabelecer a sua verdadeira denominação e segui-la em todos os usos, independentemente de sua área de atuação.
	Diferente do que popularmente se supõe, a psicopatia não é um transtorno mental semelhante a mesma ordem da depressão, do retardo mental. Embora ainda exista muita discussão a respeito, existe uma grande vertente que defende a não classificação da psicopatia não como um transtorno mental, mas sim como um transtorno de personalidade, vertente adotada para darmos o seguimento do tema em nosso trabalho.
	Do mesmo modo, em sua parte cognitiva ou racional, os psicopatas possuem integridade e perfeição, ou seja, os indivíduos psicopatas são integralmente lúcidos e sãos de suas ações. No entanto, no que diz respeito os seus sentimentos e emoções, são absolutamente deficitários, desprovidos de afeto e de profundidade emocional.	Verifica-se que, de todo modo, embora a definição fiel do termo de psicopata dê a falsa impressão de que se trata de indivíduos loucos ou doentes mentais (do grego, psyche = mente; e pathos = doença), os termos médico-psiquiátricos não se encaixam na visão tradicional de classificação de doenças mentais. 
	Os indivíduos psicopatas não apenas não são considerados loucos como não apresentam qualquer tipo de desorientação. Do mesmo modo, não sofrem de delírios ou qualquer tipo de alucinações, como a esquizofrenia, e tampouco apresentam sofrimento mental, como pânico ou depressão.
	Destarte, o presente trabalho tem como fim apresentar a figura do indivíduo psicopata em sua essência, de modo a desmistifica-lo e incorpora-lo no campo jurídico brasileiro. Contudo, para tanto, é necessária uma análise no campo social e psicológico no qual o indivíduo se desenvolve e habita, de modo a demonstrar o quanto a sua interpretação pode influenciar na aplicação de sua pena.
	De pronto, é imprescindível um estudo sobre as inúmeras classificações dos aspectos da psicopatia, colocados à disposição pela Psicologia Moderna que dispõe de tais denominações sob diversos pontos de vista da psicopatia. 
	De antemão, é possível afirmar que o principal aspecto sobre a personalidade psicopata espelha reflexos na esfera jurídica, no que concerne à presença ou ausência de consciência do indivíduo. 
	Sendo assim, indispensável a análise da capacidade do psicopata de realizar ou não julgamentos morais, e do mesmo modo, de determinar, ou não, suas ações de acordo com o referido entendimento. A definição e classificação da psicopatia possui resultado direto nas decisões jurídicas, vez que podem deliberar à respeito da incidência ou não da imputabilidade do indivíduo psicopata.
	Outrossim, imprescindível também uma análise de como ocorre a punição aos indivíduos psicopatas, conjuntamente com o questionamento de se devem ou não ser classificados como doentes mentais, bem como os demaisfatores das circunstancias do crime, e as razões que os motivaram.
	Será abordado também a culpabilidade dos referentes indivíduos psicopatas dentro do sistema penitenciário brasileiro, discorrendo a respeito da sua imputabilidade, semi-imputabilidade e inimputabilidade.
1 	A PSICOPATIA E O INDIVÍDUO PSICOPATA
A evolução do estudo da psicopatia na história
	As primeiras discussões a respeito da psicopatia na história datam do final do século XVIII, quando psiquiatras e filósofos passaram a realizar estudos sobre o paralelo entre o livre arbítrio e a transgressão moral e a possibilidade da compreensão de alguns agentes da consequência de tais atos. 
	Desde os primeiros relatos, os especialistas se depararam com indivíduos que, muito embora não evidenciassem sintomas delirantes, alucinatórios ou sequer deficiências mentais, ainda assim, apresentavam indícios de insanidade mental. 
	O médico psiquiatra francês, Philippe Pinel, publicou em 1801, em seu tratado médico filosófico sobre a alienação mental ou a mania, a sua admiração ao se deparar com indivíduos classificados como loucos que, mesmo relacionados a atos impulsivos e autodestrutivos, em momento algum, apresentavam prejuízo de seu entendimento, encontrando-se em boa parte do tempo, dominados por aparente furor instintivo, apresentando dano somente em suas faculdades instintivas. Segundo Philippe, tal alteração poderia ser ocasionada pela ausência ou falha na educação aplicada na formação de tais indivíduos ou até mesmo decorrente de traços de perversidade resultantes de sua própria natureza.
	Philippe Pinel atribuiu aos referidos casos a denominação de manie sans delire (insanidade sem delírio), dando início à possibilidade da existência de um indivíduo insano (“manie”), mas sem qualquer traço de confusão mental (“sans delire”) (Millon; Simonsen; Birket-Smith, 1998, p.4).
	Assim como Philippe Pinel, o médico psiquiatra inglês James Cowles Prichard (1786-1848), também acreditou na possibilidade da existência da insanidade sem que houvesse o comprometimento das faculdades intelectuais. Em sua obra “Treatise on insanity and other disorders affecting the mind”, publicada em 1835, James apresenta o conceito de insanidade moral para denominar sujeitos aos quais a moral ou os princípios de conduta eram distorcidos com traços de perversidade, apresentando indicadores de personalidade antissocial (apud Trindade, 2009).
	Prichard foi o primeiro estudioso sobre o tema a apontar a possibilidade da influência direta do meio externo à característica da perturbação do agente, propondo como solução a utilização de medidas ambientais que pudessem possibilitar aos indivíduos desviados a sua reintegração ao meio compatível (Cantero, 1993, p. 20). 
	Rebatendo a problemática do meio externo como influenciador da característica de perturbação apresentada por Prichard, o psiquiatra alemão Kurt Schneider (1787-1967), apresentou em 1888 uma proposta diferenciada para a denominação da perturbação da personalidade, conceituando como “inferioridade psicopática”, definida como uma anomalia de caráter, originada, na maioria das vezes, a aspectos congênitos ou aspectos resultantes de enfermidade psíquica (Gonçalves, 1999, p. 43).
	No entanto, foi o médico psiquiatra alemão Emil Kraepelin (1856 – 1926) que apresentou o termo “personalidade psicopata” conhecido nos dias atuais. Kraepelin elaborou uma tipologia composta por treze categorias base que descreviam tipos de indivíduos que possuíam característica comportamental criminosa anormal ou imoral (Lykken, 1995, p. 37).
	Kurt Shneider (1897 - 1967), também psiquiatra alemão, diferentemente de Kraepelin, incorporou à expressão “personalidade psicopata” definição contrária, dando à expressão o sentindo de entidade integradora de determinadas patologias, introduzindo um comparativo esclarecedor sobre os conceitos de doença mental e de psicopatia, permitindo a conclusão de ser equivocada a definição, como doença mental, de perturbações baseadas em aspectos psíquicos (Cantero, 1993, p. 28-29).
	De acordo com a sua concepção, os desvios quantitativos das características normais do indivíduo teriam maior influência para a psicopatia, enfatizando a importância dos aspectos predisposicionais. Deste modo, Schneider utilizou a tipologia de personalidades psicopáticas composta por um conjunto de indicadores instituída por Kraepelin, para agrupar as personalidades psicopáticas em 10 categorias, quais sejam: asténicos, abúlicos, apáticos, explosivos, lábeis de humor, carentes de valor, fanáticos, inseguros, depressivos e hipertímicos (Gonçalves, 1999, p. 58-60).
	Ainda sobre a história da evolução da definição do conceito de psicopatia, necessário evidenciar dois grandes momentos de contribuição. Um deles, marcado pelo trabalho do estudioso Hervey Cleckley (1941 – 1976), que através da Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association) contribuiu para o desenvolvimento da classificação das perturbações mentais.
	De modo geral, Cleckley conceitua a psicopatia como um conjunto de características ou traços de personalidade que podem estar presentes em indivíduos que podem ou não apresentar histórico de antissocialidade, que manifestam-se inicialmente durante a infância, agravando-se na adolescência e perdurando na fase adulta (Gonçalves, 1999, p. 96).
	Com um estudo admirável elaborado na década de 40, Cleckley foi um dos primeiros estudiosos a apresentar uma concepção definitiva e abrangente do conceito de psicopatia em sua obra “The Mask of Sanity” (1941), sendo capaz de identificar inúmeros traços característicos do perfil clínico psicopático, sendo estas: charme superficial; inteligência; ausência de delírios e qualquer outro comportamento que remeta a sinais de pensamento irracional (razão pela qual a psicopatia não deve ser denominada como doença mental); ausência de nervosismo; não confiável; falsidade e falta de sinceridade; ausência de remorso ou vergonha; comportamento antissocial inadequadamente motivado; julgamento deficitário e falha em aprender com a experiência; egocentrismo patológico e incapacidade de amar; deficiência geral nas relações afetivas principais; perda específica de insight; falta de resposta nas relações interpessoais gerais; comportamento fantástico e desagradável com, e por vezes sem, bebida; suicídio raramente concretizado; vida sexual e interpessoal trivial e deficitariamente integrada; e fracasso em seguir um plano de vida (Glenn; Kurzban; Raine, 2011, p. 2).
	No entanto, nos dias atuais, a psicopatia é conceituada no meio forense como um conjunto de características ou variação de conduta em indivíduos que possuam uma tendência para desenvolver o comportamento psicótico, tais como ansiedade por estímulo, delinquência juvenil, descontrole comportamental, reincidência criminal, sendo esta considerada uma das mais graves alterações de personalidade (Ambiel, 2006). 
1.2	Aspectos da psicopatia e suas classificações
1.2.1	Conceito de psicopatia
	Conforme já mencionado, a expressão personalidade psicopática, em seu conceito atual, foi introduzida no final do século XVIII, para designar um grupo de extensas patologias de comportamentos sugestivos de psicopatologias, mas que não correspondem a qualquer outra categoria relacionada a desordem ou transtorno mental (Trindade, 2012, p. 165).
	Referindo-se a termos médicos-psiquiatras, a psicopatia pode ser conceituada como uma desordem de personalidade, ou seja, um transtorno de personalidade, que possui como principais características falta de empatia e lealdade, ausência de remorso, medo ou culpa.
	Após a já citada denominação dada por Emil Kraepelin (1856 – 1926), o DSM – IV (Diagnostic and Statistical manual Of Mental Disorders) apresentou um novo conceito clínico de psicopatia:
301.7- Transtorno de Personalidade antissocial - Característica essencial: padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros, que inicia na infância ou no começo da adolescência e que continua na idadeadulta. Sinônimos: psicopatia, sociopatia ou transtorno de personalidade dissocial (DSM. IV).
	O seguinte conceito traz uma necessária observação, pois, é frequente haver uma assimilação confusa entre a psicopatia, o comportamento antissocial e a criminalidade. Contudo, diferente do que se imagina, nem todos os psicopatas são criminosos, todavia, quando os são, distinguem-se demasiadamente dos demais criminosos. São mais frios, reativos, impulsivos e violentos, mas, acima de tudo, subversivos no que concerne a sua vítima, tratando-as como presas emocionais, físicas e econômicas (Trindade, 2012, p. 172).
	Neste sentido, observa-se que os termos “transtorno antissocial de personalidade”, “sociopatia” e “psicopatia” são expressões que muitas vezes se alternam, mas que não se confundem, por possuírem diferenças entre si.
	Segundo Jorge Trindade (2012, p.174), de acordo com o Manual da Escala Hare, os indivíduos psicopatas preenchem o critério para o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS), mas nem todos os indivíduos com Transtorno de Personalidade Antissocial preenchem os critérios para psicopatia.
	Já conforme a classificação dada pela CID – 10, os psicopatas são indivíduos portadores de “transtornos específicos da personalidade” que apresentam “perturbação grave da constituição caracterológica e das tendências comportamentais do indivíduo, usualmente envolvendo várias áreas da personalidade e quase sempre associada a considerável ruptura social”.
	Deste modo, conclui Jorge Trindade:
“Mesmo que a psicopatia seja considerada uma patologia social (pelo sociólogo), ética (pelo filósofo), de personalidade (pelo psicólogo), educacional (pelo professor), do ponto de vista médico (psiquiátrico) ela não parece configurar uma doença no sentido clássico, sendo que atualmente há uma tendência universal de considerar os psicopatas como plenamente capazes de entender o caráter lícito ou ilícito dos atos que praticam e de dirigir suas ações (Trindade, J.; Beheregaray, A; Cuneo, M., 2009)”.
	No mais, é possível classificar a psicopatia em níveis, sendo estes, primário e secundário, sendo a psicopatia primária aquela decorrente de déficits constitucionais, denominado aquele presente em sua estrutura biopsíquica, parte de sua essência, inerente à seu ser, se tornando mais tarde expressivo em sua personalidade. Nesta circunstância, a psicopatia não é resultante do meio no qual o indivíduo se desenvolve, e sim de sua genética.
	No tocante à psicopatia secundária, refere-se à decorrência da aprendizagem psicossocial, ou seja, desenvolve-se em razão das experiências negativas vividas pelo indivíduo e do ambiente no qual o indivíduo convive, evoluindo ao longo dos anos, especialmente no período da infância (Trindade, 2009, p. 68). 
1.2.2	Transtorno de personalidade
	É possível definir, de modo simples, a personalidade como a forma na qual o indivíduo age, resultante em seu caráter, seus traços emocionais e como ele sente e vivencia tais emoções. 
	Jorge Trindade (2012, p. 149) define o Transtorno de Personalidade da seguinte forma:
O Transtorno de Personalidade é um padrão persistente de vivência íntima ou comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo; é uma incidência invasiva e inflexível. Tem seu início na adolescência ou começo da idade adulta; é estável ao longo do tempo e provoca sofrimento psíquico ou prejuízo ao funcionamento da personalidade.
	Kaplan e Sadock (2003, p. 742) trouxeram a seguinte definição para o transtorno de personalidade geral:
O transtorno de personalidade geral pode ser caracterizado como um padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo; o padrão é inflexível; começa na adolescência ou no início da idade adulta; é estável ao longo do tempo; leva a sofrimento ou prejuízo; e se manifesta em pelos menos duas das quatro áreas seguintes: cognição, afetividade, funcionamento interpessoal ou controle de impulsos. Quando os traços de personalidade são rígidos e mal adaptativos e produzem prejuízo funcional, ou sofrimento subjetivo, é possível diagnosticar um transtorno da personalidade.
	Segundo ambos, a personalidade pode ser conceituada como “a totalidade relativamente estável e previsível dos traços emocionais e comportamentais que caracterizam a pessoa na vida cotidiana, sob condições normais” (Kaplann & Sadock, 2003, p. 556). 
	Mister ressaltar ainda que a “entidade hipotética que não pode ser isolada de situações interpessoais, e o comportamento interpessoal é tudo o que podemos observar da personalidade” (Campbell; Hall; Lindzey, 2000, p. 228).
	Já Fiorelli e Mangini (2012, p. 98), atribuem à personalidade o seguinte conceito:
A personalidade é uma condição estável e duradoura dos comportamentos da pessoa, embora não permanente. Os comportamentos típicos, estáveis, persistentes que formam o padrão por meio do qual o indivíduo se comporta em suas relações, nas mais diversas situações do convívio social, de trabalho e familiar, recebem a denominação de características de personalidades. As manifestações dessas características formam a imagem mental, para os observadores, do comportamento mais esperado dessa pessoa em cada tipo de circunstância.
	De acordo com os seus entendimentos, a perpetuação do sentimento de estresse sucedido de eventos traumáticos teria influência na formação da personalidade, tendo maior relevância conforme os aspectos do ambiente externo no qual o indivíduo se desenvolve, tais como aumento de violência e demais conflitos (Fiorelli & Mangini, 2012, p. 98).
	Prelecionam ainda que, nas situações de conflito, algumas características da personalidade psicopática se sobressaem de modo que o indivíduo perca a capacidade de se adaptar as situações habituais do dia-a-dia, tais quais, circunstancias decorrentes de seu trabalho, da vida social, etc, ocasionando a perda da capacidade de flexibilidade situacional.
	Em sua obra, os autores ainda elencam algumas características do transtorno de personalidade de acordo com o critério de Classificação Internacional de Doenças, quais sejam:
Dependência: O indivíduo torna-se incapaz de tomar qualquer decisão que tenha o mínimo de relevância sozinho, tornando-se dependente de terceiros para construir uma opinião ou para emitir um posicionamento.
Esquizóide: Tendência do indivíduo em se se isolar dos demais, refletida em suas demais ações, demostrando características solitárias e introspectivas resultantes das demonstrações mínimas de afeto.
Paranóide: O indivíduo apresenta características de desconfiança excessiva e sistemática, tornando-o incapaz de desenvolver a capacidade de perdoar injúrias ou ofensas, fazendo com que sempre interprete de maneira errônea, negativa ou distorcida a ação de terceiros. 
Evitação: Sem possuir a intenção, o indivíduo se isola dos demais, contudo, sofre por ambicionar a relação afetuosa de terceiros, sem saber como lidar com o conflito. O isolamento da pessoa social se desenvolve resultante do medo de críticas, rejeição ou desaprovação.
Emocional instável: O indivíduo não apresenta uma consistência em seu emocional, de modo que seu comportamento oscile de maneira drástica entre o positivo e o negativo. Por esta razão, cede a impulsos, tem acessos de violência, falta de controle emocional, de modo a prejudicar seus relacionamentos interpessoais.
Histriônica: Tendência do indivíduo em buscar atenção de maneira excessiva através do uso da sedução, expressando suas emoções de modo inapropriado e exagerado. Torna-se agressivo e tem acessos de raiva quando não conquista a atenção desejada, e diferente do que se espera, as relações interpessoais, embora exageradas, não trazem o sentimento de gratificação pretendido, trazendo frustração ao indivíduo. 
	Por fim, mister ressaltar que, embora a classificação dos critérios psicopatológicos constituam uma prática classificatória eficaz e necessária para que se identifique os padrões de comportamento, necessárioevidenciar que, do mesmo modo, é importante generalizar para classificar, mais importante ainda é especificar para individualizar, de maneira a evitar o processo de estigmatização do indivíduo.
1.3 	O indivíduo psicopata
1.3.1	 A individualidade do psicopata
	Segundo McCord W. e McCord J. (1964), o psicopata se define pelas seguintes características:
O psicopata é antissocial. Sua conduta frequentemente o leva a conflitos com a sociedade. Ele é impelido por impulsos primitivos e por ardentes desejos de excitação. Na sua busca autocentrada de prazeres, ignora as restrições de sua cultura. O psicopata é altamente impulsivo. É um homem para quem o momento que passa é um segmento de tempo separado dos demais. Suas ações não são planejadas e ele é guiado pelos seus impulsos. O psicopata é agressivo. Ele aprendeu poucos meios socializados de lutar contra frustrações. Tem pequeno ou nenhum sentimento de culpa. Pode cometer os mais apavorantes atos e ainda rememorá-los sem qualquer remorso. Tem uma capacidade pervertida para o amor. Suas relações emocionais, quando existem, são estéreis, passageiras e intentam apenas satisfazer seus próprios desejos. Estes dois últimos traços: ausência de amor e de sentimento de culpa marcam visivelmente o psicopata, como diferente dos demais homens.
	Jorge Trindade (2012, p. 171) define o psicopata da seguinte forma:
O psicopata é um indivíduo egoísta, impulsivo, agressivo, sem sentimento de culpa ou remorso em relação a comportamentos que seriam estarrecedores para os modelos da sociedade. Trata-se de um sujeito impulsivo e agressivo, desprovido de sentimento de vergonha, de remorso e de consideração pelos outros. Na realidade, a psicopatia é um transtorno no qual existe uma fundamental incapacidade de amar ou de estabelecer uma relação de confiança. Há falta de insight, de habilidade para controlar impulsos ou para postergar gratificações. Falta compromisso para o cumprimento das obrigações, mentira patológica, procura de emoções, julgamento pobre, desconsideração para as convenções sociais e comportamentos antissocial são traços de funcionamento do sujeito passivo.
	Através da realização de uma análise comparativa é possível observar na infância dos indivíduos características como: baixa autoestima, problemas relativos ao sono, pesadelos constantes, isolamento social ou familiar, dores de cabeça recorrentes, acessos de raiva exagerados, mentiras crônicas, possessividade compulsiva, convulsões e automutilações, atos obscenos em público, destruição da propriedade, piromania e abuso sádico de outros animais ou até mesmo outras crianças.
	Os psicopatas não possuem nenhum sinal que os identifique, nem internamente, nem externamente. O transtorno da psicopatia não pode ser diagnosticado, por exemplo, através da realização de um exame morfológico, nem tampouco com o indicativo de anormalidade estética. Muito pelo contrário, o psicopata se faz passar por uma pessoa comum (negretti, 2015, p. 9).
	Partindo deste princípio, o psiquiatra norte-americano já citado Hervey Cleckley criou a expressão “máscara da sanidade”, ao publicar o também já citado livro de título homônimo em 1941, no qual relata a descrição clínica mais fluente da psicopatia do séc. XX.
	Segundo ele, são características mais latentes do psicopata a boa inteligência, inconstância, insinceridade, infidelidade, falta de remorso, incapacidade de amar, vida sexual impessoal, entre outras já citadas neste trabalho.
	De todo modo, embora o indivíduo psicopata seja diagnosticado com um desvio de personalidade psicopática, também chamada de personalidade antissocial, com ele não se confunde o indivíduo que, embora também possua o desvio de caráter, não se classifica como psicopata, sendo os chamados delinquentes essenciais, com personalidades delinquentes ou dissociais. 
	O que diferencia a personalidade psicopática da personalidade delinquente é que no indivíduo psicopata há uma má formação, qual seja, os fatores externos que normalmente moldam o ser são triviais, pois o desvio de sua conduta está presente desde sempre. Já no indivíduo delinquente, há uma má formação de seu caráter, no entanto, o sujeito é capaz de absorver os fatores externos que influenciam sua conduta, sendo opção deste escolher se a influência será negativa ou positiva. 
1.3.2 	Principais características
	Conforme já comentado, o indivíduo psicopata possui algumas características que se sobressaem das demais, algumas se manifestam durante a infância, outras, persistem a ponto de se agravarem e poderem ser acrescidas. Aos dezoito anos, as principais características do indivíduo tornam-se mais latentes (Glenn; Kurzban; Raine, 2011, p. 2).
	Algumas características consideradas por Cleckley como as principais de um psicopata são as expostas a seguir:
Charme superficial: Os psicopatas se utilizam do encanto pessoal e da manipulação para sobreviverem às situações ocorrentes na sociedade. Possuem um encanto inicial, capaz de seduzir a maioria das pessoas ao seu redor, utilizando-se de tais atributos para atingir seus objetivos. Mister ressaltar a ausência de sentimento no que concerne as pessoas ao seu redor, vez que as tratam como objetos, utilizam-se quando necessário e quando não são mais úteis, as descartam.
Mentiras sistemáticas: Os indivíduos psicopatas se utilizam da mentira como um artefato de trabalho, utilizado habitualmente. O psicopata sabe utilizar as mentiras a seu favor, de modo a sempre teatralizar situações em que seja possível obter vantagem para si, como sentir-se ofendido, arrependido ou magoada. Ademais, as mentiras vão de encontro com a essência narcisista de sua personalidade, de modo que o psicopata se sinta melhor que os demais. Criam personagens e fantasias de acordo com a situação em que vivem, e atuam de tal forma, que conseguem naturalmente convencer os demais à seu redor. 
Ausência de sentimentos afetuosos: Geralmente, os indivíduos psicopatas, desde sua infância, negligenciam os sentimentos das demais pessoas que os rodeiam, agindo de maneira insensível e egoísta diante à dor dos outros, preocupando-se única e exclusivamente com os sentimentos de seu interesse. Possuem um baixo nível de inteligência emocional, visto que não são capazes de compreender o sofrimento das pessoas ao seu redor.
Ausência de consciência moral: Do mesmo modo que não possuem noção do sentimento de afeto, os psicopatas igualmente desconhecem a noção de consciência moral e ética. Não importa os meios, desde que atinjam o fim almejado. De igual forma, mentem, utilizam e manipulam as pessoas ao redor para conquistarem tal objetivo. 
Comportamentos impulsivos: Justamente em razão da ausência do senso de moralidade e ética, os indivíduos psicopatas muitas vezes agem sem o menor ponderamento de suas ações, agindo muitas vezes de maneira impensada. Existe uma inadequação de suas reações comparada aos estímulos, deste modo, em algumas hipóteses, o indivíduo age de maneira adequada e desproporcional à situação fática.
Incorrigibilidade: É improvável o indivíduo psicopata aceitar se sujeitar à reeducação de sua conduta. O psicopata dificilmente se corrige, vez que lhe falta o sentimento de moralidade, culpa e de solidariedade. Ante a ausência de tais sentimentos, inexiste a percepção da necessidade e a motivação para corrigir seu comportamento. Todavia, os psicopatas são extremamente hábeis em manipular as pessoas de seu convívio, de modo a convencer os demais que seu comportamento se encontra devidamente ajustado ao dos demais.
Falta de adaptação social: O indivíduo psicopata possui a característica marcante de ser extremamente egoísta e egocêntrico, de modo a só se importar com seus sentimentos e sua própria dor. São desconhecidos os sentimentos de empatia e solidariedade, razão pela qual possui grande dificuldade de socializar e criar laços de amizade.
2	O PSICOPATA ASSASSINO EM SÉRIE.
2.1 	O psicopata homicida e o serial killer
	No que se refere a psicopatia, é frequente haver uma assimilação confusaentre a psicopatia, o comportamento antissocial e a criminalidade. Contudo, diferente do que se imagina, nem todos os psicopatas são criminosos, todavia, quando os são, distinguem-se demasiadamente dos demais criminosos. São mais frios, reativos, impulsivos e violentos, mas, acima de tudo, subversivos no que concerne a sua vítima, tratando-as como presas emocionais, físicas e econômicas.
	Os psicopatas homicidas são indivíduos que se evidenciam dos demais pela forma como executam seus crimes, no qual sempre envolvem uma grande notoriedade, vez que os crimes são sempre praticados com uma grande carga de violência, crueldade e ausência de sensibilidade, sendo notável a deficiência de humanidade em suas ações.
	É uma característica marcante do indivíduo psicopata o comportamento violento e agressivo contra a sociedade, causado principalmente por um desvio de caráter. Existe também uma tendência por parte do indivíduo de sempre se abster da culpa de suas ações, tendo uma predisposição em atribuir tal culpa a terceiros. 
	Psicopatas homicidas constroem um histórico marcado por crimes de todas as espécies, marcados pela violência e agressividade em sua execução. O melhor conhecimento acerca do funcionamento e da estruturação psicopática pode ser uma importante contribuição na predição de futuros comportamentos violentos (Harris, Rice e Quinsey, 1993, p. 20,). Estudos apontam que psicopatas reincidem cerca de cinco vezes mais em crimes violentos do que não psicopatas em cinco anos de liberdade da prisão.
	Um possível mediador entre a violência e a psicopatia é um nível preservado de inteligência. Psicopatas dotados de maior de inteligência possuem menor tendência de recorrer ao comportamento violento, pois, na realidade, apresentam recursos alternativos subsidiados à outros instrumentos cognitivos (Trindade, 2012, p. 173).
	Psicopatas com menor potencial de inteligência tendem a recorrer mais vezes aos mecanismos de violência para compensar o seu déficit de habilidades. São esses os mais suscetíveis a apresentarem um “mau desempenho”, vez que, com a capacidade de planejamento reduzida somada à premeditação de comportamentos antissociais, tomam decisões e atitudes de modo a se comprometer mais com a execução do crime.
	Muitas vezes, a expressão psicopatia vem, de maneira equivocada, assimilada à ideia de serial killer, e psicopatas são mais severamente julgados pelo sistema judiciário na medida em que são assemelhados a criminosos cruéis, sem compaixão e irrecuperáveis. 
	Pode ocorrer, em muitos casos, a hipótese em que o indivíduo serial killer possui o transtorno de personalidade psicopática, porém, esta não é necessariamente uma regra absoluta. Do mesmo modo, não necessariamente todo diagnóstico de psicopatia indica tendências de serial killer no indivíduo, tampouco inclinações homicidas, vez que a psicopatia se divide em inúmeros graus que podem leva-lo a cometer outros tipos de delito. Em suma, são poucas as chances de um indivíduo psicopata se tornar um serial killer, no entanto, são grandes as chances de um indivíduo serial killer padecer de uma forma de psicopatia. 
2.2	Serial killer – o assassino em série
	Durante muito tempo o assassino em série foi denominado simplesmente como o indivíduo responsável pela realização de assassinatos em massa. Contudo, foi no final do ano de 1950 que os criminologistas passaram a distinguir os tipos de assassinato com um grande número de vítimas. Uma forma de identifica-lo e compreende-lo é analisar a forma como o assassino age, como escolhe suas vítimas e as mata. 
	A expressão “serial killer” é relativamente nova se comparada ao tempo de estudo da psicopatia, sendo utilizada pela primeira vez pelo agente aposentado do FBI (Federal Bureau of Investigation), Robert Ressler, nos anos 70.
	Assim como divergem as opiniões a respeito da definição de psicopatia, do mesmo modo divergem as opiniões a respeito da definição de serial killer. Existem vertentes que apoiam a utilização da referida denominação quando do crime resulta apenas duas morte, e existem vertentes que defendem a utilização da denominação sendo necessário no mínimo quatro mortes.
	O Manual de Classificação de Crimes do FBI (1992) define o assassinato serial como “três ou mais eventos separados em três ou mais locais separados com um período de resfriamento emocional entre os homicídios” (Newton, 2005, p. 49). 
	Esta definição, denominada de “definição estatística” é muito criticada por parte da doutrina especializada, vez que não levaria em conta o serial killer que não obtém êxito em seu intuito de matar. 
	Ainda sobre esta definição, segundo Newton (2005, p. 49-50), o conceito dado pelo FBI apresenta as seguintes falhas:
Primeiro, temos o requisito de “três ou mais” assassinatos para compor uma série bona fide. Infelizmente, as outras categorias “oficiais” do FBI de assassinato - único, duplo, triplo, massa, e atividade de assassinato - não fazem nenhuma referência ao fato de o assassinato de apenas duas vítimas no requisitado período de “resfriamento” entre os crimes e que é então preso antes atingir o número três. O assassinato duplo, no linguajar do FBI, descreve duas vítimas assassinadas no mesmo tempo e lugar; atividade de assassinato, enquanto isso, pode ter apenas duas vítimas, mas é definido como “um evento único com... nenhum período de resfriamento emocional entre os assassinatos”. Assim, o assassino que aguarda meses ou mesmo anos entre seu primeiro e segundo assassinato e encontra-se na prisão não se encaixa no esquema do FBI.
	Efetivamente, para descobrir se de fato o crime foi praticado por um serial killer ou não, o aspecto mais importante a ser analisado não é referente ao número de vítimas, e sim o que motivou o crime, ou até mesmo a ausência de um motivo. 
	Outro requisito para a qualificação de um serial killer diz respeito ao lugar onde o crime foi consumado. Seria requisito para qualificar um criminoso como serial killer que os assassinatos ocorressem em três ou mais lugares diferentes. Contudo, tal requisito permite que muitos dos mais perversos assassinos não sejam considerados assassinos em série, por terem assassinado todas ou a maioria de suas vítimas no mesmo lugar.
	Outro requisito para a qualificação de um serial killer diz respeito ao tempo de resfriamento do corpo da vítima. Embora o Manual de Classificação de Crimes diga que “o período de resfriamento pode durar dias, semanas ou meses – e, presume-se, anos”, ainda não existem um consenso entre os autores para que se estabeleça um padrão (Newton, 2005, p.50).
	Na grande maioria dos casos, o assassino desconhece sua vítima, escolhendo sempre pessoas estranhas ao seu convívio, sendo comum escolherem vítimas vulneráveis como prostitutas, andarilhos, trabalhadores imigrantes, crianças desaparecidas, mulheres desacompanhadas, idosos etc. 
	Uma das definições mais concretas do conceito de serial killer é dada pelo professor de Justiça Criminal, Egger, da Universidade de Illinois, em Sprinfield, que em 1998 modificou o até então vigente número de três homicídios para dois. 
	Segundo ele, o assassino caracteriza-se pela ocorrência do segundo crime, no qual não existe relação alguma entre a vítima e o agressor, caso exista, a vítima é sempre colocada em situação de inferioridade frente o indivíduo. Na grande maioria dos casos, os assassinatos ocorrem em diferentes momentos e não existe relação aparente com o assassinato inicial, sendo cometidos, inclusive, em localização geográfica distinta. 
2.3	Características do assassino em série
	São inúmeros os aspectos psicológicos que os assassinos em série têm em comum, tanto no tocante a execução de suas ações, como quanto ao seu passado. Ilana Casoy (2002, p.18) enumera diversas características na qual o indivíduo adquire na infância, contudo, nenhum aspecto isolado pode definir uma criança como serial killer em potencial, no entanto, a denominada “terrível tríade”, parece estar presente em todos os históricos de todos os assassinos em série, quais sejam:abuso sádico de animais ou demais crianças, destruição de propriedade, piromania e enurese (incontinência urinária, micção involuntária).
	Outras características comuns na infância desses indivíduos são: problemas relativos ao sono, mentiras crônicas, rebeldia, pesadelos constantes, devaneios diurnos, isolamento social, fobias, problemas alimentares, dores de cabeça constante, convulsões, propensão a acidentes, roubo, acessos de raiva desproporcionais, baixa autoestima, possessividade destrutiva, automutilação, masturbação compulsiva. 
	O isolamento social ou familiar é outro aspecto importante relatado por grande parte dos indivíduos assassinos em série. Quando, por alguma razão, uma criança é deixada por um longo período de tempo sozinha de maneira frequente, ou até mesmo exposta ao isolamento, é comum que a fantasia e a irrealidade passem a ocupar o vazio ocasionado pelo afastamento.
	Neste sentido, preleciona Ilana Casoy (2002, p.18): 
As pessoas normais usam de suas fantasias temporárias para entretenimento próprio, sendo completamente compreensível pôr parte do indivíduo a irrealidade da mesma. No entanto, para serial killers, tais fantasias são assustadoramente mais complexas, integrando o comportamento dos assassinos em série, em vez de ser uma distração mental. O crime é a própria fantasia do criminoso, planejada e executada pôr ele na vida real, sendo a vítima o alimento maior que reforça a fantasia.
	Desta forma, a razão de satisfazer suas fantasias acaba se tornando o motivo pelo qual o indivíduo comete o crime, vez que para alimenta-las é necessário tanto o desprendimento de esforço próprio como a sucessão da execução dos crimes. 
	Conclui-se, portanto, que os aspectos dos indivíduos psicopatas tanto lhes servem para conter sua necessidade de controle, como também para que possam dissociar a vítima do mundo real e inserir em suas fantasias, e inclusive para dar suporte à sua “personalidade para fins sociais”, sendo o combustível que alimenta as futuras fantasias do indivíduo (Casoy, 2002, p.19).
	De acordo com a mente de um serial killer, suas fantasias dão origem a necessidade visceral de obter controle, razão pela o indivíduo comete o crime, podendo assim assumir a posição de quem está no comando. A motivação para satisfazer suas vontades leva o indivíduo a degradar e desvalorizar sua vítima, sendo outro indício da sua necessidade de reafirmar seu controle.
	Para alguns indivíduos, a afirmação de estar no controle só se realiza após a morte de sua vítima, razão pela qual muitas vezes as executam de maneira mais rápida, estendendo seu controle sobre a vítima por meio das mutilações post mortem, através da desfeminização (grande estrago ou retirada dos órgãos femininos) ou esquartejamento e disposição do corpo de maneira peculiar e em geral, humilhante para a vítima (Casoy, 2002, p. 19). 
	É possível constatar a busca por controle por parte do assassino em série analisando o conjunto dos elementos da execução de seu crime. Tais como o local no qual o indivíduo realiza a homicídio, o roteiro ao qual ele cria e submete sua vítima a seguir, das armas utilizadas e do tipo de mutilação infringida contra a vítima. 
	Para se aproximar de suas vítimas, o indivíduo usa da dissociação para desenvolver uma personalidade inerente ao seu verdadeiro comportamento, passando-se por uma pessoa normal, permitindo-lhe o contato com os demais ao seu redor.
	Embora a dissociação seja comum ao ser humano, vez que todos possuem dissociação para agir no meio social e no meio íntimo, para o serial killer, a dissociação entre a sua realidade e sua fantasia é extrema. Tão extrema, que existem psicopatas que constituem família, tem filhos, empregos normais, mas não deixam de possuir um comportamento psicopata.
	O verdadeiro comportamento violento e agressivo do indivíduo é, na verdade, suprimido pelo convívio social. O serial killer controla e reprime seus instintos assassinos por sua consciência de que seu comportamento não é socialmente aceito, indicando também que sua máscara de personalidade social é premeditada e planejada. Tal planejamento só comprova o fato de que os indivíduos psicopatas, até mesmo os serial killers, são completamente sãos de suas ações, sendo plenamente capazes de discernir entre o certo e o errado.
	Em alguns casos, a dissociação de seus crimes é tão profunda que muitos indivíduos serial killers, mesmo presos, negam veemente sua culpa, alegando inocência com convicção, mesmo diante de provas e confirmações irrefutáveis (Casoy, 2002, p. 22). 
	Tratando-se das características de um assassino em série, é comum muitas vezes pressupor que o serial killer é incapaz de compreender o sentimento de empatia ante a sua personalidade e aspectos egocêntricos. Todavia, trata-se de um grande erro tal suposição, vez que o assassino em série sabe exatamente ao que deve submeter suas ações para obter o que deseja de sua vítima.
	Ilana Casoy (2002, p. 24) cita em sua obra o famoso psiquiatra forense, Brent E. Turvey, que destaca tal evidencia como irrefutável, de que o indivíduo possua clara compreensão das consequências de seu comportamento, sendo capaz de assimilar quais ações provocam em sua vítima a reação que deseja. 
	Ilana (2002, p. 24) cita ainda o ex-agente da Unidade de apoio à Investigação do F.B.I, John E. Douglas que explicitou que enquanto o maior medo das mulheres é o de ser atacada em um momento em que estejam sozinhas, o dos homens é o de serem humilhados, principalmente de forma pública. A grande maioria dos criminosos violentos possuem em seu histórico histórias de humilhação pública na infância, geralmente ocorridas na escola pelos colegas ou em sua própria casa, pelos pais.
2.4	Classificação dos assassinos em série
	Embora a doutrina referente ao assunto não tenha se preocupado em realizar a classificação quanto aos tipos de serial killer, Ilana Casoy (2002, p. 15) os dividiu em quatro tipos. 
2.4.1	Visionário.
	Denomina-se visionário o serial killer que pode ser caracterizado como completamente insano, psicótico. O indivíduo escuta vozes em sua cabeça e permite que estas guiem suas ações, obedecendo-as. Pode sofrer de alucinações ou ainda ter visões que igualmente o motiva a executar seus crimes. 
2.4.2	Missionário
	Denomina-se missionário o serial killer que internamente guarda consigo o desejo e necessidade de “livrar” o mundo daquilo que julga ser “imoral” ou “indigno”, embora socialmente aparente ser uma pessoa normal como outra qualquer. Muitas vezes motivados por alguma crença religiosa, este tipo psicopático geralmente escolhe um determinado grupo para executar, como prostitutas, homossexuais etc.
2.4.3	Emotivos
	Emotivos são como se denominam os tipos de serial killer que matam por pura diversão, de todas as denominações, é o único tipo que mata visando única e exclusivamente a satisfação de seu prazer, pois a sensação de matar alguém de fato lhe satisfaz. Além de tudo, tem como característica requintes de crueldade e sadismo, pela forma como torturam e executam suas vítimas. 
2.4.4	Libertinos
	Chamamos de libertinos os tipos de serial killer que tem por motivação o seu apetite sexual. A dimensão de seu prazer será diretamente proporcional à dimensão do sofrimento da vítima sob tortura, de modo que os atos de torturar, mutilar e matar lhe darão prazer. Neste grupo se encaixam os psicopatas denominados como “canibais” e “necrófilos”. 
	Ainda segundo Ilana Casoy (2002, p. 15), os serial killers também são divididos pelas categorias de “organizados” e “desorganizados”, geograficamente estáveis ou não. O denominador comum entre todos os tipos é o sadismo, desordem crônica e progressiva. Segundo o Dr. Joel Norris, existem seis fases do ciclo do serial killer:
1. FASE ÁUREA: onde o assassino começa a perder a compreensão da realidade; 
2. FASE DA PESCA: quando o assassino procura a sua vítima ideal; 
3. FASE GALANTEADORA: quando o assassino seduz ou engana sua vítima; 
4. FASE DA CAPTURA: quando a vítima cai na armadilha; 
5. FASE DOASSASSINATO OU TOTEM: auge da emoção para o assassino; 
6. FASE DA DEPRESSÃO: que ocorre depois do assassinato. 
Quando o assassino entra em depressão, engatilha novamente o início do processo, voltando para a Fase Áurea.
2.5	Serial killer organizado x serial killer desorganizado
	O serial killer pode ainda classificar-se como organizado ou desorganizado, sendo tal classificação baseada em seu método de atuação, sendo observado o modo como executa o seu crime.
	Com tal classificação é possível observar que os serial killers organizados são mais astutos, atuam de maneira mais estável, no quesito geográfico. Planejam de maneira minuciosa a execução de seus crimes, de maneira assustadoramente calculista, quase como se buscassem o crime perfeito, de modo que inexistam vestígios para a possibilidade de sua identificação. 
	Já os serial killers denominados como desorganizados são menos meticulosos, instáveis geograficamente, atuam de maneira menos calculista, a permitir se guiar por seus impulsos, deste modo, agem de modo a ignorar possíveis erros cometidos ou possíveis vestígios que possam ter deixado na cena do crime. 
2.7	Serial killers no Brasil
	Os casos de crimes cometidos por serial killers no Brasil não se equiparam com o grande número de crimes cometidos por assassinos em série em países como França, Alemanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos. 
	Alguns dos casos tiveram grande notoriedade da mídia, como o caso do serial killer Francisco de Assis Pereira, conhecido como “maníaco do parque”, que cometeu inúmeros crimes contra mulheres, todos eles de ordem sexual. Outro caso de igual notoriedade foi o caso do serial killer José Augusto do Amaral, que assassinou inúmeros jovens do sexo masculino e após a morte das vítimas, mantinha relação sexual com seus corpos. 
	Todavia, diferentemente do que acontece quando um crime ocorre nos Estados Unidos, no Brasil não existe uma estrutura de investigação tão efetiva, razão pela qual inúmeros casos do Brasil foram solucionados sem a mínima suspeita de que se tratavam de crimes executados por um serial killer. 
	Muitas das vezes, os crimes não são solucionados pois a polícia não consegue interligar os crimes cometidos, ou seja, mesmo que sejam cometidos por assassinos em série, não são deste modo identificados. Esta incapacidade de relacionar os crimes cometidos pelo mesmo indivíduo é chamado de “cegueira de ligação”.
	Tal incapacidade pode ser atribuída, em grande parte, à existência de preconceito por parte da polícia brasileira em aceitar a possibilidade da existência de um serial killer em ação. Em outros países, com a existência de uma estrutura eficaz capaz de identificar o modus operandi, a “assinatura” do crime e a reconstrução da sequência dos atos cometidos pelo indivíduo, a busca pelo assassino em série se inicia antes mesmo que possa realizar o crime seguinte.
	Quanto antes se identificar as características de ação de um serial killer, mais rápido poderão ser acionados os psicólogos forenses, os chamados “profilers” e psiquiatras para que possam traçar o perfil do indivíduo e assim, iniciar a sua busca. Tais ações ajudam na delimitação quanto ao número de suspeitos, na escolha da estratégia adequada para a investigação, na busca das provas, na escolha do método interrogatório mais eficaz que seja capaz de obter a confissão do criminoso etc.
	Segundo Edilson M. Bonfim (2004), a Polícia Civil brasileira infelizmente desconhece tais características utilizadas em uma investigação, no entanto, deveria poder contar com a ajuda de órgãos especializados, tais como o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Todavia, tais órgãos especializados em Ciência Forense são pouquíssimo divulgados e incentivados. 
3	A PSICOPATIA E O DIREITO PENAL 
3.1	A responsabilidade penal dos psicopatas
	Para que possamos dar início ao tema central do trabalho, é mister elucidar algumas definições para que possamos interligar os assuntos tratados nos capítulos anteriores.
	Primeiramente, é necessário considerarmos que o objetivo principal do Direito Penal é a proteção dos bens mais imprescindíveis e substanciais para a sobrevivência da sociedade, para o indivíduo e para a coletividade. Nesse grupo dos bens, encontram-se inclusos a vida, a propriedade, a integridade física e psíquica, sendo esses os bens tutelados pelo Direito Penal como última ratio (Santos, 2008, p.3). 
	Desta forma, podemos definir que, baseado nos bens tutelados, o Direito Penal é o setor jurídico responsável pela definição de crimes, de penas e previsão de medidas de segurança aplicadas aos autores das condutas ilícitas. 
	Os chamados fatos sociais que ocorrem no dia a dia são, em sua grande parte, irrelevantes penalmente. No entanto, a partir do momento em que os fatos sociais infringem os bens supracitados, estes passam a ser condenáveis no âmbito penal, as leis responsáveis pela previsão das referidas condenações são as leis penais. Sendo assim, o indivíduo que tem uma conduta ilícita correspondente ao núcleo prevista em algum dispositivo penal, com os elementos correspondentes, estará cometendo um crime.
	Conceitua-se como crime qualquer conduta típica, culpável e antijurídica, denominando-se como típica a conduta descrita no dispositivo legal, estando prevista na lei a sua vedação. A antijuridicidade consiste no fato ilícito, qual seja, o fato contrário ao ordenamento jurídico e por fim, denomina-se “culpável” o elemento subjetivo, ou seja, aquilo que define a imputabilidade do agente, caracterizado pela consciência efetiva da antijuridicidade do ato praticado. Portanto, quando o indivíduo executa um ato típico, antijurídico e culpável, confirma-se a prática do crime.
	Para que seja possível a responsabilização penal do indivíduo autor do crime, é imprescindível que se verifique a sua imputabilidade. Sendo assim, verifica-se que a imputabilidade é, na verdade, “a possibilidade de se atribuir, imputar o fato típico e lícito ao agente. A imputabilidade é a regra e a inimputabilidade, a exceção” (Greco, 2009, p.395). 
	O artigo 26 do Código Penal Brasileiro (Brasil, 1940) definiu o conceito de inimputabilidade da seguinte forma:
Inimputabilidade
Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
Redução de pena
Parágrafo único - A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
	Desta forma, em análise ao caput do dispositivo, é possível concluir que o legislador decidiu por seguir o critério psicológico ao auferir a inimputabilidade do agente.
	Por fim, chegamos ao questionamento mais importante do trabalho elaborado: os psicopatas que cometem crimes são considerados plenamente imputáveis ou não? 
	Para que este questionamento seja respondido, é mister relembrar algumas importantes conclusões de alguns estudiosos, já abordadas no presente estudo, como Cleckley (1941), que alegou que nem todo psicopata é um criminoso, ou Robert Hare, que em sua obra, afirmou a existência de psicopatas em todos os lugares possíveis do nosso convívio, sejam eles amigos, vizinhos, colegas de trabalho etc. Ou seja, não podemos associar a psicopatia à criminalidade, pois existem inúmeros psicopatas que não cometem qualquer tipo de crime, mas de alguma forma, não deixam de prejudicar as pessoas ao seu redor. 
	Todavia, mesmo tendo conhecimento da existência de psicopatas não associados a criminalidade, o direito é falho quanto ao resguardo oferecido em tais situações.
	Uma das poucas ferramentas que podemser utilizadas são as chamadas “medidas judiciais”, tais como a Ação Cautelar, que pode ser utilizada com o fim de prevenir a proximidade de alguns indivíduos psicopatas. Podemos utilizar como exemplo, uma situação hipotética na qual o marido é na verdade um psicopata que está arruinando a vida de sua esposa e filhos. Nesse caso, a esposa poderia ajuizar uma medida cautelar de separação de corpos em caráter de urgência, com o fim de assegurar sua integridade física e de seus filhos e posteriormente, a separação judicial (Camara, 2010, p. 10).
	No entanto, mister ressaltar que a ação cautelar não é utilizada exclusivamente contra o afastamento de indivíduos psicopatas, e sim, a proximidade de qualquer indivíduo que ofereça risco a integridade física do autor da ação. 
	Todavia, no que tange aos psicopatas criminosos, o assunto é muito mais amplo e complexo, senão, vejamos.
	Conforme já abordado, embora existam correntes contrárias, no meio forense, a psicopatia não é entendida como uma doença mental, assim sendo, a inimputabilidade prelecionada no artigo 26 do Código Penal não lhe poderia ser aplicada, devendo então ser condenado o psicopata criminoso, uma vez comprovado o cometimento do fato típico.
	Entretanto, é totalmente questionável e duvidosa a aplicação do parágrafo único do referido dispositivo, que dispõe a respeito da semi-imputabilidade, uma vez que é muito debatida a classificação do conceito de psicopatia como uma perturbação da saúde mental, tornando muito mais difícil saber se o agente possui a capacidade de entender a antijuridicidade do fato e de agir de acordo com tal entendimento. 
	Diversos autores como Damásio (2005, p. 502), Mirabete (2010, p. 199) e Bitencourt (2011, p. 419) defendem pelo enquadramento do criminoso psicopata nos limites do parágrafo único do artigo 26 do Código Penal, de modo a considerar o psicopata um indivíduo semi-imputável. Todavia, tal consideração sempre será contrária ao posicionamento médico-jurídico de psiquiatras, tais como Claudio Cohen (Aranha, 2010) que argumenta e desaprova o fato de leis serem criadas somente sob a ótica jurídica, sem que especialistas médicos possam assessorá-los. 
	No meio de todo o conflito médico-jurídico acerca do enquadramento penal do indivíduo psicopata, os Tribunais brasileiros refletem esse desacordo e seguem em opiniões divergentes, aplicando medidas distintas para o assunto. Deste modo, existem julgados que determinam a imputabilidade dos indivíduos, e de acordo com a gravidade de seu crime, estes são privados de sua liberdade, sendo recolhidos em presídios com criminosos comuns. 
	Contudo, outros julgados baseiam-se na aplicação do artigo 26 do Código Penal, considerando assim a semi-imputabilidade do indivíduo (que não exclui sua culpabilidade), aos casos em que, ao tempo do crime, o agente se encontrava com sua capacidade de discernimento prejudicada, reflexo de seu transtorno de personalidade, podendo assim gozar do benefício da diminuição de pena, variando de um a dois terços, ou, podendo ainda ter sua pena substituída por medida de segurança, sendo assim recolhido à hospitais de custódia para a realização de seu tratamento, conforme preleciona a legislação.
	Todavia, as sanções punitivas dos indivíduos psicopatas também possuem a sua problemática, das quais veremos a seguir.
3.2	Da pena privativa de liberdade
	Segundo os ensinamentos de Damásio (2005, p. 519), a pena mais é do que uma “sanção aflitiva imposta pelo Estado, mediante ação penal, ao autor de uma infração (penal), como retribuição de seu ato ilícito, consistente na diminuição de um bem jurídico”. Já quanto a sua finalidade, destacam-se os ensinamentos de Nucci (2005, p.341) que diz que a pena busca “reeducar o delinquente, retirá-lo do convívio social enquanto for necessário, bem como reafirmar os valores protegidos pelo Direito Penal e intimidar a sociedade para que o crime seja evitado”. Todavia, o maior empecilho capaz de impossibilitar a assimilação por parte dos psicopatas da finalidade punitiva da pena é a incapacidade existente nestes de aprenderem com os próprios erros. Neste sentido, segue o posicionamento de Maranhão (2009, p.19):
A experiência não é significativamente incorporada pelo psicopata (antissocial). O castigo, e mesmo o aprisionamento, não modificam seu comportamento. Cada experiência é vivida e sentida como fato isolado. O presente é vivenciado sem vínculos com o passado ou futuro. A capacidade crítica e o senso ético se comprometem gravemente.
	Destarte, importante destacar que, conforme estudos e comprovações, os indivíduos psicopatas, ao serem colocados junto à criminosos comuns, são capazes de influenciá-los a permanecer na criminalidade e até mesmo manipulá-los à para serem responsáveis por liderar ou organizar fugas ou rebeliões, sendo assim potencialmente prejudiciais à reabilitação dos demais indivíduos criminosos. 
	Além disso, seu comportamento exemplar e manipulador levariam psiquiatras e psicólogos responsáveis pela análise de, por exemplo, de progressão de regime e livramento condicional, a darem resultado permissivos e positivos, possibilitando a concessão de tais benefícios à estes indivíduos, os reinserindo na sociedade. 
	O risco é tão factual que, citando à exemplo os países de língua inglesa, estes veem um perigo tão eminente da convivência em comum dos psicopatas com os demais criminosos que os encaminham a presídios especiais, permitindo então que os criminosos comuns tenham chance à recuperação sem influência dos demais. 
	Considerando a grande capacidade de simulação do indivíduo psicopata, estes possuem grandes chances de conseguir liberdade e voltar ao convívio da sociedade, no entanto, as características de suas personalidades impulsivas e violentas os levam a cometer novos crimes, de modo que se estima que cerca de 70% dos indivíduos psicopatas que são presos por algum crime, cometem reincidência quando soltos (Szklarz, 2009, p. 18).
	Deste modo, persiste o questionamento a respeito da finalidade objetiva e da real eficácia da pena privativa de liberdade, vez que sua estrutura fora criada e desenvolvida para disciplinar indivíduos criminosos comuns. 
3.2.1	Execução da pena e exame criminológico
	Para fixação do regime inicial da execução da pena aplicada ao criminoso, o juiz analisa a natureza do crime, a quantidade da pena aplicada e a reincidência como fatores legais determinantes ao proferimento da sentença (Mirabete, 2010, p. 242). Caso os fatores legais acabem por não determinar definir a obrigatoriedade de certo regime, seguindo o que preleciona o artigo 33, §3º do Código Penal (Brasil, 1940) o juiz deve observar as circunstâncias previstas no artigo 59 do referido diploma legal, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima.
	Continuadamente com o previsto nas alíneas do §2º, artigo 33 do Código Penal (Brasil, 1940), verificamos que no caso de crime de homicídio doloso, a pena pode tanto ser cumprida em regime inicial fechado ou semi-aberto, vez que é de seis anos a pena mínima aplicada ao crime de homicídio. Quando o crime cometido se classificar como crime hediondo, do qual consta entre os elencados, o homicídio, caso praticado em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que executado por um único agente, mesmo aplicada pena inferior a oito anos, seu cumprimento se iniciará em regime fechado, conforme preleciona o artigo 2º, §1º da Lei 8.072/90 (Mirabete, 2010, p. 243).
	 Segundo o §2º do mesmo dispositivo, a progressão do regime se sujeita ao cumprimento de 2/5 da pena, se o indivíduo se tratar de réu primário ou, caso o condenado seja reincidente, se sujeita a ao cumprimento de 3/5 desta (Brasil, 1990).
	Destarte, conforme preleciona o Código Penal em seus artigos 34 e 35, para que seja dado início ao cumprimento da pena, tanto no regime semi-aberto quanto no regime fechado é obrigatório a realização do exame criminológico,consistindo na realização de uma pesquisa de dados dos antecedentes pessoais, sociais, psíquicos, psicológicos e familiares do indivíduo condenado, visando a obtenção de dados que possam revelar a respeito do criminoso. Conforme disposição do artigo 96 da Lei de Execução Penal que diz que “no Centro de Observação realizar-se-ão os exames gerais e criminológico, cujos resultados serão encaminhados à Comissão Técnica de Classificação”, assim como o artigo 18 do mesmo regulamento dispõe que “os exames poderão ser realizados pela Comissão Técnica de Classificação, na falta do Centro de Observação” (Brasil, 1990).
	Sendo assim, na hipótese de inexistência do Centro de Observação, será admitida a realização do exame criminológico pela Comissão Técnica de Classificação (CTC) (Bitencourt, 2011, p. 536). Todavia, embora seja nítida a relevância da CTC para a análise e classificação e consequente elaboração do plano individual para aplicação da pena adequada do indivíduo criminoso, atualmente no Brasil existem poucos profissionais habilitados para a realização da avaliação, bem como carecem de condições para a realização de treinamentos para a preparação de tais profissionais que irão compor a referida comissão, de acordo com dados apontados pelo Ministério da Justiça (Brasil, c2010).
3.3	Da medida de segurança
	Quando falamos de sanções penais impostas pelo Estado, estamos falando também da chamada “medida de segurança”, que, segundo o entendimento de Nucci (2005, p. 509), denomina-se como “uma espécie de sanção penal destinada aos inimputáveis e, excepcionalmente aos semi-imputáveis, autores de um fato típico e antijurídico (...), devendo ser submetidos a internação e a tratamento ambulatorial.
	Segundo os entendimentos de Mirabete (2010, p.352), embora a medida de segurança se assemelhe à pena, no momento em que diminui um bem jurídico do indivíduo, adquire uma finalidade de prevenção “ no sentido de preservar a sociedade da ação de delinquentes temíveis e de recuperá-los com tratamento curativo”*.
3.3.1	Exame de verificação de cessação de periculosidade
	Terminado o prazo mínimo de reclusão da medida de segurança, será realizado o chamado “Exame de Verificação de Cessação de Periculosidade” do condenado para averiguar se foi tratada a sua condição perigosa. Assim dispõe o artigo 775 do Código de Processo Penal (Brasil, 1941), prevendo que “ a cessação ou não da periculosidade se verificará ao fim do prazo mínimo de duração da medida de segurança pelo exame das condições da pessoa a que tiver sido imposta”. No entanto, ainda que não tenha sido cumprido o prazo mínimo de duração da medida de segurança, o exame de verificação de cessação de periculosidade poderá ser solicitado a qualquer tempo, conforme dispõe o artigo 777 do mesmo código. 
	Apesar da existência de prazo mínimo para a duração da medida de segurança, esta possui tempo indeterminável, vez que se estende até a cessação de periculosidade do indivíduo, assim como dispõe o artigo 98 em seu §1º do Código Penal (Brasil, 1940):
Art. 97 - Se o agente for inimputável, o juiz determinará sua internação (art. 26). Se, todavia, o fato previsto como crime for punível com detenção, poderá o juiz submetê-lo a tratamento ambulatorial.
Prazo
§ 1º - A internação, ou tratamento ambulatorial, será por tempo indeterminado, perdurando enquanto não for averiguada, mediante perícia médica, a cessação de periculosidade. O prazo mínimo deverá ser de 1 (um) a 3 (três) anos. 
	Destarte, considerando-se que não existe cura para a psicopatia, consequentemente inexistirá a verificação da cessação da periculosidade do indivíduo, ocasionando um prolongamento inestimado de sua permanência nos hospitais de custódia, reacendendo assim a problemática em torno da eficácia e eficiência dos hospitais de custódia para indivíduos psicopatas.
3.4	Dos hospitais de custódia
	Ainda sobre a eficácia dos hospitais de custódia e o comportamento do indivíduo psicopata, a conclusão não é de forma alguma satisfatória, pois além das terapias biológicas e das psicoterapias aplicadas nestas instituições se mostrarem, em geral, ineficazes à psicopatia, inexiste no psicopata a ambição de se regenerar e se reestabelecer a qualquer padrão socialmente aceito (Silva, 2008, p. 169).
	Além disso, é possível verificar que em alguns casos onde indivíduos psicopatas foram sujeitos à algum tipo de terapia, houve um aumento de sua periculosidade, uma vez que aprendiam a utilizar a psicologia como forma de manipular ainda mais as pessoas ao seu redor (Szklarz, 2009, p. 13).
	Sendo assim, submetê-los aos hospitais de custódia pode ser uma medida de extrema gravidade, já que constantemente ameaçam a integridade dos demais internos, que são vulneráveis e suscetíveis ao perigo apresentado, tornando-se presas fáceis para a manipulação e abuso dos indivíduos psicopatas. Assim defende o psiquiatra forense do IPF, Paulo Oscar Teitelbam (Souza, Cardoso, 2008, p. 268):
(...) estes indivíduos destroem o ambiente hospitalar, corrompendo membros mais frágeis da equipe a desenvolver comportamentos desonestos e antiéticos, assaltando, contrabandeando drogas, abusando dos mais fracos, atacando grosseiramente ou mesmo paralisando completamente os programas de tratamento desenvolvido com pacientes psicóticos ou deficientes.
	Desta forma, embora a conduta dos psicopatas se mostre inadequada ao ambiente dos hospitais de custódia, ainda sim, sua facilidade de manipulação e dissimulação ainda o possibilita de conquistar benefícios, tais como o Regime de Alta Progressiva (AP), oferecido pelo IPF. A Alta Progressiva (AP), oficializada pelo regime interno do instituto já mencionado, permitindo que internos que cumprem medida de segurança detentiva possam, mediante estágio de tratamento e dos objetivos terapêuticos ou de avaliação a que são submetidos, possam sair da instituição, por períodos longos ou breves, mediante solicitação das Equipes Terapêuticas das unidades assistenciais, através dos laudos de Verificação de Periculosidade.
3.5	Da jurisprudência
	Ademais, realizaremos a análise diversos posicionamentos divergentes dos Tribunais acerca dos pedidos de liberdade de indivíduos psicopatas para ressaltar a problemática acerca do tema e da necessidade da reforma jurídica na análise dos casos concretos. 
	A seguir, veremos decisões que denegam o benefício de liberdade ou até mesmo da progressão de regime aos criminosos psicopatas, por entenderem que sua situação de alta periculosidade apresenta grandes riscos à sociedade para autorizarem a sua soltura.
LIVRAMENTO CONDICIONAL. TRACOS DE PERSONALIDADE PSICOPATICA QUE NÃO RECOMENDAM A LIBERAÇÃO ANTECIPADA DO CONDENADO. INDEFERIMENTO DO BENEFICIO PELO ACÓRDÃO IMPUGNADO. HC INDEFERIDO PELO S.T.F.
“ A informação médico psiquiátrica do ora embargante, ou seja, o laudo do exame criminológico, adianta que o sentenciado apresenta indícios de personalidade psicopática, e por isso os Drs. Perito aconselham que seja adotado maior prazo para uma melhor observação sobre o comportamento do mesmo.
Verifica-se, desta maneira, não ser recomendável, por enquanto, a concessão do benefício do livramento condicional ao agravante, posto que é evidente que poderá causar malefícios à sociedade como um todo, não havendo segurança para uma afirmação de que não voltará a delinquir. (STF - HC: 66437 PR, Relator: Min. SYDNEY SANCHES, Data de Julgamento: 02/08/1988, PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: DJ 19-08-1988 PP-20262 EMENT VOL-01511-02 PP-00408).
	Neste caso, vemos que o impetrante do Habeas Corpus requer sua liberdade condicional face o Tribunal de Justiça do Paraná, todavia, conforme acórdão, após a realização de exame criminológico, foi possível atestar que o condenado possuía indícios de personalidade psicopática, e os peritos aconselhavam um prazo maio para que fosse possível observar melhor o seu comportamento.
	No caso prático, podemos verificar a importância da realização do exame criminológico para atestar a psicopatia nos condenados, pois, somente medianteo resultado de tal exame criminológico, os ministros do STF decidiram pelo seu não livramento condicional, por identificarem no diagnóstico uma ameaça temerária a sua liberdade.
	Abaixo, temos o caso de um condenado, acusado dos crimes previstos nos artigos 210 e 212 do Código Penal, quais sejam, violação de sepultura e vilipêndio ao cadáver, no qual o acusado fora absolvido por ser considerado inimputável, sendo então condenado ao cumprimento de medida de segurança de internação, senão vejamos:
HABEAS CORPUS - VILIPÊNDIO DE CADÁVER - MEDIDA DE SEGURANÇA - FALTA DE VAGA EM NOSOCÔMIO JUDICIAL - MANUTENÇÃO DO PACIENTE NA PRISÃO - CONSTRANGIMENTO ILEGAL INEXISTENTE - PACIENTE PORTADOR DE PERSONALIDADE PSICOPÁTICA OBSESSIVA-COMPULSIVA EM EVOLUÇÃO - NECESSIDADE DA MANUTENÇÃO DA INTERNAÇÃO PARA GARANTIA DA INTEGRIDADE FÍSICA DO PACIENTE E DA SOCIEDADE - ORDEM DENEGADA.
Diante da situação fática demonstrada nos autos, há que observar que a manutenção da segregação do paciente, não configura o alegado constrangimento ilegal, uma vez que, conforme dito pelo magistrado, a medida visa resguardar não só a segurança da sociedade, mas, também, a do próprio paciente, além do que, ao contrário do que afirma o impetrante, a não-internação do paciente pode sim trazer perigo à sociedade, pois se trata de indivíduo portador de personalidade psicopática, com surtos de pensamentos até homicidas, segundo exame pericial (f. 18-20), cujos trechos adiante se transcreve:
Histórico criminal
(...). tenho problemas, sinto muita doidura na cabeça, pensamento rui e que martelando na cabeça de me matar de os outros, dá tontura, dá dor de cabeça, é uma voz martelando na cabeça...
Exame psiquiátrico
Mental: Enfim, apresenta o paciente traços psico-neuróticos, psicopáticos e epileptógenos em sua personalidade, sem falar em seu déficit intelectual. Traços psiconeuróticos de sua obsessividade; traços psicopáticos de sua pulsão sexual; traços epileptógenos de sua sintomatologia comicial (eeg anormal) e oligofrenia de seu déficit intelectual.
Impressão diagnóstica: perturbação da saúde mental.
Uma personalidade psicopática com traços psiconeuróticos enxertados em uma oligofrenia, com possibilidade de fazer um surto definitivo.
A doença encontra-se em evolução, ou seja, apresenta obsessões (pensamentos ou ideias recorrentes persistentes) e compulsões (ações que o periciando obriga-se a executar, mesmo que lhe pareçam inapropriadas).Se tratada, pode ser obstaculizada, caso não, pode acabar fazendo um surto psicótico.
Diante desse quadro, prudente é a manutenção da internação do paciente na cadeia pública até que haja vaga em nosocômio judicial, não se podendo falar em constrangimento ilegal, pois como visto, a medida se faz necessária até para garantia da integridade física do paciente, devido à grande revolta dos familiares e amigos da vítima, conforme noticiado à f. 14, da Apelação nº , onde o magistrado ao decretar a prisão preventiva fundamentou a sua necessidade na garantia da ordem pública, uma vez que o perigo de linchamento era real. (TJ-MS - HC: 6379 MS 2004.006379-2, Relator: Des. Rui Garcia Dias, Data de Julgamento: 29/06/2004, 1ª Turma Criminal, Data de Publicação: 08/07/2004)
	No caso concreto, trata-se de um pedido de Habeas Corpus, no qual o condenado usa como alegação os fundamentos dos artigos 648, I do Código de Processo Penal, que dispõe que ninguém será mantido preso além do tempo fixado na sentença, afirmando já ter cumprido a sua sanção pelo prazo de três anos.
	Todavia, o exame psiquiátrico realizado no impetrante atestou a existência de traços psicopáticos que foram os fundamentos utilizados pelos Ministros para indeferirem o pedido de Habeas Corpus, mantendo o condenado na cadeia pública, até que fosse possível uma vaga em manicômio judicial. 
	Neste caso concreto nos deparamos com outra grande problemática acerca do tema jurídico penal da psicopatia, qual seja, a superlotação nos manicômios judiciais. É entendimento da Corte que na ausência de vaga em estabelecimento apropriado, o condenado deverá ser encaminhado e cumprir a sanção em hospital particular, e sua condenação ao cumprimento de pena em cadeia pública figuraria um constrangimento ilegal. Embora o Tribunal não tenha considerado a condenação como constrangimento legal no caso concreto, vemos que se trata de uma medida superficial, vez que o judiciário encontra-se de mãos atadas para solucionar a problemática da superlotação das instituições carcerárias, qualquer seja seu gênero, obrigando-o assim, ao proferimento de decisões cada vez mais contraditórias.
	Dando continuidade à nossa análise, temos abaixo um caso de Habeas Corpus impetrado visando a progressão do regime. Vejamos:
HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. NÃO CONHECIMENTO DO WRIT. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO INDEFERIDA EM 1º GRAU. MANUTENÇÃO DO DECISUM PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. REQUISITO SUBJETIVO NÃO PREENCHIDO. PARECER PSICOLÓGICO DESFAVORÁVEL. PSICOPATIA COMPATÍVEL COM TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL. ELEVADO RISCO DE COMETIMENTO DE OUTROS DELITOS. FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA. ILEGALIDADE FLAGRANTE. INEXISTÊNCIA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. 1. Ressalvada pessoal compreensão diversa, uniformizou o Superior Tribunal de Justiça ser inadequado o writ em substituição a recursos especial e ordinário, ou de revisão criminal, admitindo-se, de ofício, a concessão da ordem ante a constatação de ilegalidade flagrante, abuso de poder ou teratologia. 2. Legítima é a denegação de progressão de regime com fundamentos concretos, no caso pelo não preenchimento do requisito subjetivo em virtude, essencialmente, do conteúdo da avaliação psicológica desfavorável à concessão do benefício, com a presença de psicopatia compatível transtorno de personalidade antissocial, estando presente elevado risco de cometimento de outros delitos. Precedentes. 3. Habeas corpus não conhecido. (STJ - HC: 308246 SP 2014/0283229-8, Relator: Ministro NEFI CORDEIRO, Data de Julgamento: 24/02/2015, T6 - SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe 04/03/2015)
	Mediante as análises da Jurisprudência analisada, podemos concluir que grandes são os desafios aos quais nosso judiciário enfrenta pela inexistência de qualquer consenso acerca da forma correta quanto ao tratamento que deve ser aplicado mediante o crime praticado por psicopata, vez que inexiste uma consistência de posicionamentos, inclusive das sentenças aplicadas pelos Magistrados.
	De igual modo, a matéria permanece escassa em nosso campo acadêmico, posto que inexiste lei, decreto, portaria ou qualquer regulamento que conceitue ou sequer mencione a psicopatia, reforçando assim a inaptidão do tema no Brasil.
	Tais sentenças e tratamentos distintos e, muitas vezes equivocados são resultantes de uma Lei ultrapassada e desatualizada diante de todas as evoluções ocorridas nas últimas décadas, e que carece urgentemente de novas abordagens quanto ao crime e principalmente ao agente que o executa, sendo a única forma possível de desobstruir nosso sistema carcerário e criar novas formas de aplicação de penas e avaliações que tornem eficaz o seu funcionamento.
3.6 Da cura e do tratamento
	Conforme já abordado no presente trabalho, na grande maioria das vezes, as psicoterapias em geral e as terapias biológicas desenvolvidas como tratamento a personalidade psicopática se mostraram ineficazes, vez que, para a efetividade do tratamento é necessário a colaboração do indivíduo e que o mesmo possua desejo de transformação, o que claramente não ocorre com os indivíduos psicopatas, que não manifestam qualquer ambição de mudança de atitude e de comportamento (Silva, 2008, p. 169).
	Conforme os ensinamentos de Hare (2013, p. 202), as terapias aplicadas aos psicopatas podem ainda agravar o transtorno:
A maioria dos programas de terapia faz pouco mais do que fornecer ao psicopata novas desculpas e racionalizações para seu comportamento e novos modos de compreensão da vulnerabilidade humana. Eles aprendem novos e melhores modos de manipular as outras pessoas, masfazem pouco esforço para mudar suas próprias visões e atitudes ou para entender que os outros têm necessidades, sentimentos e direitos. Em especial, tentativas de ensinar aos psicopatas como “de fato sentir” remorso ou empatia estão fadadas ao fracasso.
	Todavia, embora as expectativas de cura à psicopatia sejam desanimadoras, ainda existe esperança quando falamos sobre reduzir os impactos negativos que a psicopatia é capaz de causar, e a esperança é, tratar o problema ainda na fase infantil (Hare, 2013, p. 205).
	Se os métodos de tratamento forem aplicados ao indivíduo ainda criança, verifica-se uma grande estimativa de êxito na modificação de sua conduta comportamental, principalmente em aspectos como agressividade e impulsividade, lhes sendo ensinado estratégias para que seus desejos súbitos sejam atendidos e controlados sem que faça mal a ninguém.
	No entanto, embora os resultados sejam animadores quando observamos a minimização dos efeitos da psicopatia com o tratamento realizado em crianças, o mesmo não ocorre com adultos, pois os psicopatas adultos utilizam-se das terapias e programas prisionais para provar aos demais que são indivíduos passíveis de reabilitação e ressocialização. Do mesmo modo, utilizam-se das atividades psicoterápicas para aprender novas formas de manipulação psicológica e conseguirem assim satisfazer suas vontades intencionadas. 
CONCLUSÃO
	Sendo assim, ante todo o exposto, podemos concluir que a psicopatia é uma questão muito mais de ordem jurídica do que médica, posto a inexistência de tratamento que possa possibilitar a cura de tal transtorno.
	Portanto, o questionamento central é, o que a nossa Justiça tem feito para o tratamento da questão do criminoso psicopata? Podemos observar que o tema acerca da psicopatia, de certo modo, sempre desafiou a Justiça, primeiramente no sentido de dar uma definição clara e concreta do que é a psicopatia e de como possibilitar a sua identificação em outro indivíduo. Segundo, no desafio de se qualificar o indivíduo psicopata como imputável, semi-imputável ou inimputável, de modo que tal classificação implicaria na aplicação de pena adequada ao agente.
	Conforme abordamos, embora inexista consenso, defendemos a conceitualização de psicopatia sendo compreendida como um transtorno de personalidade, e não como uma doença mental, definindo desta forma o agente psicopata como um infrator imputável, ao qual deve-se aplicar penas em detrimento de medidas de segurança.
	Nada obstante, em razão das peculiaridades e da personalidade psicopática, a função preventiva objetivada pela aplicação da pena, qual seja, a ressocialização do indivíduo criminalizado, não se efetiva aos psicopatas, ocasionando nada mais, nada menos que uma função preventiva geral e provisória, que busca somente a privação da liberdade do indivíduo, segregando-o dos demais, e evitando que seja um risco à sociedade.
	No corpo do trabalho, vimos a importância da realização do exame criminológico para que os aspectos psicopáticos do indivíduo sejam identificados, objetivando a individualização da pena. Todavia, carece o nosso ordenamento de qualquer legislação específica, consoante à Lei dos Crimes Hediondos, que traga em seu corpo maiores rigores, que trate exclusivamente do indivíduo psicopata e de suas particularidades, e que exija em seu texto a realização de uma avaliação interdisciplinar técnica antes do deferimento de qualquer benefícios durante a execução penal dos psicopatas sentenciado, de modo a evitar sua reinserção precoce ao convívio social, além de sua eminente reincidência criminal.
	Ademais, não bastasse a ausência de uma legislação suficiente, a escassa produção doutrinária acerca do tema deixa os demais julgadores sem qualquer embasamento para tomar suas decisões perante um tema tão adverso como este. A consequência da ausência doutrinária é uma jurisprudência com manifestações de magistrados radicalmente opostas, nas quais alguns decidem pela aplicação da semi-imputabilidade, outros, pela inimputabilidade, e ainda, os que acreditam no aumento de pena como forma mais eficaz.
	Sendo assim, o presente trabalho, que não tem como objetivo trazer uma solução definitiva para a problemática da psicopatia em nosso país, e sim, promover uma reflexão acerca do tema, de modo concluir-se que a figura do psicopata em nosso ordenamento brasileiro é basicamente nula. Inexistem artigos publicados sobre o tema, inexistem doutrinas que o abordem com profundidade, inexiste unanimidade em nossa jurisprudência, e por fim e mais preocupante de tudo, temos uma lei omissa acerca do tema. 
	Então, por fim, trazemos a reflexão e proposta a cada penalista brasileiro, para que se inicie um estudo e pesquisa eficaz e focados acerca do tema em nosso país, a fim de que seja criada em nosso país uma base educacional e acadêmica, tanto doutrinária, quanto legislativa, capacitada o suficiente para dar a cada caso a atenção individual necessária, a fim de que não mais um psicopata passe em nossos Tribunais e seja julgado como um criminoso comum. 
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