A Formação do Mundo Moderno   Antônio Edmilson Rodrigues, Francisco Falcon
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A Formação do Mundo Moderno Antônio Edmilson Rodrigues, Francisco Falcon


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Nota Introdutória
Este livro é resultado de duas longas trajetórias pelo ensino universitário durante as quais o
que aqui apresentamos foi experimentado, criticado, revisado e renovado. Por isso, dedica-
mos este livro a todos os nossos alunos de ontem e de hoje da UFF, UERJ, UFRJ,
PUC-Rio e demais instituições nas quais atuamos. Muitos deles são hoje nossos colegas e
nessa condição ajudaram ainda mais na feitura deste trabalho.
A narrativa e a estratégia de escrita deste livro seguem o livre jogo das forças intelectuais.
Não quisemos que as partes feitas por cada um de nós recebessem uma marca de unidade
uma em relação à outra, de forma tal que aqueles que nos conhecem e os que passaram a nos
conhecer sentirão a diferença na abordagem dos temas e na forma de apresentá-los.
Como somos adeptos da renovação, o que pode parecer paradoxal, exploramos
nossos temas de maneira aberta e, na maioria das vezes, ensaística. Esperamos que gos-
tem da forma, pois neste livro a história não passa na porta ou ao léu. Mergulhamos fun-
do nela e aproveitamos todas as ondas, mesmo as menores, aquelas marolinhas que quase
não fazem movimento.
Devemos também registrar que boa parte das questões conceituais aqui apresenta-
das decorreram dos resultados da pesquisa sobre a história da historiografia cultural bra-
sileira apoiada pela FINEP e pelo CNPq na forma do PRONEX e vinculada ao Progra-
ma de Pós-Graduação em História Social da Cultura.
Por último, queremos agradecer ao nosso editor Ricardo, que esperou os originais
deste livro pacientemente, sem se irritar em nenhum momento, e que soube entender
os nossos motivos. A ele, o nosso carinho e a nossa admiração.
Como é um livro em aberto, em tempos de Internet, os autores esperam o retorno
para que as faltas possam ser explicadas e aclaradas.
Façam bom uso do livro e tomara que gostem de lê-lo.
Niterói, novembro de 2005
C a p í t u l o 1
Introdução
O estudo da formação da Idade Moderna pressupõe, como é natural, alguns esclareci-
mentos preliminares, introdutórios mesmo, acerca daquelas noções presentes nesse
mesmo título, isto é, as de Idade Moderna e de formação.
A ideia de Idade Moderna remete-nos a uma antiga concepção tripartida do tempo
histórico, ou seja, sua divisão em idades ou eras sucessivas, cronologicamente, conforme
tradição que remonta ao século XVII; temos, então, a existência de três tempos ou ida-
des: Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna.
Não é de hoje que se debate quer sobre as relações entre Antigos e Modernos, quer
entre Tempos Modernos e Época Medieval. Neste último caso, por exemplo, a discus-
são tradicionalmente recai ora sobre a escolha de acontecimentos considerados marcos
decisivos do início dos Tempos Modernos, ora sobre a definição de certas características
distintivas do medieval e do moderno tomados como realidades históricas absolutamen-
te diversas, quando não antinômicas.
No capítulo dos chamados acontecimentos decisivos, cabe um lugar de destaque ao
conjunto das Grandes Navegações e Descobrimentos realizados nos séculos XV e XVI,
principalmente pelos povos ibéricos. Mas não está assim tão distante o tempo em que se
associava o início dos Tempos Modernos à influência das grandes invenções \u2013 a pólvora, o
papel, a bússola e a imprensa \u2013 ou a determinados acontecimentos bastante conhecidos \u2013
a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos em 1453; a invenção da impressão
com tipos móveis por Gutenberg, nos anos de 1440; a descoberta da América pelo ge-
novês Cristóvão Colombo, a serviço de Castela, em 1492; os começos da Reforma Pro-
testante na Alemanha, em 1517, com a divulgação das famosas teses contra as indulgên-
cias, na catedral de Wittenberg.
Todavia, tanto o recurso ao possível impacto das chamadas grandes invenções como a
crença no poder decisivo de certos fatos históricos mais célebres tenderam a ser substituí-
dos pela referência, como elemento explicativo, aos processos e transformações mais
abrangentes, quer de natureza estrutural, quer conjuntural. Exemplo desse último tipo
foram as transformações ocorridas na conjuntura econômica europeia entre a segunda
metade do século XV e o final do XVI, entre as quais se convencionou atribuir um lugar
de destaque ao chamado deslocamento do eixo econômico da Europa do Mediterrâneo para o
Atlântico, o consequente declínio das principais cidades mercantis e manufatureiras da
Itália, e a rápida ascensão das economias ibéricas \u2013 sobretudo a do comércio flamengo \u2013,
logo seguida pela dos comércios holandês e inglês.
As explicações estruturais, baseadas ou não em pressupostos teóricos marxistas,
identificam essa passagem da Idade Média para a Idade Moderna com o começo de um
longo período de transição do feudalismo para o capitalismo, em função da denominada
crise geral do feudalismo; teríamos aí, portanto, a identificação da Idade Moderna com o
período da transição feudal-capitalista, cujas características e cronologia são bastante dife-
renciadas nas diversas formações sociais europeias.
Enfim, parece lícito ainda hoje supor que ocorreram certas transformações bastante
significativas nas sociedades europeias ao longo dos séculos XV e XVI, embora talvez
não mais seja possível interpretá-las daquela maneira um tanto otimista e radical, como o
fez Henri Hauser (1963), há muitos anos, quando escreveu o livro A modernidade do sécu-
lo XVI. Afinal, nem a modernidade propriamente dita, tal como nós hoje a identifica-
mos, instaurou-se naquela época, nem se processou uma ruptura completa e abrupta en-
tre a cultura medieval e a moderna.
Atividades econômicas, estruturas e relações sociais, formas políticas, ideologias, ma-
nifestações culturais, tudo afinal se modificou em maior ou menor grau, embora em rit-
mos e proporções bastante diferenciados entre si. Tal conjunto permite-nos considerar
essa época o começo de um período distinto do medieval, quaisquer que tenham sido as
permanências e continuidades então verificadas. Explica-se assim o hábito há muito di-
fundido entre os historiadores de procurar sintetizar todas as transformações do período
que então se iniciava utilizando a noção de moderno. No entanto, essa noção está muito
longe de constituir um conceito unívoco. A ideia de moderno significa apenas, em sua
acepção mais ampla, de hoje, do momento atual, sendo plausível supor que para os homens
dos séculos XV e XVI a visão de seu próprio tempo como moderno contivesse um certo
sentido de diferença absoluta em relação ao tempo anterior e, ao mesmo tempo, de come-
ço de um tempo totalmente novo. Generalizou-se então, a partir dessas ideias, típicas da
autoconsciência renascentista, a alusão ao assim chamado início dos Tempos Modernos, ou
ainda ao começo ou surgimento da modernidade. Quanto a esta última, no entanto, con-
vém que se tenha em vista que a nossa noção atual a respeito das suas origens tende a situar
a época decisiva de seu aparecimento nas últimas décadas do século XVIII, em conexão
com o Iluminismo, a Revolução e o advento do capitalismo industrial.
A F O R M A Ç Ã O D O M U N D O M O D E R N O
F a l c o n e R o d r i g u e s2 ELSEVIER
A Idade Moderna, tal como aqui a entendemos, constituiu um período decisivo,
culminando no advento da modernidade. Tomada em si mesma, porém, essa época
pode ser descrita/analisada como tendo sido a de transição do feudalismo para o capitalismo
ou, ainda, num sentido mais específico, como a era mercantilista.
Ao denominarmos era mercantilista o período cronológico correspondente aos
Tempos Modernos ou à Idade Moderna, estamos evidentemente sublinhando os as-
pectos econômicos dessa época assim como a indissociabilidade entre o econômico e o
político, que constitui uma de suas principais características. No entanto, convém se ter
presente o fato de que temos aí, na verdade, a fase final do feudalismo e, portanto, a tran-
sição do feudalismo para o capitalismo, o que nos situa teoricamente