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Repercussões Hemodinâmicas e Metabólicas da Infusão de Soro Fisiológico para Manutenção da Volemia na Oclusão Temporária da Aorta Abdominal

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Arq Bras Cardiol
2002; 79: 395-9.
Amorim e cols
Soro fisiológico para manutenção da volemia na oclusão da aorta abdominal
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Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina
Correspondência: Fábio Ferreira Amorim - Shis, QI. 15 - Conj. 03 - Casa - 10
71635-230 - Brasília, DF - E-mail: ffamorim@ig.com.br
Recebido para publicação em 29/1/01
Aceito em 11/12/01
Objetivo - Avaliar os efeitos hemodinâmicos e meta-
bólicos da infusão de soro fisiológico para manutenção
da volemia na síndrome de isquemia-reperfusão por oclu-
são temporária da aorta abdominal em cães
Métodos - Estudamos 20 cães divididos em dois gru-
pos: grupo isquemia-reperfusão (GIR, N=10) e grupo is-
quemia-reperfusão com infusão de soro fisiológico visan-
do a manutenção da pressão média de oclusão da artéria
pulmonar entre 10 e 20mmHg (GIR-SF, N=10). Todos os
animais foram anestesiados com tiopental sódico e manti-
dos em ventilação espontânea. A oclusão supra-celíaca
da aorta foi obtida com a insuflação de um cateter de Fo-
garty, inserido através da artéria femoral. Após 60min de
isquemia, procedeu-se a desinsuflação do balão, sendo o
animal acompanhado por mais 60min de reperfusão.
Resultados - Os cães do GIR-SF não apresentaram ins-
tabilidade hemodinâmica após a desoclusão da aorta, ocor-
rendo manutenção da pressão arterial sistêmica média e do
índice cardíaco. Porém, houve uma piora da acidose, obser-
vada pela maior redução do pH arterial, ocorrida sobretudo
pela falta de resposta respiratória frente a acidose metabólica
que já havia sido maior com a adoção dessa medida.
Conclusão - A infusão de soro fisiológico para manu-
tenção da volemia foi capaz de evitar a instabilidade he-
modinâmica após o desclampeamento da aorta, porém
essa medida de correção determinou uma piora da acido-
se neste modelo experimental.
Palavras-chave: lesão de reperfusão, hemodinâmica, vo-
lemia
Arq Bras Cardiol, volume 79 (nº 4), 395-9, 2002
Fábio Ferreira Amorim, Bruno do Vale Pinheiro, Hélio Romaldini
São Paulo, SP
Repercussões Hemodinâmicas e Metabólicas da Infusão de
Soro Fisiológico para Manutenção da Volemia na Oclusão
Temporária da Aorta Abdominal
Artigo Original
A oclusão temporária da aorta, necessária em procedi-
mentos cirúrgicos, é uma condição capaz de induzir lesão de
isquemia-reperfusão com alterações sistêmicas 1,2. Hipoten-
são severa, associada a redução do débito cardíaco, é um
evento bem documentado após a desoclusão da aorta, ten-
do como uma de suas causas a hipovolemia central 3-8. Ma-
nutenção da função renal, prevenção da insuficiência circu-
latória esplâncnica e hepática e preservação da integridade
do trato gastrointestinal são conseqüências importantes da
preservação da estabilidade hemodinâmica 8-11.
A administração de fluidos acompanhada de uma mo-
nitorização adequada, baseada na fisiologia da função car-
díaca, conforme a lei de Frank-Starling, é capaz de garantir
um bom desempenho do miocárdio durante o estresse cirúr-
gico e o pós-operatório com melhora do débito cardíaco e
manutenção da pressão arterial sistêmica, sendo que este
último efeito é importante para a manutenção de um fluxo co-
ronariano adequado, protegendo o coração, especialmente
no caso de pacientes com doença oclusiva coronariana as-
sociada 11. Diversos autores demonstraram que a manuten-
ção da pressão de oclusão da artéria pulmonar entre 10 e
18mmHg durante este procedimento foi capaz de prevenir a
queda do débito cardíaco e a hipotensão após o desclam-
peamento da aorta 4-6,12,13.
Porém, o manejo da infusão de fluidos é delicado nes-
ses pacientes pela complexidade dos fatores envolvidos,
como a função cardíaca pré-operatória e vários fatores pre-
sentes no intra-operatório, como administração de agentes
anestésicos e ventilação com pressão positiva. Isso é im-
portante, sobretudo nesses pacientes que comumente apre-
sentam doença cardíaca concomitante, nos quais a admi-
nistração inadequada de volume é perigosa 5.
Compreendendo-se a importância do estudo da lesão
de isquemia-reperfusão e sabendo-se da capacidade da
mesma em determinar alterações sistêmicas, inclusive em
órgãos localizados à distância, estudamos os efeitos da in-
fusão de solução de soro fisiológico para manter a pressão
média de oclusão da artéria pulmonar entre 10 e 20mmHg
durante a isquemia-reperfusão da aorta em um modelo expe-
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Amorim e cols
Soro fisiológico para manutenção da volemia na oclusão da aorta abdominal
Arq Bras Cardiol
2002; 79: 395-9.
rimental em cães, especialmente na fase de choque após a
desoclusão da aorta, sobre as alterações hemodinâmicas e
metabólicas.
Métodos
Foram utilizados 20 cães mestiços, machos, adultos,
pesando entre 12 e 23kg. O anestésico utilizado foi o tionem-
butal sódico (tiopental sódico® CEME, Ministério da Saúde,
Brasil) na dose de 20mg/kg de peso por via endovenosa,
recebendo doses suplementares de 5mg/kg ao longo do ex-
perimento, conforme a necessidade para manutenção do
plano de anestesia. Após a anestesia, os cães foram subme-
tidos à intubação orotraqueal com cânula de Rusch número
8 e mantidos em ventilação espontânea em ar ambiente ao
longo de todo o experimento.
Através da artéria femoral direita, foi introduzido cate-
ter de polietileno 8F, sendo sua extremidade distal locada na
aorta abdominal distal para a monitorização através de colu-
na de mercúrio da pressão arterial média vigente na aorta ab-
dominal distal à oclusão. Posteriormente, foi dissecada a ar-
téria femoral esquerda e cateterizada com um cateter de Fo-
garty oclusor 8F, sendo posicionado o balão na aorta torá-
cica descendente junto ao diafragma a um nível próximo da
10ª vértebra torácica (T10) para posterior oclusão. A oclu-
são aórtica foi realizada, portanto, acima do tronco celíaco.
A posição correta do balão foi confirmada em todos os cães
pela palpação do mesmo ao final de cada experimento por
laparotomia e toracotomia.
Por cervicotomia direita, foi dissecada a veia jugular
interna direita por onde introduziu-se um cateter de artéria
pulmonar 7F de três vias com controle de sua progressão
feito através da interpretação das curvas de pressão no
monitor do aparelho SDM2000 (Dixtal Tecnologia, Brasil)
sendo sua extremidade posicionada na artéria pulmonar. As
vias proximal e distal do cateter de artéria pulmonar foram
conectadas a um transdutor de pressão (Statham P23 Db),
permitindo a determinação dos traçados das curvas de pres-
sões do átrio direito, artéria pulmonar e capilar pulmonar,
sendo esta última estimada através da pressão de oclusão
da artéria pulmonar, obtida por insuflação do balão da extre-
midade distal do cateter. A medida do débito cardíaco foi
feita pela técnica de termodiluição 13 através do debitômetro
do aparelho SDM2000 (Dixtal Tecnologia, Brasil). Pela mes-
ma incisão, foi dissecada a artéria carótida comum direita,
sendo introduzido um cateter de polietileno 8F para medida
da pressão arterial sistêmica média acima do nível de
oclusão da aorta.
Os cães foram distribuídos de forma aleatória em dois
grupos: grupo isquemia-reperfusão (n=10) e grupo isque-
mia-reperfusão com administração de soro fisiológico
(n=10). Nos dois grupos, foram estabelecidos como critérios
para o início do experimento: pH no sangue arterial (pHa) ≥
7,25, pressão parcial de oxigênio no sangue arterial ≥ 70m m
Hg, pressão média de oclusão da artéria pulmonar ≥ 5mmHg
e pressão arterial sistêmica média ≥ 90mmHg.
No grupo isquemia-reperfusão (GIR), após a obtenção
dos parâmetros hemodinâmicos e amostras sangüíneas
basais (T0), procedeu-se a insuflação do balão do cateter de
Fogarty até que a pressão arterial sistêmica média abaixo da
oclusão atingisse valores entre 10 e 20mmHg e não houves-
se oscilação da coluna de mercúrio. O cateter foi mantido in-
suflado por 60min. Após esse período, iniciou-se a reperfu-
são através da desinsuflação
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