Logo Passei Direto
Buscar

Unidade III Educação Física e Esporte Desenvolvimento do Campo Acadêmico

Material teórico sobre o desenvolvimento acadêmico da Educação Física e sua relação com o esporte. Contém introdução histórica, críticas à ginástica, ascensão do esporte, crise de identidade (déc. 1980), questões epistemológicas, formação profissional e orientações de estudo.

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Aspectos Teóricos 
da Educação Física
Material Teórico
Responsável pelo Conteúdo:
Prof. Ms. Fábio Tomio Fuzzi
Revisão Textual:
Prof. Ms. Claudio Brites
Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
• Introdução
• Críticas à Ginástica
• Ascensão do Esporte
• Esporte e Educação Física
• A Educação Física e o Teorizar Cientificista
• Crise de Identidade da Educação Física:
Questões Epistemológicas
• Formação Profissional em Educação Física:
Formação Acadêmico-Científica
 · Compreender o desenvolvimento do campo científico-acadêmico da 
Educação Física e sua relação com o esporte. Identificar as circuns-
tâncias e refletir sobre a crise de identidade da década de 1980.
OBJETIVO DE APRENDIZADO
Educação Física e Esporte: 
Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem 
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua 
formação acadêmica e atuação profissional, siga 
algumas recomendações básicas: 
Assim:
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte 
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e 
horário fixos como o seu “momento do estudo”.
Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma 
alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.
No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e 
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também 
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua 
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.
Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, 
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato 
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte 
Mantenha o foco! 
Evite se distrair com 
as redes sociais.
Mantenha o foco! 
Evite se distrair com 
as redes sociais.
Determine um 
horário fixo 
para estudar.
Aproveite as 
indicações 
de Material 
Complementar.
Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma 
Não se esqueça 
de se alimentar 
e se manter 
hidratado.
Aproveite as 
Conserve seu 
material e local de 
estudos sempre 
organizados.
Procure manter 
contato com seus 
colegas e tutores 
para trocar ideias! 
Isso amplia a 
aprendizagem.
Seja original! 
Nunca plagie 
trabalhos.
UNIDADE Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Contextualização
Nesta Unidade, estudaremos a Educação Física e o desenvolvimento do seu 
campo científico-acadêmico. Veremos que esse desenvolvimento está em estreita 
relação com o esporte, fenômeno que ganhou importância para além das 
competições esportivas em todo o mundo. 
É um assunto bem interessante para compreender como todo esse processo 
também gerou crises dentro da Educação Física. 
Então, comecemos nossos estudos!
8
9
Introdução
O caminho percorrido até aqui mostra a Educação Física/Ginástica se justificando 
na sociedade capitalista pelo discurso científico. Essa ginástica se caracteriza como 
exercícios físicos sistematizados que ganharam forma dentro das famosas Escolas 
de Ginástica.
Assim, diferentes países deram contorno à ginástica, criando seus métodos de 
ensino da prática que prometia, entre outras coisas, a melhora da aptidão física, 
o desenvolvimento moral e a manutenção de um corpo saudável. Características 
as quais as nações buscavam em sua população por preocupação com a defesa 
da pátria (militar) e também para produzir mão de obra necessária diante da cres-
cente industrialização. 
É dentro desse contexto que a Educação Física/Ginástica começa a se estabelecer, 
a se justificar nos currículos escolares e a ganhar contornos científicos. 
Porém, o que veremos nesta Unidade é que um fenômeno tomou proporções 
mundiais, o que fez a área da educação física prestar mais atenção nele. Estamos 
falando do fenômeno esportivo que, aos poucos, substituiria a ginástica e se 
tornaria o objeto preferido da Educação Física na tessitura de seu discurso científico. 
Veremos assim que o esporte foi decisivo para a construção do campo acadêmico 
da Educação Física.
Para entender esse processo, analisaremos os motivos que fizeram com que a 
ginástica fosse preterida pelo esporte.
Críticas à Ginástica
Como vimos anteriormente, a ginástica conseguiu argumentos suficientes para 
ser recomendada à população em geral e, com isso, entrar nas escolas. Os métodos 
ginásticos mostram toda uma estruturação dos exercícios físicos com o propósito de 
desenvolver o físico e a moral. Toda sua rigidez casou com as instituições militares 
que tanto a propagaram.
Entretanto, os métodos ginásticos não ficaram imunes às críticas. Algumas ideias 
mais progressistas de educação já circulavam no começo do século XX, o que se 
tornou um obstáculo à ginástica.
9
UNIDADE Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Figura 1: John Dewey (1859-1952), expoen-
te da escola progressista norte-americana. 
Defendia a democracia, a liberdade de pen-
samento e dava destaque às questões físicas, 
emocionais e intelectuais das crianças
Fonte: Wikimedia Commons
Um primeiro movimento que não é favorá-
vel a ela é o movimento conhecido como Escola 
Nova, que se desenvolveu fortemente na década 
de 1930 nos EUA, tendo influência das ideias de 
John Dewey. 
As ideias do autor são favoráveis a uma edu-
cação que seja diferente a da educação tradicio-
nal, que se caracteriza por sua rigidez e tendo o 
professor como detentor do saber. Nesse modelo 
de educação, caberia ao aluno repetir, obedecer e 
executar os comandos dados pelo professor, além 
de memorizar conteúdos. Não existe liberdade 
para o aluno no seu raciocínio, pois a educação é 
centrada na figura do professor.
O movimento da Escola Nova tinha por fim 
proporcionar uma educação integral, dirigindo 
adequadamente o desenvolvimento do ser huma-
no, ou seja, o respeito ao desenvolvimento físico, 
intelectual e emocional das crianças.
Uma educação nesses moldes deve se preocupar com os interesses e as 
necessidades dos alunos para proporcionar um desenvolvimento integral da criança. 
Ou seja, nessa perspectiva, uma educação não poderia deixar de contemplar os 
aspectos biológicos, sociais, psicológicos e filosóficos.
Figura 2: Ensino Tradicional X Ensino Progressista
Fonte: Adaptado de iStock/Getty Images
Porém, a Educação Física, ao se utilizar dos modelos ginásticos, executava uma 
educação nos moldes da tradicional. Dentro da intervenção com a ginástica, as 
sistematizações dos exercícios físicos colocavam o instrutor/professor de ginástica 
como aquele que conhecia com perfeição o método, caberia ao aluno executar o 
que era cobrado.
10
11
Repare que essas ideias da Escola Nova não vão de encontro ao modelo peda-
gógico que vinha sendo absorvido pela Educação Física de caráter militar. O que se 
via então era uma discrepância entre o nível de abordagem da Escola Nova, com 
maior visão de totalidade de homem, perante ao desenvolvimento da Educação 
Física, que se restringia a ver o homem sob o ponto vista anátomo-biológico.
Dessa maneira, a influência do Movimento Escola Nova no Brasil fez com que 
alguns intelectuais repensassem o modelo educacional brasileiro e, com isso, a 
Educação Física, que se utilizava dos métodos ginásticos, acabou sendo criticada. 
Na obra de Betti (1991, p. 95), existem alguns trechos que podemos identificar 
a crítica aos modelos ginásticos:
Fazer com que um adolescente, cujosinteresses são muitos variados, 
permaneça por seis a nove minutos imóvel, sem falar, de determinar-lhe 
que mova primeiro os braços, depois as pernas, a seguir o tronco e assim 
por diante, parece-nos não ser uma forma lá muito atraente de trabalho 
físico (MARINHO, s.d).
Uma criança não poderá ter os mesmos objetivos de um adulto; não 
interpretará os exercícios da mesma maneira que este último, mesmo 
porque o grau de atenção da criança é diferente (COSTA, 1949).
Porém, não podemos achar que somente o Movimento Escola Nova abalou as 
estruturas dos modelos ginásticos no Brasil e sua forma de ensino. Concomitante-
mente com esse processo, o mundo estava assistindo ao crescimento do fenômeno 
esportivo, esse sim com grande influência na Educação Física. 
Ascensão do Esporte
O esporte surge como prática institucionalizada no século XIX nas escolas 
inglesas no contexto de Revolução Industrial. O Esporte Moderno surge a partir da 
modificação de jogos populares e sua prática consegue se espalhar para o mundo 
inteiro, formando uma cultura esportiva. 
O final do século XIX e começo do século XX é de consolidação do fenôme-
no esportivo. Basta lembrar as grandes competições esportivas que ganharam 
projeção nesse período. A primeira Olimpíada da era moderna foi realizada no 
ano de 1896 e a primeira Copa do Mundo de futebol tem o registro no ano de 
1930, somente para citar duas competições que ganharam importância dentro 
do cenário esportivo.
11
UNIDADE Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Figura 3: As Olimpíadas representam a força que o esporte tem na sociedade moderna. 
Também representam mais do que disputas esportivas, mas um conflito político-ideológico
Fonte: Wikimedia Commons
Nas palavras de Betti (1991, p. 49):
Sem dúvida, os Jogos Olímpicos foram decisivos para a universalização 
da instituição esportiva, na medida em que difundiram um modelo 
esportivo, padrões de funcionamento, regras e normas de conduta. [...] 
Passou a interessar cada vez mais a um maior número de nações um bom 
desempenho nos Jogos Olímpicos, que agora são palco de confrontos 
entre grandes potências esportivas (e econômicas) mundiais.
Então, o fenômeno esportivo passa a ser muito mais do que disputas entre 
equipes e atletas e começa a carregar um forte componente político. Com o 
desenvolvimento dos meios de comunicação, principalmente após a 2ª Guerra 
Mundial, o esporte consegue atingir um número de pessoas ainda maior no mundo 
inteiro e se torna um grande aliado para difundir os ideais esportivos e o sucesso 
das nações nas competições esportivas.
A ideia de nação poderosa constituída por cidadãos fortes e saudáveis fez com 
que os estados totalitários utilizassem o esporte como veículo publicitário de seus 
regimes políticos.
Figura 4: A Olimpíada de 1936 em Berlim, Alemanha, serviu como propaganda do 
nazismo de Adolf Hitler. Na época, o alemão pregava que a raça superior era a raça ariana
Fonte: Wikimedia Commons
12
13
Se recordarmos que o período da Guerra Fria foi um período de disputas 
estratégicas e conflitos indiretos entre EUA e URSS de ordem política, militar, 
tecnológica, econômica, social e ideológica, podemos perceber o quanto o esporte 
foi decisivo para tentar mostrar a superioridade de uma nação perante a outra.
Além da corrida armamentista, os Jogos Olímpicos protagonizaram uma 
verdadeira disputa entre as nações. As medalhas olímpicas representavam para o 
mundo a supremacia de uma nação perante a outra, a afirmação de uma nação 
mais forte, poderosa e mais preparada do que a outra.
No Brasil, não foi diferente. Os resultados do Brasil em competições esportivas 
internacionais ajudaram a formar a imagem de um país em desenvolvimento e com 
grande potencial de progresso para o mundo.
As conquistas brasileiras em diversos esportes, principalmente no futebol (Copas 
do Mundo de 1958, 1962 e 1970), contribuíram para elevar a autoestima do povo 
que superava países europeus, considerados de primeiro mundo. 
Entretanto, o uso político do esporte também foi uma estratégia do plano político 
da ditadura militar brasileira. Foi um projeto intelectual e político de associar a 
imagem do Brasil e do homem brasileiro às vitórias da seleção de futebol nas Copas 
do Mundo.
A conquista da Copa do Mundo de 1970 pelo Brasil foi um emblemático exemplo 
da propaganda ideológica que o esporte poderia passar. A tentativa era passar a 
impressão de que a ideologia da ditadura militar conseguira projetar o Brasil para 
o mundo não só no esporte, mas na sociedade mais ampla.
Figura 5: A seleção brasileira de futebol de 1970 teve sua imagem fortemente
associada à propaganda de um Brasil vencedor a serviço da ditadura militar
Fonte: Wikimedia Commons
13
UNIDADE Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Podemos assim perceber que o esporte ganha importância social e política 
em todo o mundo, o que justificará investimentos para o seu desenvolvimento. 
Com esse cenário construído, é possível perceber uma reação contra os métodos 
ginásticos pela crescente importância do fenômeno esportivo na sociedade e na 
Educação Física. 
Esporte e Educação Física
O Brasil, na década de 1940 e 1950, sofre influência de um famoso autor 
francês, Auguste Listello, começa a difundir no mundo o famoso Método Desportivo 
Generalizado. Tal método tem o intuito de proporcionar uma atividade física 
prazerosa que englobe o indivíduo como um todo, numa ação psico-morfo-fisio-
sociológica. Para isso, são propostas intervenções em forma de jogo, forma coletiva 
de trabalho por pequenos grupos com flexibilização das regras, por exemplo.
O Método Desportivo Generalizado incorporava o conteúdo esportivo aos 
métodos da Educação Física com ênfase no aspecto lúdico (jogo), sendo visto como 
uma possibilidade de formação integral dos alunos e, por isso, como um meio de 
formação e preparação para a vida. Além disso, foi possível atrelar ao esporte os 
valores de solidariedade, lealdade e associação em torno de um interesse comum.
Dessa maneira, o Método Desportivo Generalizado torna-se uma proposta muito 
mais atrativa, do ponto de vista da pedagogia progressista, do que se viu em Dewey, e 
que se coaduna com os objetivos políticos mais amplos do desenvolvimento do esporte.
Sendo assim, o Método Desportivo Generalizado representou, além de uma 
reação contra os velhos métodos de ginástica, uma tentativa de manter o esporte 
sob o domínio pedagógico da Educação Física. 
A partir desse momento, o binômio Educação Física/Esporte se intensifica, já 
que a Educação Física Escolar será a base da pirâmide esportiva, ou seja, será 
na escola o início, o local para selecionar os talentos e descobrir os atletas que 
garantirão o sucesso brasileiro nas competições internacionais. 
Inicia-se um momento de esportivização da área e dentro da escola o reflexo 
disso são conteúdos esportivos para ensinar a prática esportiva e, sobretudo, um 
local de seleção dos melhores para a prática esportiva.
É bom lembrar que o Esporte de alto rendimento se torna um sustentáculo 
ideológico para a promoção do Brasil no exterior, e tudo isso terá início na escola. 
Assim, é possível perceber que em pouco tempo o rendimento esportivo do país 
começará a ser encarado como um ponto de atenção em políticas públicas, uma 
vez que o esporte consegue proporcionar uma propaganda ideológica do Brasil 
para o mundo. 
14
15
A preocupação com o rendimento esportivo gerou um documento que foi citado 
Betti (1991, p. 97):
A observação do desempenho das equipes representativas nacionais, em 
todos os setores desportivos, tem indicado uma evidente ineficiência no 
que se refere à condição física [...] Além disso, é sensível na atualidade 
que a pesquisa do treinamento desportivo, com suas implicações e novos 
conceitos, está influenciandopreponderantemente a evolução de todos os 
setores da Educação Física (Brasil, MEC, DEF, 1968, p. 7).
O documento aponta urgência de se pensar o problema do rendimento esportivo 
no Brasil. E como estamos falando de um contexto moderno que os problemas são 
respondidos pela ciência, a pesquisa dentro da área esportiva começa a ganhar 
força e destaque. 
Esse momento é muito importante para Educação Física no que se refere 
ao desenvolvimento do campo acadêmico. Agora, é possível reivindicar com 
propriedade um campo de atuação e de pesquisa que é legítimo da Educação 
Física, que é o foco no desempenho esportivo.
Com os métodos ginásticos, a autoridade científica eram os médicos higienistas. 
Porém, agora a autoridade científica, o teorizar cientificista começava a ser a 
própria Educação Física.
A Educação Física e o Teorizar Cientifi cista
Este é o momento oportuno para a consolidação da Educação Física enquanto 
área acadêmica, afinal, antes, com a ginástica, sua teorização era realizada pelos 
médicos, e não por um agente da Educação Física. 
Como nos lembra Bracht (1999, p. 17-18):
[...] a teorização da ginástica escolar era realizada a partir de um olhar 
pedagógico (médico-pedagógico, moral-pedagógico), ou seja, as práticas 
corporais eram construídas e vistas como instrumentos para a educação 
para a saúde e para a educação moral. [...] Outra característica é a de que 
essa teorização era realizada, necessariamente, por intelectuais de outros 
campos (medicina, forças armadas, pedagogia, ciências políticas), uma vez 
que o campo acadêmico “EF” (ou ginástica escolar) não havia se constituído.
Portanto, a Educação Física, enquanto ginástica, via-se impossibilitada de 
teorizar sua prática e, como consequência, sem um campo acadêmico definido. A 
área estava sendo teorizada pela medicina e sua formação era militarizada com um 
forte componente prático. 
Já a partir da década de 1960, o discurso da Educação Física é tomado pelo 
teorizar cientificista, por conta do enorme desenvolvimento do fenômeno esportivo. 
A Educação Física agora está subordinada aos interesses do desempenho esportivo, 
é a performance esportiva que orientará os caminhos e a teorização da área. 
15
UNIDADE Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Haverá um forte investimento científico no esporte, pois a importância social e 
política do desempenho esportivo do país em um nível internacional fará parecer 
legítimo todos os esforços nesse campo. Agora estamos falando de uma área que 
quer se afirmar na Universidade, que se permite utilizar de um discurso científico, 
de reivindicar cursos de pós-graduação, simpósios, criação de entidades científicas, 
financiamento de pesquisas, estruturação de laboratórios etc. 
No final dos anos de 1970, são fundados o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) e 
o Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (CELAFISCS). São 
exemplos de duas entidades científicas de grande nome dentro da Educação Física.
Ex
pl
or
É nesse contexto que nasce um agente social da Educação Física, um intelectual, 
alguém com formação originária na Educação Física, que se desafia a teorizar 
cientificamente o problema da melhoria da performance esportiva.
Lembre-se que quando falávamos do período dos métodos ginásticos, tratávamos de uma 
formação que era militarizada e os médicos higienistas eram os que ditavam a importância da 
prática de exercícios físicos. Ou seja, não havia um agente formado genuinamente na Educação 
Física. Agora, com a teorização científica da área, aquele agente formado na Educação Física 
começa a ter autoridade científica para teorizar sobre a performance esportiva.
Ex
pl
or
Porém, o teorizar da Educação Física/Ciência do Esporte se dará fundamen-
talmente a partir de ciências-mãe como a Fisiologia, Física, Medicina etc. Assim, 
o profissional de Educação Física torna-se cientista da Fisiologia, da Biomecânica 
etc., e não um cientista da Educação Física. 
Nesse processo de teorização da área é que começam alguns questionamentos: a 
Educação Física é uma ciência, uma vez que precisa de outras ciências para construir 
seu conhecimento? Com o teorizar cientificista foi construído um conhecimento da 
Educação Física ou foi construído conhecimento para Fisiologia, Medicina, Física etc.?
Na tentativa de responder a tais indagações, entre outras, a respeito de sua 
identidade, a Educação Física é obrigada a entrar em crise. Ou como Medina 
(1986, p.35) decretou:
A Educação Física precisa entrar em crise urgentemente. Precisa 
questionar criticamente seus valores. Precisa ser capaz de justificar-se a si 
mesma. Precisa procurar sua identidade. É preciso que seus profissionais 
distinguissem o educativo do alienante, o fundamental do supérfluo de 
tarefas. É preciso, sobretudo, discordar mais, dentro, é claro, das regras 
construtivas do diálogo. O progresso, o desenvolvimento, o crescimento 
adviriam muito mais de um entendimento diversificado das possibilidades 
da Educação Física do que através de certezas monolíticas que não 
passam, ás vezes, de superficiais opiniões ou hipóteses.
Desse ponto, faz-se necessário entender a crise de identidade da Educação Física 
sob a perspectiva da ciência.
16
17
Crise de Identidade da Educação Física: 
Questões Epistemológicas
Do ponto de vista científico, a Educação Física procurou se estabelecer 
enquanto campo acadêmico ao longo do século XX. Veja a forma como a área 
foi se estabelecendo primeiramente com os modelos ginásticos e depois com sua 
esportivização pelo prisma da ciência. Ou seja, pelo discurso científico, a Educação 
Física se estabeleceu como uma prática de intervenção na realidade social.
Nesse processo de consolidação, enquanto campo acadêmico, percebemos que 
sua teorização científica se deu a partir da performance esportiva, onde conseguiu, 
por conta da importância social e política do esporte, investimentos necessários e 
autoridade científica própria para desenvolver-se enquanto uma área da Ciência. 
Assim, a Educação Física explicita seu desejo de virar uma ciência.
Entretanto, como já foi dito, o teorizar cientificista não se dava por conhecimentos 
da Educação Física, mas foi por conta das já descritas ciências-mãe. Então, qual a 
identidade epistemológica da Educação Física, é uma ciência ou não?
De acordo com Tesser (1994), Epistemologia signifi ca discurso sobre a ciência. É o estudo 
crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências. É a teoria do 
conhecimento. Sua tarefa principal é a reconstrução racional do conhecimento científi co: 
conhecer, analisa, todo o processo gnosiológico da ciência do ponto de vista lógico, 
linguístico, sociológico, interdisciplinar, político, fi losófi co e histórico.
Como esclarece Bracht (1999), identidade epistemológica signifi ca a forma própria com que 
cada disciplina científi ca interroga e explica a realidade, o que é determinado pelo tipo de 
problema que levanta, pelos métodos de investigação e pela linguagem que desenvolveu 
e utiliza.
Ex
pl
or
Sobre a crise de identidade da área sobre essa última questão, tema central desta 
unidade, é preciso algumas elucidações.
Buscando em Bracht (1999), perceberemos que o quadro elaborado pela 
Educação Física mostra que surgiram os especialistas da área, mas não em 
Educação Física, e sim em Fisiologia do Exercício, Biomecânica, Psicologia do 
Esporte, Sociologia do Esporte, Aprendizagem Motora etc. 
Dessa maneira, o autor aponta que a Educação Física na verdade é colonizada 
epistemologicamente, ou seja, existe uma dependência de outras disciplinas 
científicas e os conhecimentos produzidos não eram genuínos da área. 
Assim, no final dos anos 1970 e 1980 a Educação Física percebeu influência 
predominante da área biológica (Ciências Biológicas) e que haviauma ausência de 
um estatuto epistemológico-científico próprio. 
A crise da Educação Física, que ocorre predominantemente na década de 1980, 
foi um movimento de denúncia e de crítica à área, principalmente porque começou 
o contato com outras ciências diferente das Ciências Biológicas.
17
UNIDADE Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Pode-se dizer que esse movimento surgiu por intermédio de um envolvi-
mento maior dos profissionais da área com outros ramos do saber, como 
filosofia, sociologia, psicologia, educação, etc. Foi especialmente na déca-
da de 80 que começou no Brasil esse período de crítica (SURDI; KUNZ, 
2007, p. 26-27)
Dessa maneira, depois da década de 1980, a Educação Física começou a in-
corporar fundamentos pedagógicos, culturais, antropológicos, filosóficos e sociais. 
Especialmente no Brasil, foi um período de muitas críticas à área.
Importante entender que a Educação Física brasileira a qual nos referimos aqui 
está dentro de um contexto sociopolítico mais amplo, ou seja, o que acontece na 
Educação Física tem relação com a história do Brasil.
Assim, o movimento de crítica à Educação Física e os questionamentos levan-
tados vão de encontro ao momento pelo qual o país vivia: a redemocratização do 
Brasil. O final da década de 1970 e a década de 1980 foram períodos de muito 
questionamento ao regime político do país. A ditadura militar era questionada e um 
movimento renovador da sociedade brasileira nascia para redemocratizar o país. 
A crise da Educação Física na década de 1980 reflete esse momento maior, 
afinal estamos falando da busca da área por uma identidade diferente daquela 
militarizada, de práticas alienantes, mecânicas e autoritárias. 
Para Medina (1986), a Educação Física precisa superar a ideia de ser ela uma 
disciplina exclusivamente prática, sem maiores necessidades de reflexões que 
questionem o valor de suas atividades para a formação integral da mulher e do 
homem brasileiros.
Ainda para o autor, a área se caracteriza por um divórcio de um referencial 
teórico que lhe dê suporte como atividade essencialmente – mas não exclusivamente 
– prática.
Cientificamente, a Educação Física na crise questionou as bases do seu 
conhecimento e necessidade de um estatuto epistemológico que lhe fornecesse 
identidade. Parece que as bases científicas de outrora davam sinal de esgotamento.
Foi então que, no que se refere ao plano científico, na tentativa de superar a crise 
de identidade, levantou-se a hipótese de que isso só iria acontecer quando houvesse 
a sua afirmação enquanto Ciência. Porém, como alerta Bracht (1999), a Educação 
Física não apresenta características necessárias para condicioná-la a ser vista como 
ciência; estando mais para um campo de aplicação do conhecimento produzido em 
outras áreas, do que um campo específico de produção do conhecimento. Afinal, ela 
está colonizada epistemologicamente (dependência de outras disciplinas científicas):
[...] essas pesquisas têm sua identidade epistemológica ancorada nas 
ciências-mãe e não na EF, ou seja, a EF não é capaz de oferecer/fornecer 
uma identidade epistemológica própria a essas pesquisas. A pesquisa 
em fisiologia do exercício não é ciência da EF e, sim, ciência fisiológica, 
assim como história do esporte não é Ciência do Esporte e, sim, ciência 
histórica (BRACHT, 1999, p. 32).
18
19
Segundo o autor, a própria definição do objeto de estudo da Educação Física 
é problemática, pois o movimento humano por si só não é um objeto científico. 
Objeto científico é algo construído a partir de uma determinada abordagem 
metodológica. E como nos mostra Lüdorf (2002), a Educação Física apresenta 
abordagens empírico-analíticas, fenomenológico-hermenêutica e crítico-dialéticas 
quando foram levantadas as teses e dissertações na década de 1990.
Portanto, podemos perceber que definir a Educação Física enquanto Ciência 
não é tarefa fácil e parte da sua crise de identidade vem do desejo de se tornar 
ciência. Além disso, a busca por um status acadêmico não para no discurso. Olhar 
para a formação em Educação Física nos ajuda a perceber o quanto a área buscou 
se legitimar no espaço científico. 
Formação Profi ssional em Educação Física: 
Formação Acadêmico-Científi ca
Para falar de formação e atrelar com o teorizar cientificista em Educação Física, 
vamos recordar que a área teve sua herança médico e militar também na sua 
formação e na base de conhecimentos da Educação Física. 
Os cursos civis de Educação Física apenas surgiram no contexto dos movimentos 
educacionais, com a obrigatoriedade da disciplina Educação Física ser ministrada 
nas escolas a partir da década de 1930.
Assim, a formação do professor de Educação Física, aquele que irá atuar no 
ensino formal, foi pensada e estruturada, porém sem escapar do caráter de curso 
técnico, afinal para o ingresso no curso era necessário somente o ensino secundário 
fundamental (antigo ginásio). 
Com o quadro desenhado, era distante para a Educação Física ganhar um status 
acadêmico, pois até sua formação não o legitimava. Também depõe contra a área 
o fato da Educação Física, mesmo nos seus cursos de formação, contemplar muito 
do saber prático, o saber fazer, na ginástica e no esporte. 
Porém, como vimos anteriormente, o teorizar cientificista, decorrente do 
fenômeno esportivo que possui importância social e política, impactou na formação 
em Educação Física.
Desta maneira, atenta ao fenômeno esportivo e com um novo olhar para 
atuação profissional, a Educação Física volta a reestruturar seu curso em 1969 
com a ampliação de carga horária e foco na formação do professor de Educação 
Física com licenciatura plena, quanto a formação do técnico desportivo (habilitação 
obtida simultaneamente à licenciatura, com o acréscimo das matérias desportivas).
19
UNIDADE Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Estudo da vida humana em seus aspectos 
celular, anatômico, �siológico, funcional, 
mecânico, preventivo
Estudo dos exercícios gímnico 
desportivos em seus aspectos físicos, 
motores, lúdicos, agonísticos, artísticos
ou de forma 
concomitante
Professor de Educação Física
Técnico Desportivo
Educação Física
(SABERES)
Estudo das matérias pedagógicas: didática, 
estrutura e funcionamento do ensino,
psicologia da educação e prática de ensino
Formação Pro�ssional
(1.800 horas-aula)
Figura 6: Formação Profissional em Educação Física: O programa de 1969
Fonte: Adaptado de Souza Neto et al., 2004
Porém, os investimentos científicos na área com a criação de entidades e eventos 
científicos e, principalmente, os cursos de pós-graduação a partir do final da década 
de 1970 possibilitou uma maior interação com a comunidade acadêmica. 
Neste processo, a Educação Física viu a necessidade de novamente, repensar 
sua formação. E isso aconteceu em 1987, ano muito importante para ao pensar a 
formação profissional em Educação Física.
Em 1987 aconteceram algumas mudanças substanciais na formação em Edu-
cação Física. Podemos mencionar que a Resolução CFE 03 do mesmo ano pro-
vocou o aumento da carga horária de 1800 para 2880 horas, uma formação 
que contemplou conhecimentos humanísticos e técnicos e o aprofundamento de 
conhecimentos, etc. Porém, o mais impactante para a área foi a criação do curso 
de Bacharelado em Educação Física. Com isso a área buscou uma formação de 
professores/profissionais e não de atletas e com isso fugir da vinculação com a 
dimensão prática unicamente.
Formação Geral: Humanística e Técnica
Aprofundamento de Conhecimento
Licenciatura em
Educação Física
Bacharelado em
Educação Física
Educação Física
(SABERES)
Formação Pro�ssional
(2.800 horas-aula)
Humanística
Conhecimento Filosó�co
Conhecimento da Sociedade
Conhecimento do Ser Humano
Técnico Conhecimento Técnico
Figura 7: FormaçãoProfissional em Educação Física: O programa de 1987
Fonte: Adaptado de Souza Neto et al., 2004
20
21
Agora a área têm duas formações, em Licenciatura e em Bacharelado em 
Educação Física. Mas por que a criação de outro curso? Uma das justificativas foi a 
adequação necessária ao mercado de trabalho.
Porém, podemos pensar que a Educação Física com Licenciatura e Bacharelado 
aproxima a área daquelas outras disciplinas que tradicionalmente possuem a mesma 
divisão como é o caso da Matemática, da Física, Geografia, História, entre outros. 
Essas disciplinas são daquelas ciências mais duras e consolidadas.
Portanto, com a Crise de Identidade, o teorizar cientificista e a busca para se 
afirmar enquanto ciência também atinge os currículos de formação profissional em 
Educação Física.
São movimentos empreendidos pela a área em busca de uma identidade acadê-
mico, epistemológica e profissional, no qual a chave para desvelar esse processo 
está no entendimento da ciência.
Contudo, até por conta do status que a ciência possui na sociedade e 
principalmente no meio acadêmico algumas propostas de identidade epistemológicas 
foram pensadas, e veio a hipótese para sair da sua Crise de Identidade: a Educação 
Física deveria se tornar uma Ciência.
Porém isso é um assunto para outra unidade.
21
UNIDADE Educação Física e Esporte: Desenvolvimento do Campo Acadêmico
Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
 Sites
Hitler usou as Olimpíadas para fazer Propaganda do Nazismo em 1936
Veja uma reportagem sobre os Jogos Olímpicos de 1936 como um exemplo da pro-
pagando ideológica do nazismo
https://goo.gl/79YVCP
Futebol e Regimes Militares no Brasil e Argentina
https://goo.gl/Es1qg1
Futebol e Política: Copa do Mundo e Eleições
https://goo.gl/l8LfME
 Leitura
RBCE - Revista Brasileira de Ciências do Esporte
BRACHT, V. Educação Física e Ciência: cenas de um casamento (in)feliz. Rev. Bras. 
Ciênc. Esporte, Campinas, v.22, n.1, p.53-63, set. 2000.
https://goo.gl/5ELsp2
22
23
Referências
BRASIL. Resolução n.º 3, de 16 de junho de 1987. Diário Oficial n.172, 
Brasília, 1987.
BETTI, M. Educação física e sociedade. São Paulo: Movimento, 1991.
BRACHT, V. Educação Física e ciência: cenas de um casamento (in)feliz. Ijuí: 
Unijuí, 1999.
LÜDORF, S. M. A. Panorama da pesquisa em educação física da década 
de 90: análise dos resumos de dissertações e teses. Revista da Educação Física, 
Maringá, v.13, n.2, p.19-25, 2 sem, 2002.
MEDINA, J. P. S. A Educação Física cuida do corpo e... “Mente”. Campinas: 
Papirus, 1986.
SOUZA NETO, S.; ALEGRE, A. N.; HUNGER, D.; PEREIRA, J. M. A formação 
do profissional de educação física no Brasil: uma história sob a perspectiva 
da legislação federal no século XX. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 
Campinas, v.25, n.2, p.113-128, jan, 2004.
SURDI, A. C.; KUNZ, E. O pensamento moderno e a crise na Educação Física. 
Roteiro, Joaçaba, v. 32, n. 1, p. 7-36, jan./jun. 2007.
TESSER, G. J. Principais linhas epistemológicas contemporâneas. Educ. Rev., 
Curitiba, n.10, Jan./Dez. 1994.
23

Mais conteúdos dessa disciplina