A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
168 pág.
Manual de moléstias vasculares

Pré-visualização | Página 11 de 50

arterial (manter níveis abaixo de 140/90 mm/Hg), a perda de peso e dieta apropriada. A aspirina (80 a 100 mg) 
diária tem demonstrado ser útil na diminuição de enfartes do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais.
Os lipídios plasmáticos devem ser dosados no adulto pelo menos a cada seis meses e, se elevados, as 
condutas indicadas acima devem ser rigidamente seguidas. Todas as medidas apontadas em conjunto deve-
rão preservar a qualidade de vida e a longevidade das pessoas.
Figura 3 - Consequências da aterosclerose do ponto de vista clínico.
Infarto Agudo do 
Miocárdio
Acidente Vascular 
Cerebral IsquÍmico
Gangrena dos 
Membros
Hipertenso
Renovascular e 
Insuficiência
Renal
Aneurismas
arteriais
FHM
Moléstias Vasculares 37
Arterites João Potério Filho5
Capítulo
As arterites, ou vasculites, são conhecidas na história médica desde 1866 
quando Kussmaul18 descreveu uma doença com trombose arterial e nódulos, 
que não era a aterosclerose – a poliarterite nodosa (PAN). A maioria das vasculi-
tes, embora mediada por processo imunológico, não apresenta causa específica. 
Também a manifestação clínica sistêmica, como febre, perda de peso e fraque-
za, e a alteração das provas de atividade inflamatória, são comuns a todas elas. 
Tabela 1: Classificação das Vasculites
Primárias
Isoladas
Sistema Nervoso Central
Pele (Eritema Elevatum Diu-
tinum, Vasculite Livedoide)
Renal
Ocular
Sistêmicas
Tromboangeíte obliterante 
Doença de Takayasu11
Arterite de Células Gigantes e 
Polimialgia Reumática
Poliarterite Nodosa e Polian-
geíte Microscópica
Doença de Kawasaki12
Doença de Behçet13
Síndrome de Churg-Strauss15
Granulomatose de Wegener17
Secundárias
Doenças Reumáticas
Esclerose Sistêmica
Lúpus Eritematoso Sistêmico
Artrite Reumatoide
Síndrome de Reiter10
Policondrite Recorrente
Espondilite Anquilosante
Infecciosa
Bactérias (endocardite com embolização sépti-
ca - estafilococos, imunodeprimidos – germes 
Gram negativos, meningococcemia, infecções 
por Streptococcus etc.)
Vírus (secundário a hepatite B e C)
Neoplasias
Leucemias, Linfomas, Doença de Hodgkin14, 
Mieloma Múltiplo
Relacionadas a drogas
Púrpura de Henoch-Schönlein16
Crioglobulinemia
Infecções virais, doenças do tecido conectivo, 
pode ser primária
10Hans Reiter, 1881- . Sanitarista 
alemão.
11Mikito Takayasu, 
1860-1938. Oftalmologista 
japonês.
12Tomisaku Kawasaki. Pediatra 
japonês. Descreveu a doença 
em 1967. 
13Hulusi Behçet, 1889-1948. 
Dermatologista turco.
14Thomas Hodgkin, 1798-1866. 
Clínico inglês.
15Jacob Churg, 1910-. 
Patologista russo naturalizado 
americano. Lotte Strauss, 
1913-1985. Patologista alemã 
naturalizada americana.
16Edouard Heinrich Henoch, 
1820-1910. Pediatra alemão. 
Johann Lukas Schönlein, 
1793-1864. Clínico alemão.
17Friedrich Wegener, 1907-
1990. Patologista alemão.
18Adolf Kussmaul, 1822-1902. 
Clínico alemão.
Moléstias Vasculares38
Arterites João Potério Filho
Para uma melhor diferenciação é necessário atenção aos detalhes da história 
clínica, achados de exames de imagem e do exame anátomo-patológico. Por se-
rem relativamente raras, a experiência acumulada por serviços médicos isolados 
não é grande, dificultando o estudo. A presença de uma vasculite, no entanto, 
representa sempre quadro grave, pois os vasos comprometidos podem evoluir 
para estenoses, trombose ou aneurismas, com consequente comprometimento 
da irrigação dos órgãos envolvidos, e da própria vida.
As vasculites são separadas em primárias e secundárias (Tabela 1). Quando 
outra doença de base é conhecida e responsável pelo quadro de vasculite, é denomi-
nada de secundária. O tratamento da doença de base resulta na regressão do pro-
cesso de vasculite, permanecendo, em geral, as sequelas isquêmicas que porventura 
ocorreram, como necrose de artelhos ou membros. Muitas vezes o cirurgião vascular 
é chamado apenas para intervir sobre a área de necrose, já bem delimitada, realizan-
do procedimentos de desbridamentos e amputações (Capítulo 20).
Como exemplos de vasculites secundárias, podemos citar as decorrentes 
de processos infecciosos do sistema circulatório, como nas endocardites bacte-
rianas (geralmente por Staphylococcus sp), produzindo êmbolos sépticos para 
o cérebro, artérias viscerais do abdômen e membros, os quais podem provocar 
quadros isquêmicos ou falso-aneurismas (Capítulos 8 e 9). Também em pacien-
tes imunodeprimidos não é raro o achado de lesões arteriais causadas por germes 
Gram negativos. A meningococcemia (e a gonococcemia) pode apresentar qua-
dro de vasculite cutânea expressiva, inclusive com a perda de extensas áreas de 
pele e mesmo amputação dos membros.
Algumas doenças hematológicas, como leucemias e linfomas, também po-
dem se manifestar como vasculites.
As doenças reumáticas, como a artrite reumatoide, o lúpus eritematoso 
sistêmico e a esclerose sistêmica (esclerodermia) são causa frequente de fenôme-
nos vasomotores (Síndrome de Raynaud19) e vasculites. Estas doenças devem 
sempre ser investigadas como diagnóstico diferencial nos pacientes com aco-
metimento vascular dos pequenos vasos das extremidades, principalmente no 
diagnóstico diferencial da tromboangeíte obliterante.
O fenômeno de Raynaud corresponde a uma alteração da coloração dos de-
dos das mãos com a exposição do membro ao frio. Geralmente acomete com maior 
intensidade um dedo de cada vez. O ciclo corresponde à palidez, seguida de ciano-
se, seguida de rubor e finalmente retorno à coloração rósea. Várias causas podem 
desencadear o fenômeno de Raynaud. Quando associado a uma doença de base é 
denominado Síndrome de Raynaud, e nestes casos o acometimento dos pequenos 
vasos pode levar à perda da polpa digital. Pela frequência do achado clínico, quando 
encontrado em homens jovens pensa-se em tromboangeíte obliterante, quando 
associado a mulheres de meia idade pensa-se em esclerose sistêmica. O tratamento do 
fenômeno de Raynaud baseia-se na proteção ao frio (tanto uso de luvas como manter 
o corpo agasalhado), suspender o uso de drogas vasoconstrictoras, abstenção do taba-
gismo, evitar trauma, uso de medicamentos vasodilatadores (bloqueadores de cálcio, 
bloqueadores de receptores α-adrenérgicos, simpaticolíticos, vasodilatadores diretos 
como as prostaglandinas e mais recentemente tem-se tentado o uso de cilostazol). 
Em casos extremos pode-se realizar bloqueio anestésico do membro ou mesmo a 
simpatectomia cirúrgica, que não tem resultado consistente em longo prazo.
19Maurice Raynaud, 
1834-1881. Clínico francês.
Moléstias Vasculares 39
Arterites João Potério Filho
Alguns sintomas comumente encontrados na prática diária são confundidos com o fenômeno de Raynaud. 
São eles: 1) o livedo reticular (cutis marmorata), que corresponde a áreas de pele com aspecto marmoráceo, onde 
o centro pálido é contornado por um halo cianótico, formando o aspecto de uma tela de arame, mais comu-
mente encontrado na face anterior da coxa e antebraços. O livedo normalmente não tem significado clínico, mas 
pode raramente estar associado a neoplasias ocultas, poliarterite nodosa, síndrome do anticorpo antifosfolípide 
e microembolização por aterosclerose. 2) a acrocianose corresponde à coloração azulada em pés e mãos, algumas 
vezes atingindo os segmentos mais distais da perna e braços. Corresponde a uma dilatação do plexo venoso com 
concomitante vasoconstricção arteriolar, desencadeados pelo frio. É mais comum em mulheres na faixa etária da 
adolescência e adulto jovem. Costuma melhorar com o passar dos anos e nas gestações. Acompanhando a colo-
ração, pode-se notar sudorese, esfriamento e leve edema, sendo sempre simétrico e acometendo mãos e pés. Não 
evolui para lesões tróficas e não tem relação com nenhuma