A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
24 pág.
A codificação sensorialf

Pré-visualização | Página 1 de 15

Percepção V
...um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha 
frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio 
recusei, mas não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um 
desses bolinhos pequenos e cheios chamados madaleines, e que parecem 
moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. Em breve, ma­
quinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais 
um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de 
chá onde deixara amolecer um pedaço do bolo. Mas, no mesmo instante em 
que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, 
estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me 
um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me 
tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, 
ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor,, enchendo-me de uma es­
sência preciosa; ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo.1
D
s a b o r d a MADELEINE mergulhada no chá é uma das evocações mais famosas da 
experiência sensorial na literatura. A descrição de Proust da natureza consciente 
da sensação e da memória fornece uma compreensão da natureza de alguns dos 
temas que serão estudados nos próximos capítulos. Sua descrição do formato das massi- 
nhas na bandeja, o calor do chá, os sabores mesclados do chá e da tortinha lembra que o 
conhecimento do mundo chega pelos sentidos.
A percepção inicia em células receptoras, sensíveis a um a ou a outro tipo de energia 
de estímulo. A maioria das sensações é identificada com determinado tipo de estímulo. * 
Assim, uma luz de comprimentos de onda curtos atingindo os olhos parece azul e o açú- ' 
car na língua tem sabor doce. A forma como os aspectos quantitativos de estímulos físi­
cos se correlacionam com as sensações que evocam é o tema da psicofísica. Informações 
adicionais acerca da percepção podem ser obtidas estudando-se os vários receptores sen­
soriais e os estímulos aos quais eles respondem, assim como as vias sensoriais que trans­
mitem informações desses receptores ao córtex cerebral. Células específicas no sistema 
sensorial, tanto receptores periféricos quanto neurônios centrais, codificam certos atribu­
tos críticos das sensações, como localização e intensidade. Outros atributos das sensações 
são representados pelo padrão de atividade em uma população de neurônios sensoriais. 
Sabe-se, por exemplo, que o sabor depende em grande parte da especificidade do recep­
tor. Em contrapartida, a diferenciação dos sons depende, em grande parte, da codificação 
do padrão. A determinação do grau em que a especificidade dos receptores e os padrões 
de atividade neural são utilizados nos diferentes sistemas sensoriais para codificar a in­
formação é uma das principais tarefas da pesquisa atual acerca da fisiologia sensorial.
Cada modalidade sensorial é mediada por um sistema neural distinto, com múlti­
plos componentes que contribuem para a percepção. As vias sensoriais incluem neurô­
nios que ligam os receptores na periferia com a medula espinal, o tronco encefálico, o 
tálamo e o córtex cerebral. A percepção de um toque na mão inicia quando mecanorre-
Proust, M. [1913] Em busca do tempo perdido. Volume 1: No Caminho de Swann. Edição traduzida para 
o português por Mario Quintana. Porto Alegre: Editora Globo, 1948, p. 45.
ceptores cutâneos estimulam uma população de fibras aferentes a dispararem potenciais 
de ação, estabelecendo, assim, uma resposta que se propaga nos núcleos da coluna dorsal 
e, então, no tálamo. Do tálamo, a informação sensorial flui a diversas áreas do córtex 
cerebral, cada uma das quais analisa determinados aspectos do estímulo original. Essa 
representação cortical está bastante correlacionada com a percepção consciente humana. 
Por exemplo, uma. ilusão de sensação na mão, embora ligeiramente embotada, pode ser 
determinada pela estimulação elétrica da área cortical que representa a mão.
Nesta parte do livro, são examinados os princípios essenciais para a compreensão de 
como ocorre a percepção no encéfalo. Ao contrário do entendimento intuitivo, com base na 
experiência pessoal, as percepções não são cópias diretas do mundo que cerca o indivíduo. 
A informação disponível aos sistemas sensoriais a um dado instante no tempo é imperfeita 
e incompleta. Assim, os sistemas de percepção não são construídos como instrumentos físi­
cos para tomar medidas, mas são construídos para realizar inferências acerca do mundo. Os 
dados sensoriais não devem ser vistos como respostas prontas, mas como dicas fornecidas.
No encéfalo, por exemplo, é onde ocorre a visão; é o encéfalo que descobre o que 
significam as dicas percebidas. Assim, a percepção visual é uma criação do encéfalo. Ela 
tem como base os sinais de entrada extraídos da imagem sobre a retina. No entanto, aqui- 
Mo que é visto com "o olho da mente" vai muito além do que está presente nos sinais de 
entrada. O encéfalo utiliza a informação que extraiu previamente como base para conjec­
turas fundamentadas em dados - inferências da percepção acerca do estado do mundo.
Os sistemas sensoriais contêm muitas representações, cada uma especializada em 
diferentes tipos de processamento da informação sensorial. Ao longo de cada sistema 
sensorial, dos receptores periféricos ao córtex cerebral, a informação acerca dos estímulos 
físicos é transformada em estágios, de acordo com regras computacionais que refletem as 
propriedades funcionais dos neurônios e suas interconexões em cada estágio.
O sistema visual, por exemplo, transforma a energia do estímulo que alcança os re­
ceptores na retina em um código neural de potenciais de ação, como os pontos e os traços 
de um código Morse. O encéfalo soluciona o problema dessa computação realizando 
operações relativamente simples em paralelo, em um grande número de neurônios, e 
repetindo essas operações em múltiplos estágios hierárquicos. O grande mistério da vi­
são é como se responde a trens de potenciais de ação em diferentes neurônios do sistema 
visual vendo uma imagem - como uma face.
Um dos principais objetivos das neurociências cognitivas é a determinação de como a 
informação que alcança o córtex cerebral através de vias aferentes paralelas é unida para 
formar uma percepção consciente única. De fato, uma das esperanças que impulsionam 
as neurociências cognitivas é que o progresso na compreensão desse problema propicie 
os primeiros vislumbres acerca da base biológica da atenção e, por fim, da consciência.
Parte V
Capítulo 21 A codificação sensorial
Capítulo 22 O sistema somatossensorial: receptores e vias centrais 
Capítulo 23 O tato
Capítulo 24 Dor
Capítulo 25 A natureza construtiva do processamento visual
Capítulo 26 Processamento visual de nível inferior: a retina
Capítulo 27 Processamento visual de nível intermediário e primitivos visuais
Capítulo 28 Processamento visual de nível superior: influências cognitivas
Capítulo 29 Processamento visual e ação
Capítulo 30 A orelha interna
Capítulo 31 Sistema nervoso central auditivo
Capítulo 32 Olfato e gustação: os sentidos químicos
21
A codificação sensorial
, ( k o física relaciona as propriedades físicas dos estímulos 
mi! as sensações
As leis da psicofísica governam a percepção da 
intensidade do estímulo
As medidas psicofísicas da magnitude das sensações 
empregam protocolos padronizados
As sensações são quantificadas utilizando-se estatística 
de probabilidades
Os tempos para decisão se correlacionam com os 
processos cognitivos
•s estím ulos físicos são representados no sistem a nervoso 
>. undo do codigo sensorial
Os receptores sensoriais respondem a um único tipo de 
energia do estímulo
Múltiplas subclasses de receptores sensoriais são 
encontradas em cada órgão dos sentidos 
Padrões neurais de disparo