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ALICE NO PAÍS DO INCONSCIENTE: UMA ANÁLISE NO ENTREMEIO DA PSICANÁLISE COM A LITERATURA INFANTIL

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ALICE NO PAÍS DO INCONSCIENTE: UMA ANÁLISE NO ENTREMEIO DA 
PSICANÁLISE COM A LITERATURA INFANTIL 
 
Maurício Eugênio MALISKA1 
Renata Corbetta TAVARES2 
 
 
RESUMO: O presente trabalho busca analisar os aspectos através dos quais a narrativa da obra Alice no País 
das Maravilhas permite a relação com o conceito psicanalítico de inconsciente. Para tanto, foi feita uma leitura 
prévia da obra Alice no País das Maravilhas com o intuito de correlacionar pontos de aproximação entre essa 
obra literária e a teoria psicanalítica. Foram utilizados como referenciais teóricos os textos de Freud que 
discorrem sobre o Inconsciente [1914 – 1916], a Interpretação dos Sonhos [1900] e o conceito de Estranho 
[1919]. As considerações, a partir da análise, apontam que o sonho de Alice e a entrada no País das 
Maravilhas podem ser representativos do inconsciente, uma vez que aquilo que se passa no sonho de Alice é 
correlativo às características inconscientes como atemporalidade, atos e criaturas bizarras, alusão ao absurdo, 
um sentido único para o sonhador e, por fim, uma sensação de estranhamento naquilo que há de familiar, a 
saber, as suas próprias fantasias. A trajetória de Alice através do País das Maravilhas ilustra muito bem a 
dinâmica analítica em geral bem como a interpretação dos sonhos pela psicanálise. As buscas realizadas por 
Alice ao longo do caminho percorrido pelo inconsciente (País das Maravilhas) correspondem ao contato que a 
heroína estabelece com diferentes aspectos constituintes do seu sonho: diferentes personagens e situações 
vivenciadas. Cada momento vivido por Alice dentro do País das Maravilhas parece servir como “pista” para 
norteá-la no sentido de retorno ao mundo consciente. Desse modo, considera-se que o País das Maravilhas é 
uma representação significativa daquilo que se passa no inconsciente freudiano, o que permite compreender o 
fascínio exercido pela obra sobre leitores de todas as idades ao longo de aproximadamente 140 anos. 
 
PALAVRAS-CHAVE: Alice no país das maravilhas. Inconsciente. Psicanálise. Literatura infantil. 
 
 
1. Introdução 
 
Alice no País das Maravilhas é uma obra clássica da literatura infantil ocidental, 
escrita por Lewis Carroll em 1865, ela narra a história de uma menina que, durante um sonho, 
explora um fantástico mundo onde vivem criaturas excêntricas. O sonho de Alice é 
compartilhado por leitores de todas as idades há 146 anos. Desde 1903 a história teve 
inúmeras adaptações para a televisão e o cinema sendo o homônimo filme animado da Walt 
Disney a versão mais conhecida. 
Tendo a teoria psicanalítica como enfoque e perspectiva de análise, pode ser 
formulada uma hipótese para compreensão da atemporalidade observada na história de Alice, 
atemporalidade por ser uma obra que atravessa o tempo, tangencia o cronos e segue 
imortalizada. Como é sabido, a Psicanálise tem como objeto o inconsciente, que é definido 
como a representação da qual aceitamos a existência mediante indícios de seus efeitos sem, no 
entanto, tomar contato direto com o conteúdo de tal representação. (FREUD, [1914-
196]1996). Dessa forma, seria possível conceber que os aspectos presentes na obra de Carroll 
não correspondem diretamente às situações inusitadas e aos personagens fantásticos visto que 
muitas fábulas e contos de fadas contam com tais aspectos, mas ao apelo que tais alegorias 
exercem sobre uma realidade que pouco acessamos conscientemente, ou seja, a realidade 
inconsciente. O próprio Freud dispõe que o inconsciente constitui um ponto de partida comum 
aos processos psíquicos, que podem ou não ter acesso à consciência através de ações e outras 
formas de manifestação como: atos falhos, chistes, sonhos, sintomas (FREUD, [1914-
 
1
 Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem (UNISUL). 
2
 Aluna do Curso de Graduação em Psicologia e bolsista PUIC (UNISUL). 
 
 2 
1916]1996). Nesse sentido, é possível verificar uma relação entre o fascínio exercido pelo 
conto Alice no País das Maravilhas e traços que restam latentes no inconsciente. 
 Na história de Alice, há ainda um outro aspecto que permite relação com a noção de 
inconsciente psicanalítico: o sonho. A teoria psicanalítica identifica o sonho como uma forma 
de manifestação do conteúdo inconsciente. Freud ([1900]1996) assinala que a origem dos 
conteúdos observados em sonho normalmente remonta a lembranças e experiências vividas na 
infância o que indica que, em certa medida, todos possuem mais ou menos algumas 
experiências em comum a ser representadas através de sonhos. 
Sendo assim, o presente texto visa responder à seguinte questão: Quais as possíveis 
relações entre o conceito psicanalítico de inconsciente e a obra Alice no País das Maravilhas? 
Diante dessa pergunta de pesquisa, delineou-se como objetivo geral, analisar sob que 
aspectos o conceito psicanalítico de inconsciente pode estar presente na obra Alice no País 
das Maravilhas. Como objetivos específicos de pesquisa, foram estabelecidos os seguintes: a) 
Definir, de acordo com a teoria psicanalítica, o conceito de inconsciente; b) Identificar 
elementos presentes na obra Alice no País das Maravilhas que possam estar relacionados ao 
conceito de inconsciente; c) Estabelecer possíveis relações entre o conceito de inconsciente e 
a obra Alice no País das Maravilhas. 
 
2. Fundamentação teórica 
 
O inconsciente consiste no objeto de conhecimento e atuação da psicanálise. Segundo 
Freud, a noção de inconsciente faz-se necessária para compreender os processos psíquicos na 
medida em que durante a vida consciente encontramos “grandes lacunas” que a própria 
consciência se exime de explicar. 
 Para melhor compreensão do construto correspondente ao inconsciente (Ics.), na teoria 
freudiana, faz-se necessário um esboço das instâncias do aparelho psíquico. O ato psíquico, 
em sua dinâmica, segue um curso que pode ocorrer em ambos os sentidos, entre inconsciente 
e consciente (Cs.). Dessa forma, podemos considerar que um ato psíquico que se origina do 
Ics. tem como destino final o Cs. Contudo, a movimentação dos atos psíquicos não ocorre 
livremente. Entre estas estruturas conceituais existem forças que atuam no sentido de reter os 
atos psíquicos numa dimensão onde a consciência lhes escapa (no Ics.). Dessa forma, ocorre 
que ao partir do Ics. o ato psíquico passa por uma censura inicial que tem como função filtrar 
e selecionar os conteúdos inconscientes que serão permitidos passar para a consciência. A este 
filtro chamamos repressão. 
 A repressão consiste então na barreira que deverá ser ultrapassada pelos atos psíquicos 
oriundos do Ics. para que os mesmos cheguem ao Cs. Ela pode ser compreendida como a 
força (anticatexia) exercida no sentido de bloquear o acesso de atos psíquicos ao Cs. 
Entretanto, não basta que os atos psíquicos consigam ultrapassar esta barreira da 
repressão para que sejam acessíveis à consciência. A partir do momento em que se deslocam 
para além da repressão podemos dizer que esses atos tornam-se passíveis de vir à consciência 
e, portanto, não são ainda necessariamente conscientes. 
Ao romper com o bloqueio exercido por esta segunda repressão, o conteúdo que se 
encontrava ‘latente’ no Pcs. adquire força suficiente para vir à consciência (Cs.) propriamente 
dita. 
Este processo pode ocorrer nos dois sentidos, visto que os atos psíquicos presentes no 
Ics. percorrem este trajeto até a chegada ao Cs., e os fatores externos percebidos pelo 
indivíduo chegam através do Cs. instalando-se por fim no Ics. Contudo, este processo através 
 
 3 
do qual os estímulos externos são percebidos pelo Cs. sendo posteriormente registrados no 
Ics. não conta com barreiras da repressão. 
Para melhor compreender a dinâmica que ocorre nos processos psíquicos é importante 
que seja destacado como se organiza o