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A INSERÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA SAÚDE: desafios atuais.

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A INSERÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA SAÚDE: desafios atuais. 
 
 
Danielle de Oliveira Nogueira
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Fernanda de Oliveira Sarreta
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RESUMO: O objetivo deste artigo é refletir a inserção do serviço social no contexto da 
Saúde a partir da perspectiva histórico-crítica e discutir os limites e desafios atuais da prática 
profissional nos espaços de Saúde. A tensão existente entre o projeto privatista e o projeto de 
reforma sanitária na área da saúde reflete a emergência de estratégias que busquem o 
fortalecimento dos princípios garantidos pelo SUS, o que demonstra a importância da 
discussão deste tema. 
 
 
PALAVRAS-CHAVE: Política de Saúde; Serviço Social; Reforma Sanitária; Projeto Ético-
Político. 
 
 
 
 
 
 
 
 
1 Estudante do Programa de Pós-Graduação do Mestrado em Serviço Social, FCHS, UNESP – 
Campus de Franca/SP. Membro e Pesquisadora do Grupo Quavisss. 
 
 
2 Professora do Departamento de Serviço Social da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, 
UNESP – Campus de Franca/SP. Líder do Grupo Quavisss – Grupo de Estudos e Pesquisas 
sobre Saúde, Qualidade de Vida e Relações de Trabalho. 
 
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Introdução 
 
O Serviço Social enquanto profissão surge vinculado ao agravamento das mazelas 
sociais, assumindo a função de executor das ações socais destinadas à população pauperizada, 
que tinham por objetivo amenizar os conflitos entre a classe proletária e a burguesia. Sabe-se, 
portanto, que desde sua origem o Serviço Social encontra-se em meio ao antagonismo dos 
interesses entre as duas classes sociais fundamentais. 
A partir da década de 1960 iniciou-se na categoria o movimento de reconceituação que 
buscou a ruptura com a prática do Serviço Social tradicional, e teve como resultado a 
definição da direção política e ideológica da profissão, calcada no compromisso com a defesa 
de direitos da classe trabalhadora com vistas à construção de uma nova ordem societária. Tais 
preceitos foram incorporados ao Código de Ética Profissional em 1993. 
Na mesma época em que o Serviço Social passava por este processo de renovação e 
amadurecimento teórico, o Brasil encontrava-se em um momento de grande efervescência 
política pelo fim da ditadura militar e concomitante a redemocratização do país, destaca-se a 
força do movimento de reforma sanitária, que lutou pela universalização do acesso a saúde, 
compreendo que este era direito de todos e um dever do estado. 
O Serviço Social recebia as influencias dessa conjuntura de luta política, contudo a 
preocupação central da categoria nesse momento era a disputa pela nova direção a ser dada a 
profissão, por esse motivo não foi identificada uma participação diretamente ligada ao 
movimento pela reforma sanitária (BRAVO; MATOS, 2009, p. 204). 
Na década de 1980 o Serviço Social aproxima-se da tradição marxista, principalmente 
no âmbito da Universidade, e a atuação e intervenção permanecem até a década de 1990 com 
reflexos incipientes desse amadurecimento teórico-crítico, constatados pela desarticulação da 
categoria com Movimento da Reforma Sanitária e pouca produção em relação à demanda do 
Serviço Social no âmbito da Saúde (CFESS, 2010). 
A luta da sociedade pela garantia de direitos teve como desfecho a conquista da 
Constituição de 1988 (BRASIL, 1988), considerada um grande avanço, pois instaura direitos 
sociais e inaugura a Seguridade Social no Brasil, contemplando políticas universais, sendo 
composta através do tripé: Saúde, que se caracterizou enquanto política universal, não 
contributiva, representada pela criação do Sistema Único de Saúde (SUS); Previdência Social 
considerada uma política restrita aos trabalhadores contribuintes; e Assistência Social, 
destinada a quem dela necessitar, objetivando garantir segurança de sobrevivência e 
autonomia da população. 
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Muitos foram os avanços no âmbito da política de saúde, a pauta das reinvindicações 
do movimento sanitário foi contemplada constitucionalmente, podem-se elencar como 
principais conquistas: 
 
- O direito universal à Saúde e o dever do Estado, acabando com a discriminação 
existente entre segurado/não segurado, rural/urbano; 
- As ações e Serviços de Saúde passaram a ser consideradas de relevância pública, 
cabendo ao poder público sua regulamentação, fiscalização e controle; 
- Constituição do Sistema Único de Saúde integrando todos os serviços públicos em 
uma rede hierarquizada, regionalizada, descentralizada e de atendimento integral, 
com participação da comunidade; 
- A participação do setor privado no sistema de saúde deverá ser complementar, 
preferencialmente com as entidades filantrópicas, sendo vedada a destinação de 
recursos públicos para subvenção às instituições com fins lucrativos. Os contratos 
com entidades provadas prestadoras de serviços far-se-ão mediante contrato de 
direito público, garantindo ao Estado o poder de intervir nas entidades que não 
estiverem seguindo os termos contratuais; 
- Proibição da comercialização de sangue e seus derivados (TEIXEIRA, 1989, p. 50-
51). 
 
Apesar da legislação referente ao SUS ter sido aprovada em 1988, somente em1990 
foi promulgada a Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080 de 1990) que “dispõe sobre as 
condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o 
funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências” (BRASIL, 1990, p. 1). 
Rompe-se, através da universalidade, o acesso privilegiado à saúde que passa a ser 
compreendida enquanto direito, o que viabiliza o alcance da igualdade. Por meio da equidade 
assegura-se o acesso a saúde a todo cidadão, independentemente de qualquer classificação, 
social, cultural, étnica ou religiosa. E, através da integralidade, reconhece-se a totalidade de 
cada indivíduo, e prevê que a saúde seja tratada em todos os níveis de atenção¹
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, sem 
priorização da hospitalização pela alta complexidade. 
Contudo, no contexto internacional, assistia-se a retração das conquistas sociais, 
devido a disseminação do neoliberalismo, que chega ao Brasil com a implantação de medidas 
de corte da proteção social recentemente conquistada. 
A efetivação dos avanços alçados pela Constituição Federal de 1988 é interrompida 
pela implantação do ideário Neoliberal no Brasil nos anos 1990. Neste período o Brasil 
enfrenta a crise da estagflação
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, o contexto é também de grandes mudanças no mundo do 
 
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O SUS ordena o cuidado com a saúde em níveis de atenção, que são de básica, média e alta complexidade. Essa 
estruturação visa à melhor programação e planejamento das ações e dos serviços do sistema de saúde. Não se 
deve, porém, desconsiderar algum desses níveis de atenção, porque a atenção à saúde deve ser integral 
(BRASIL, 2004, p. 29). 
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 Segundo Bresser-Pereira, em matéria divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo (30 de junho de 2008), a 
estagflação é a inflação combinado com recessão ou crescimento muito baixo. 
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trabalho que o torna cada vez mais precário e flexibilizado, além do forte desemprego 
estrutural. 
Em 1989 o Consenso de Washington impõe uma série de medidas direcionadas aos 
países latino-americanos, para saírem da crise. A partir desse momento é implantado no 
Brasil, através do governo de Fernando Collor de Mello, o receituário neoliberal, associado ao 
discurso de modernizar o país, neste momento, estabelece nos país medidas de disciplina 
fiscal, responsabiliza o Estado pelo controle da dívida pública e a geração de superávit 
primário, assim como, o socorro aos bancos e aos setores produtivos quando estes se 
encontrarem em crise e privatização