ESTEVES, Joao Pissara - Comunicacao e Sociedade
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ESTEVES, Joao Pissara - Comunicacao e Sociedade


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em relação aos fenôm enos do m undo 
social, os actores sociais aceitam os fenôm enos com o dados adquiridos. Por 
exem plo, apesar de um leitor de jornal poder duvidar da veracidade de uma 
n otícia esp ecífica , ele ou ela não põem em causa a própria existência das notí­
cias com o fenôm eno social. O leitor pode contestar o ponto de vista de um a 
h istó ria esp ec ífica , de um dado jorn al ou de um determ inado n oticiário 
televisivo, mas os jornais, as transm issões de radiodifusão e as próprias n o tíc i­
as surgem com o dados objectivos. Schü tz dá o nom e de «atitude natural» ao 
estilo cognitivo que aceita a existência objectiva dos fenôm enos sociais. Esse 
term o p ressu p õe que todos nós dam os com o adquirida a ex is tê n cia dos 
fenôm enos sociais, vêm o-los com o dados, com o estando «naturalm ente» ali. 
Mas Sch ü tz nu n ca afirm a que esses fenôm enos dados são eles próprios «natu­
rais». Em «On M ultiple Realities», a sua preocupação não é em relação aos 
fenôm enos do m undo, mas com a atitude que os actores sociais assum em para 
abordar o m undo5.
Ao u tilizar o term o «atitude natural», Schütz considera que quaisquer que 
sejam os conteúdos culturais, estruturais ou pessoais da vida do indivíduo, 
todos os indivíduos com petentes experienciam estilos cognitivos sem elhantes 
quando lidam com a realidade social. Isto é, um sam oano, um ucraniano ou 
um am ericano, apesar dos seus antecedentes diferentes, podem experienciar 
estilos cognitivos sem elhantes. Os indivíduos aceitam o seu m undo (quais­
quer que sejam os seus conteúdos) com o «natural», aceitam as coisas tal com o 
são. Im aginem os duas pessoas que leiam a m esm a n otícia de jornal. Um a delas 
situa-se p oliticam ente ao centro; a outra é um revolucionário. O revolucioná­
rio pode duvidar que a ocorrência relatada no jornal tenha acontecido da for­
m a com o a n o tíc ia a descreve. M as não duvida da ex istên cia da própria 
ocorrência. A liás, por exem plo, na tentativa de prever o efeito daquela notícia 
nos seus leitores ou de com preender com o é que ela pode in fluenciar a ten ta­
tiva de lançar um novo programa político, o revolucionário pode até dar m ais 
atenção à «notícia do que aquele que é politicam ente conservador»6. Na obra 
de Schütz, o conceito do m undo quotidiano é quase tautológico: o m undo 
quotidiano é constituído pelo próprio facto de ser dado com o pressuposto. 
Lançar a dúvida leva-nos de um a das realidades m últiplas ou subuniversos 
para outra. Por exem plo, ao lançar a dúvida, podem os entrar no m undo da
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ciên cia , no qual os indivíduos põem em dúvida (entre parênteses) a existência 
dos fenôm enos com o objectivo de os estudar.
Mas Schü tz não define a atitude natural de forma tautológica. Pelo contrá­
rio, propõe seis «características clássicas que constituem o estilo cognitivo 
específico» do m undo quotidiano e que o diferenciam de outras «províncias 
fin itas da significação» (outras realidades m últip las)7. Para os m eus objectivos, 
há duas tensões interessantes nesta lista de características apresentada por 
Schütz. Em prim eiro lugar, enfatiza a característica de se dar com o pressupos­
tos os elem entos básicos da vida social, tais com o o tem po e a in tersubjecti- 
vidade (tomar o papel do outro), enquanto socialm ente adquiridos. Em segundo 
lugar, Sch ü tz defende que, na atitude natural, os actores sociais «trabalham » 
activam ente, no sentido em que assum em um a posição activa de perfeita vigí­
lia perante o m undo, através da qual apreendem e criam significações. Assim , 
por exem plo, ao ler um jornal o actor tom a com o certo que as notícias existem 
e que as histórias são «notícias de actualidade». O leitor ou a leitora apreen­
dem as histórias num quadro tem poral claram ente delineado que é socialm en­
te definido em term os de intersecção da experiência hum ana com o m ovim ento 
da lua e dos planetas. No m undo dos sonhos, o tem po está ausente, em expan­
são ou em suspenso; perde a sua referência social.
Os leitores de notícias tam bém trabalham para encontrar sentido nas m an­
chas de tin ta im pressas na página. Percebem palavras e frases, factos e in ter­
pretações. A preendem activam ente e atribuem significados a essas m anchas, 
tal com o apreendem activam ente sons articulados com o declarações e lingua­
gem. De form a sem elhante (Tuchm an, 1978: 15-38) os jornalistas trabalham 
para apreender e atribuir significado quando identificam certos tópicos, e não 
outros, como notícias. Através deste trabalho, segundo Schütz, os actores sociais 
criam significações e, ao m esm o tem po, um sentido colectivo partilhado da 
ordem social. A ordem social depende da partilha de significações.
A noção de atitude natural de Schü tz serviu com o ponto de partida para 
vários autores da sociologia interpretativa, todos eles afirm ando que os h o­
m ens e as m ulheres se em penham na criação de significações sociais. As teo­
rias que derivam da abordagem de Schütz aplicam -se à produção n oticiosa e 
às notícias enquanto fenôm enos sociais, da m esm a form a que se aplicam à 
apreensão de sons articulados com o enunciações com sentido.
Considerem os de seguida os conceitos de «reflexividade» e «indexicalidade» 
desenvolvidos pelos etnom etodólogos.
AS NOTÍCIAS COMO ACTIVIDADE REFLEXIVA E INDEXICAL
Sob a d irecção de Garfinkel (1967) e Cicourel (1 9 6 4 ,1 9 7 3 ) , os etnom etodó­
logos exam inam com o as pessoas constroem o sentido do m undo quotidiano 
quando assum em a atitude natural8. («Etnometodologia», foi um term o estabe­
lecido por um dos d iscípulos de Garfinkel, que significa o estudo dos m étodos 
das pessoas.) Os etnom etodólogos não estão interessados nas categorias que as 
pessoas utilizam para darem sentido ao m undo; por exem plo, não consideram
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os estereótipos que um grupo pode aplicar a outro. Estudam sim o trabalho diário 
de criação de categorias (ou, utilizando os seus próprios termos, a «produção» de 
categorias); por exemplo, com o os significados estereotípicos são atribuídos aos 
actos de outras pessoas, com o na estereotipização dos mem bros in iciais do m o­
vim ento fem inista (Tuchman, 1978: 133-155), na identificação de certos m em ­
bros de m ovim entos sociais com o «líderes responsáveis» [Ibid.: 82-103), ou na 
rejeição do estereótipo de que todos os presidentes são desonestos [Ibidem).
Os etnom etodólogos propõem, especificam ente: tal com o a atitude natural 
existe em todas as sociedades e culturas, há tam bém características ou m éto­
dos invariantes da atitude natural que as pessoas utilizam para darem sentido 
ao m undo quotidiano. Tais características não têm um conteúdo específico, 
m as podem ser invocadas para darem sentido a um a variedade de conteúdos. 
Essas características da atitude natural identificadas pelos etnom etodólogos 
esp ecificam com o é que as pessoas funcionam num estado de plena vigília 
para apreenderem e criarem significações.
«Reflexividade» e «indexicalidade» são duas características invariáveis 
identificadas pelos etnom etodólogos. Estes conceitos gêmeos (indexicalidade 
im plica reflexividade e vice-versa) podem ser utilizados para descrever com o 
é que as pessoas conferem sentido às expressões um as das outras em conver­
sações partilhadas; com o é que as pessoas dão sentido às notícias com o regis­
tos do m undo quotidiano; com o os repórteres dão sentido aos acontecim entos; 
ou com o é que as pessoas extrapolam a partir de cada tópico esp ecífico uma 
caracterização do m undo quotidiano.
Tanto a reflexividade com o a indexicalidade referem-se à inserção contextual 
dos fenôm enos. A reflexividade especifica que os relatos dos acontecim entos 
estão inseridos na m esm a realidade que
Cristina
Cristina fez um comentário
Obrigada Monique! Ajudou muito o meu trabalho
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