ESTEVES, Joao Pissara - Comunicacao e Sociedade
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ESTEVES, Joao Pissara - Comunicacao e Sociedade


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valores da sociedade de consum o - com as escolhas de consum o 
consideradas com o o ne plus ultra da liberdade - não pode ser atribuído à 
M acfadden. M as seria ingênuo afirm ar que o patrocínio deste estudo nada 
teve a ver com o seu m odelo teórico, e tam bém com as suas falhas.
Q uer tenha sido su bscrita pela M acfadden ou pela M cC ann-Erikson, pela 
U niversidade de Colum bia ou pelo Columbia Broadcasting System, a orienta­
ção com ercial considera o quadro consum ista com o certo, as questões co loca­
das surgem nesse âm bito, sobre «como» se processam os fenôm enos nesse 
enquadram ento, deixando de lado, sistem aticam ente, outras questões. A orien­
tação com ercial está interessada em questionar com o os m eios de com u nica­
ção de m assa podem aum entar o seu alcance, e com o a vida social quotidiana 
levanta obstáculos à extensão do poder dos m eios de com unicação. Não está 
interessada de modo nenhum em saber se a extensão dos m eios de com u nica­
ção de m assa é um bem social, e em que circunstâncias. Não está interessada 
nas conseqü ências estruturais e culturais dos diferentes m odelos de proprie­
dade dos m eios de com unicação. Não está interessada na construção de um a 
visão global das técn icas dos m eios de com unicação, nem nos precursores 
históricos destes m esm os m eios (à excepção apenas dos casos polêm icos). 
E não avalia com o problem ática a própria cultura de consum o. A orientação 
com ercial não concebe um discurso político vivido que pode ser afectado, para 
m elhor ou para pior, pelas representações da política produzidas pelos m eios 
de com u nicação. Q uestões deste tipo não são «práticas» para as institu ições 
que definem o que é prático, e assim , com o M erton conclu iu , «as categorias de 
pesquisa [das com u nicações de m assa] têm sido moldadas, até há pouco tem ­
po, não tanto pelas necessidades da teoria social ou da psicologia, mas pelas 
necessidades práticas dos grupos e agências que criaram a procura da pesqui­
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sa de audiências. Sob pressão directa do m ercado e das necessidades m ilita­
res, técn icas de pesquisa precisas são desenvolvidas, com portando desde o 
in ício as m arcas da sua origem ; fortem ente condicionadas pelos usos práticos 
a que desde o princíp io são subm etidas» (Merton, 1968: 505-506).
M as, então, qual a alternativa para a pesquisa dos m eios de com u nicação 
socia l? Será a cr ítica algo necessariam ente abstracto, um desejo retrosp ec­
tivo em nom e de um ideal inconcretizável, p latônico , da pesquisa social? 
A cr ítica enfrenta sem pre esta questão, quando é incapaz de apontar um a 
alternativa efectiva, e quando os principais in terven ientes preferem um a de­
term inada via em detrim ento de outras. N este caso, no entanto , um a a ltern a­
tiva con cep tu al fo i de facto avançada. A sua sorte e os seus lim ites dizem -nos 
algo sobre a força da orientação com ercial. Como um a esp écie de luz lateral 
na h istória recen te da pesquisa social, lan ça sobre a m esm a um a som bra 
distin ta.
Como Katz e Lazarsfeld referem nos seus Agradecim entos, o cam po de pes­
quisa em Decatur, Illinois, foi organizado, nada m ais, nada m enos, que por 
C. W right M ills, então ligado ao Bureau o f Applied Social Research da U niver­
sidade de Colum bia. F icarem os a saber m ais sobre o modo com o M ills encetou 
um a ruptura rad ical com a ortodoxia m etodológica, quando o historiador 
R ichard G illam publicar a biografia que tem em preparação sobre este autor; 
por agora, será su ficien te referir que foi o jovem e am bicioso M ills quem se 
deslocou para D ecatur para coordenar as duas vagas de entrevistas, em Junho 
e Agosto de 1945. Em m eados de 1946, M ills tinha delineado, para debate, 
um a análise dos dados. Neste longo docum ento inédito, de acordo com Richard 
G illam , que procedeu ao seu estudo nos arquivos da U niversidade de Texas, 
M ills escreveu «não só acerca da \u201cin flu ência\u201d e da \u201copinião\u201d, m as tam bém , de 
form a arro jad a , a ce rca da \u201cid e o lo g ia \u201d... e re la c io n a -a com a estru tu ra 
in stitu cion al e de classes. M ills encontra algumas com provações da in flu ência 
horizontal, de acordo com a teoria do fluxo de com unicação em dois níveis, 
m as d iscute tam bém a im portância da in fluência vertical ou \u201cpiram idal\u201d, es­
pecialm ente no dom ínio da política». M ills especulou quanto à posição dos 
Estados U nidos, a m eio cam inho entre os m odelos extrem os de um a «pura 
sociedade dem ocrática» e um a «sociedade autoritária de m assa» (Gillam, 1972: 
302-303). Segundo Gillam , este docum ento de M ills é, de facto, não só um 
docum ento vago, mas tam bém profundam ente m arcado por um a divisão de 
fidelidades; M ills estava mergulhado nos particularism os da análise positivista, 
ao m esm o tem po que pretendia continuar a dem onstrar algum a devoção a 
um a esp écie de radicalism o populista33. Mas a sua proposta para o tratam ento 
dos dados do estudo de D ecatur estabelecia um enquadram ento m uito d ife­
rente. Propôs um a releitura dos dados sociom étricos sobre as atitudes p o líti­
cas com o ob jectivo de inferir a estrutura do processo de decisão neste cam po; 
e propôs a constitu ição de um a teoria da com unicação política com o base para 
um a teoria da ideologia social am ericana. Como M ills cuidadosam ente expri­
m iu no artigo que apresentou ao encontro da American Association for the 
Advancement o f Science, em 29 de D ezem bro de 1946, em Boston, a «cadeia de 
liderança p olítica é definitivam ente um processo vertical»34.
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Lazarsfeld, apesar de não ter desafiado o trabalho de M ills, quanto à reco ­
lha e apresentação de dados, ficou obviam ente preocupado com o a lcance e o 
tom populista da sua retórica, no «tratam ento e interpretação da inform ação já 
reunida»; e, consequentem ente, decidiu retirar a M ills a análise dos dados de 
D ecatur (Gillam , 1972 : 304). Mas estranham ente, em 1950, M ills ainda a li­
m entava esperanças de ser incluído com o co-autor do estudo de D ecatur [Ibid.: 
307n). N esse m esm o ano escreveu um artigo em que apoiava a perspectiva de 
Lazarsfeld (M ills, 1963 : 577-598). N esse trabalho, publicado num a edição do 
D epartam ento de Estado dirigida a um a audiência russa, defendeu, com vee­
m ência, a perspectiva pluralista que viria depois a repudiar, frontalm ente, em 
The Power Elite, publicado em 1956.
Mas a alternativa apresentada por M ills em 1946 não com preendia ainda, 
ou fingia não ter com preendido, que a A m érica do pós-guerra estava já a des­
locar-se na direcção de um a nova form a de capitalism o corporativista de alta 
tecnologia, com um a cultura política baseada no consum o, em que o consenso 
do bipartidarism o iria prevalecer e a oposição de classes seria destroçada e 
desviada, para - durante algum tem po - se extinguir. Talvez o fracasso de M ills 
se tenha ficado a dever à sua filiação no Bureau o f Applied Social Research de 
Lazarsfeld, ou às suas ilusões hesitantes com o m ovim ento dos trabalhadores 
am ericano; talvez tenham existido tam bém outras razões. De qualquer forma, 
a em ergência da sociedade de alto consum o não tinha ainda sido com preendi­
da com o nova condição - o que só viria a acontecer com M ills em The Power 
Elite. O que é um a outra form a de dizer que, só com raras excepções nas m ar­
gens da sociologia am ericana35, a orientação com ercial de Lazarsfeld era, no 
m om ento, incontestada e hegem ônica. O m om ento acabou por se prolongar a 
um a era da sociologia; a orientação e os paradigm as correspondentes estabele­
ceram -se então com o opinião sociológica comum.
U m a alternativa m ais radical, em term os teóricos e práticos, poderia ter 
com eçado, e prosseguido, destacando os benefícios
Cristina
Cristina fez um comentário
Obrigada Monique! Ajudou muito o meu trabalho
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