Aparelho Locomotor
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os ganhos obtidos na força isométrica máxima em 
sujeitos que treinaram com contrações voluntárias máximas imaginadas. 
 Na primeira parte deste capítulo serão identifi cados e caracterizados três tipos 
de adaptações neurais: adaptações nos processos de coordenação intramuscular, 
adaptações nos processos de coordenação intermuscular e adaptações nos mecanis-
mos refl exos de controlo do movimento. 
 Como foi abordado no segundo capítulo, a eletromiografi a (EMG) é uma téc-
nica de registo da atividade elétrica do músculo intimamente associada ao estudo da 
função neuromuscular. A intensidade do sinal EMG de superfície refl ete a quantidade 
de estimulação que o SNC fornece ao músculo, proporcionando um indicador impor-
tante para avaliar as adaptações neurais ao treino de força. Na segunda parte des-
te capítulo serão abordados e explicados contributos da investigação realizada com 
EMG para o estudo aprofundado das adaptações neurais nos seus diferentes níveis.
Adaptações na Coordenação Intramuscular
 Quando um sujeito previamente sedentário inicia um programa de treino de for-
ça, nos dois meses iniciais de treino o aumento de força deve-se essencialmente a um 
aumento na capacidade de o SNC ativar o músculo. Essas adaptações neurais ocor-
rem antes de se verifi car alteração signifi cativa do volume do músculo. As adaptações 
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cilitation \u2013 PNF). Estas técnicas, utilizadas no âmbito do treino de fl exibilidade mais 
avançado, baseiam-se em estratégias de estimulação dos recetores propriocetivos 
que visam desencadear os efeitos refl exos promotores de maior relaxamento e, logo, 
de maior alongamento do músculo. 
Exemplos de Facilitação Neuromuscular Propriocetiva
As duas técnicas mais utilizadas no âmbito dos métodos PNF baseiam-se na 
inibição autogénica e na inervação recíproca. Na técnica que se baseia na 
inibição autogénica (Figura 2), um músculo é alongado até ao ponto em que 
a amplitude adicional de alongamento é limitada pela sua própria tensão. 
Nesse ponto produz-se uma contração isométrica gradual de cerca de 
10 segundos, o que determinará logo em seguida um maior relaxamento 
do músculo, através do refl exo miotático inverso. Essa fase de menor ten-
são é aproveitada para se atingir um maior alongamento, que deverá 
ser mantido por 20 a 30 segundos. Outra técnica PNF tem por base o 
processo de inervação recíproca. Imaginemos que os músculos extenso-
res da coxa são colocados passivamente numa determinada posição de 
alongamento. Em seguida, através da contração nos músculos fl exores, 
alonga-se suavemente os extensores para nova posição. A contração dos 
músculos fl exores facilitará o relaxamento do músculo a alongar, através 
do processo de inervação recíproca. É também com base na utilização 
dos processos de inervação recíproca que é possível justifi car fi siologica-
mente que a realização de uma contração antagonista, mesmo a ante-
ceder a ação do músculo agonista, possa ser uma estratégia efi caz para 
potenciar a força de contração deste (Fleck, 1995).
Contributos da Eletromiografi a para o Estudo das Adaptações Neurais
Contributos da eletromiografi a para o estudo das adaptações na coorde-
nação intramuscular
 A medição da intensidade de atividade eletromiográfi ca (EMG) gerada no mús-
culo durante a contração representa uma indicação preciosa sobre a quantidade de 
ativação neural fornecida ao músculo num determinado momento. Por isso, a EMG 
tem sido amplamente utilizada para inferir sobre as adaptações neurais ao processo 
de treino da força. Os estudos de Hakkinen e colaboradores (1983, 1985a,b,c, 1987, 
1996, 1998) forneceram uma contribuição experimental fundamental sobre a impor-
tância relativa que assumem, ao longo do processo de treino da força, as adaptações 
neurais e hipertrófi cas. Os seus resultados mostraram que, quando um principiante 
iniciava um programa de treino de força, nos dois meses iniciais de treino o aumento 
ADAPTAÇÕES NEURAIS À ATIVIDADE FÍSICA E À INATIVIDADE
Aparelho Locomotor: Função Neuromuscular e Adaptações à Atividade Física 215
de força é acompanhado de aumento da intensidade da EMG durante a contração 
voluntária máxima (CVM), que precede qualquer alteração signifi cativa do diâmetro 
do músculo. As alterações iniciais de força deviam-se, portanto, essencialmente a 
fatores neurais, verifi cando-se uma contribuição progressiva dos fatores hipertrófi cos 
à medida que o processo de treino continuava. Saliente-se que o ganho de produção 
muscular conseguido à custa da otimização dos processos neurais permite ao múscu-
lo repetir mais execuções com cargas mais elevadas, fornecendo-lhe uma base ade-
quada para responder melhor às exigências dos métodos que visam as adaptações 
Figura 2. Técnica PNF baseada na inibição autogénica. A \u2013 Um alongamento passivo dos múscu-
los posteriores da coxa do sujeito (S1), como o semitendinoso, é produzido por um ajudante (S2). O 
alongamento vai estimular o FNM e aumentar a atividade do refl exo miotático e, consequentemen-
te, o tónus dos músculos alongados. Esse aumento de tensão limita o alongamento. B \u2013 Quando 
o sujeito (S1) atinge o máximo de alongamento dos músculos posteriores da coxa, produz durante 
breves segundos uma contração isométrica intensa desses músculos, fazendo força no sentido 
da extensão da coxa. O ajudante (S2) oferece resistência com a mão. C \u2013 A contração intensa 
dos músculos posteriores da coxa estimula os OTG desses músculos, ativando o refl exo miotático 
inverso e promovendo uma redução de tensão muscular. D \u2013 Essa redução de tensão pode ser 
aproveitada para aumentar um pouco o grau de alongamento dos músculos posteriores da coxa.
A B
C D
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S1S1
S2S2
S2S2
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uma maior capacidade da ativação antagonista em adaptar-se em magnitude e timing 
às alterações de atividade agonista, corrigindo possíveis erros da fase de aceleração 
e conduzindo, assim, o movimento à trajetória inicialmente prevista. 
Contributos da eletromiografi a para o estudo das adaptações refl exas no 
ciclo muscular alongamento-encurtamento
 Vários estudos recorreram à análise dos padrões eletromiográfi cos dos mús-
culos extensores do membro inferior para avaliar as adaptações neurais de indivíduos 
sujeitos a processos de treino com exercícios que envolviam o CMAE, nomeadamente 
saltos em profundidade (Mil-Homens, 1995; Kyrolainen & Komi, 1995; Viitasalo et al., 
1998). Esses estudos verifi caram que o treino pliométrico produzia alterações de ativa-
ção neuromuscular evidenciadas por EMG, e que essas alterações estavam relaciona-
das com redução do tempo total de contacto com o solo durante a receção/impulsão e 
com aumento da altura do centro de gravidade durante a impulsão vertical (Figura 4).
 Por um lado, o treino induzia um aumento da ativação EMG na fase de pré-ativa-
ção, ou seja, antes do contacto com o solo. Devido a essa maior pré-ativação antecipató-
ria, que é pré-programada centralmente, o complexo músculo-tendinoso apresentava, no 
momento do contacto, um elevado stiffness, que lhe permitia resistir melhor ao impacto 
na fase excêntrica, reduzindo a amplitude do alongamento com consequente redução 
da duração da fase de travagem. Esse aumento de stiffness muscular durante a fase 
excêntrica permite um maior armazenamento de energia elástica nas pontes cruzadas 
e nos tendões, que é usada no início da fase concêntrica, contribuindo para uma melhor 
capacidade de produção de força. Esta pré-ativação implica experiência anterior para ser 
iniciada na altura certa antes do impacto. Kyrolainen e Komi (1995) verifi caram que atle-
tas treinados em esforços de potência muscular apresentavam