Acionistas do nada Quem so os traficantes de drogas
62 pág.

Acionistas do nada Quem so os traficantes de drogas


DisciplinaDireito Penal I60.212 materiais1.006.888 seguidores
Pré-visualização32 páginas
processo de etiquetamento dentro do senso comum mostra que, para que um 
comportamento desviante seja imputado a um autor, e este seja considerado como violador da norma, para que 
lhe seja atribuída uma "responsabilidade moral" pelo ato que infringiu a routine (é neste sentido que, no senso 
comum, a definição desvio assume o caráter - pode-se-ia dizer - de uma definição de criminalidade), é 
necessário que se desencadeie uma reação social correspondente: o simples desvio objetivo em relação a um 
modelo, ou a uma norma, não é suficiente84. 
A partir dessas informações oferecidas pela teoria rotulacionista, podemos entender o motivo pelo 
qual, até o ano de 2004, apenas um acusado de praticar a conduta definida como crime de lavagem de dinheiro 
tenha sido condenado em definitivo pela Justiça brasileira, embora a lei 9.613/98 estivesse há mais de seis anos 
em vigor" , ao passo que em rebelião ocorrida no sistema penitenciário carioca no dia 29/05/2004, "dos 20 
mortos na Casa de Custódia de Benfica identificados até agora pela polícia, 17 tinham praticado crimes de baixo 
poder ofensivo, dois eram acusados de homicídio e um de assalto a mão armada' . 
Essas notícias trazidas pela imprensa revelam que a reação às condutas previstas como crime são 
diferentemente conduzidas pelo sistema penal, que programa um sistema igualitário de distribuição 
 
________________________________ 
84 Idem, p. 96 
85 Reportagem "Crime sem castigo". In: jornal O Globo do dia 21/06/2004, p. 3. 
86 Reportagem "No lugar errado, na hora errada". In: jornal O Globo do dia 20/06/2004, p. 31. 
 
de penas para "todos" aqueles que praticam os comportamentos definidos como delito, mas executa uma seleção 
daqueles que efetivamente sofrerão a resposta punitiva. 
A criminalidade desta maneira, viria a ser um resultado de uma série de situações estruturais (conflito 
social), que seriam responsáveis por sua distribuição diferencial nos diferentes níveis sociais; distribuindo-se 
"como um bem negativo", da mesma forma como se distribuem diferencialmente os "bens positivos" na 
sociedade.A criminalidade seria, pois, o "estado oposto ao privilégio 87. 
Entre os autores da criminologia da reação social, citado pela criminóloga Lola Anyar de Castro, 
aquele que mais se destaca na elaboração teórica do processo de criminalização de indivíduos é Austin Turk, 
segundo o qual "a criminalização não é alguma coisa que alguém faz, mas alguma coisa que acontece no curso 
da interação entre várias partes 88, incluindo todos os que fazem as normas, os intérpretes, os que a executam e 
finalmente os infratores. Turk parte da idéia de que é necessário que se crie um conflito entre os encarregados 
de cumprir a lei e quem viola a norma para que se criem as possibilidades da criminalização, sendo as 
probabilidades de conflito maiores na presença ou ausência de algumas variáveis, identificadas pelo sociólogo 
como organização e sofisticação, entendendo-se a última como "o conhecimento dos padrões de conduta dos 
demais, conhecimento este que pode ser utilizado para manipulá-los 89. 
Essas variáveis podem ser consideradas simultaneamente, produzindo quatro tipos diferentes de 
combinação: a) organizados sem sofisticação (gangs de delinqüentes); b) desorganizados sem sofisti- 
 
____________________________________________ 
87ANYAR DE CASTRO, Lola. Criminologia da reação social. Rio de Janeiro: Forense, 1983, p. 111. 
88 Idem, p. 115. 
89 Idem, p. 116. 
 
53 
 
cação (sindicatos do crime); c) organizados sofisticados (sindicato do crime); d) desorganizados sofisticados 
(estelionatários profissionais). Para Turk o conflito é mais provável quanto mais organizados estejam aqueles 
que realizam atos ilegais, uma vez que serão mais resistentes às mudanças para padrões de conduta das 
autoridades, sendo improvável o conflito havendo sofisticação dos sujeitos desviantes, uma vez que estes serão 
mais cuidadosos em avaliar a força ou fraqueza da sua posição em relação às autoridades. 
No seu entender, a sofisticação é mais importante - por sua capacidade de evitar o conflito - que a 
organização. Assim, pois, o conflito entre as autoridades e sujeitos é muito mais provável se os sujeitos estão 
altamente organizados e não são sofisticados; ainda menos provável se são organizados e sofisticados; e menos 
provável se são desorganizados e sofisticados 90. 
O conflito também será definido de acordo com a organização e sofisticação das autoridades. Embora a 
variável organização deva estar sempre presente neste caso, "a experiência demonstra que a sofisticação é 
variável segunda as agências de controle social": 
Demonstra também que quanto menos sofisticadas são, mais tendem a confiar em seu poder de coerção 
e menos capazes são de manejar o potencial de conflitos mediantes táticas alternativas de evitação, persuasão e 
compromisso. Portanto, a possibilidade de conflito é maior 91. 
Iniciado o conflito, entretanto, surgem ainda algumas condições para que aqueles que violem as regras 
possam se converter em criminosos, pois, para Turk, ser criminoso não é realizar atos delituosos, mas o produto 
da interação entre autoridades e sujeitos, bem como outras variáveis sociais que irão marcar definitivamente 
 
_________________________________ 
9
° Idem, p. 117. 91 Ibidem. 
 
54 
 
o status criminal, entre elas, algumas apontadas por Lola Anyar de Castro: em primeiro lugar, a prioridade e 
significação que tenha para as autoridades a norma social ou legal violada; a maior significação que tenha a 
norma da oposição para seus componentes; a ofensividade da conduta da ótica policial, uma vez que as 
autoridades de maior nível (juizes e promotores) estão mais limitadas para definir quem será criminalizado, bem 
como para incidir na decisão da polícia; por fim, as diferenças de poder entre as autoridades e opositores, uma 
vez que embora a princípio as autoridades possam parecer sempre mais poderosas, em determinadas situações 
os desviantes podem apresentar igualdade de recursos, poder, organização e até mesmo armas. 
Mas se a norma em questão é de significação especial para a autoridade, mas perigoso se considerará o 
inimigo e aumentam os riscos de criminalização. Neste caso, a criminalização se converterá, diz Turk, mais em 
uma técnica para enfraquecer um opositor forte do que um assunto de simples rotina na manutenção do controle 
social. Tratar-se-á de perseguir e criminalizar o maior número de pessoas; nestes casos, às vezes, a vitimização 
de inocentes aparece mais como uma forma de uso deliberado de terrorismo oficial, como técnica de controle 
social, do que como erros autênticos das autoridades92. 
O pensamento de Turk reflete a realidade da lógica policial quando o assunto é o comércio de drogas 
proibidas. O tráfico de drogas é considerado pelas agências penais, em especial pela polícia, como a principal 
causa da violência urbana no Rio de Janeiro, fazendo com que a "guerra" ganhe dimensões para além do 
simples procedimento repressivo ao comércio ilegal de drogas. Os varejistas das drogas, organizados sem 
nenhuma sofisticação, passam a ser o alvo das principais ações policiais, enquanto empresários financiam e 
lavam dinheiro dos distribuidores nas favelas. Estes, por serem 
 
_______________________________ 
92 Idem, p.120. 
 
55 
 
muito mais sofisticados, conseguem, na lição de Turk, não serem atingidos pela ação policial. 
A "guerra contra as drogas", enquanto tática de controle social, não se deslegitima ao provocar um 
número maior de mortes do que aquelas provocadas pelas próprias substâncias proibidas. Na apreciação de 
Turk, o uso deliberado do terrorismo oficial não é desvio de poder, mas seu legítimo exercício, quando o 
assunto é combater indivíduos tão "perigosos". 
 
2.2. O ESTEREÓTIPO E A ESTIGMATIZAÇÃO 
 
Os efeitos do processo de criminalização seletiva e a condição