Acionistas do nada Quem so os traficantes de drogas
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Acionistas do nada Quem so os traficantes de drogas


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dos indivíduos selecionados também são 
objetos de estudo da Criminologia da Reação Social. As teorias da estigmatização (Goffman) e do estereótipo 
(Chapman) apresentam-se como marco introduzido dentro de um panorama conceitual de crítica das chamadas 
instituições de controle total (manicômios, cárceres, hospitais e asilos). 
Goffman ao estudar a "identidade deteriorada" tratou de definir o criminoso (desviante) como um 
indivíduo estigmatizado, portador de um atributo profundamente depreciativo, que o torna diferente dos outros. 
A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados comuns e 
naturais para os membros de cada uma dessas categorias. Os ambientes sociais estabelecem as categorias de 
pessoas que têm probabilidade de serem neles encontradas. As rotinas de relação social em ambientes esta-
belecidos nos permite um relacionamento com "outras pessoas" previstas sem atenção ou reflexão particular. 
Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e os 
seus atributos, a sua "identidade social" - para usar um termo melhor do que "status social", já que nele se 
incluem atributos como "honestidade", da mesma forma que atributos estruturais, como "ocupação" (...) 
 
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Enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele tem um atributo que o 
torna diferente de outros que se encontram numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma 
espécie menos desejável - num caso extremo, uma pessoa completamente má, perigosa ou fraca. Assim, 
deixamos de considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída. Tal caracte-
rística é um estigma, especialmente quando o seu efeito de descrédito é muito grande 93. 
No entanto, para Goffman, embora o termo estigma seja usado em relação a um atributo 
profundamente depreciativo, ele é na realidade um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo. Assim, 
para definir um estigma, é preciso uma linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza 
alguém pode confirmar a normalidade de outrem; portanto, ele não é em si mesmo nem honroso nem desonroso. 
O estigmatizado, segundo Goffman, é um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social 
quotidiana, mas possui um traço que pode impor-se à atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a 
possibilidade de atenção a outros atributos seus. 
Por definição, é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com 
base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, 
reduzimos suas chances de vida. Construímos uma teoria do estigma, uma ideologia para explicar a sua 
inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada 
em outras diferenças, tais como as de classe social. Utilizamos termos específicos de estigma como aleijado, 
bastardo, retardado, em nosso discurso diário como fonte de metáfora e repre- 
 
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93 GOFFMAN, Erving. Estigma - Notas sobre a manipulação de identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar 
Editores, 1975, pp. 11-12. 
 
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sentação, de maneira característica, sem pensar no seu significado original". 
O "traficante", a partir dos anos 80, passa a ser utilizado como termo estigmatizante capaz de reduzir a 
compreensão acerca de um indivíduo. Se nos anos 700 "comunista" era o responsável por "degustar 
criancinhas" em nosso país, hoje o "traficante" é responsável até por estimular o surgimento de favelas. Não é 
exagero (meu), mas foi assim que o editorial de um dos jornais de maior circulação do país analisou o processo 
de favelização na cidade do Rio de Janeiro, ao se referir à invasão de um terreno federal no bairro de Benfica 
com o título "Tráfico pode estar estimulando o surgimento de favelas":"(...) a rapidez com que o tráfico 
dominou essa pequena comunidade gera a suspeita de que toda a invasão-relâmpago tenha sido uma operação, 
senão comandada, pelo menos instigada pelo crime organizado". 
Não é preciso se aprofundar na carga estigmatizante que o termo "traficante" revela, mas é bom 
lembrar que os chamados "autos de resistência", inquéritos instaurados a partir da morte de pessoas em conflito 
com a polícia, são muitas vezes arquivados quando se descobre que as vítimas têm em suas fichas criminais 
alguma"passagem" ou condenação no tráfico de drogas. O traficante estigmatizado, ou seja, aquele que apre-
senta uma relação entre o atributo presente na venda de substância entorpecente e o estereótipo do criminoso 
(preto, pobre, favelado) é um verdadeiro passe livre para as ações policiais genocídas. 
Se tiver pega de carro não vai ser o pegueiro, vai ser o jovem que dirigia o carro tal, tem nome, mas 
traficante não, virou uma categoria fantasmática, é uma categoria policial que migrou para a academia, pro 
jornalismo, pra psicologia e que não tem cara, não é mais humana. É uma coisa do mal". 
 
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94 Idem, p. 15. 
95 Editorial "Batalha Perdida". In: Jornal O Globo do dia 07/07/2002,p. 6. 
96 Todo crime é político". Entrevista com o professor Nilo Batista na revista Caros Amigos, n2 77. 
 
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Observa a criminóloga Vera Malaguti Batista. 
Porém, é com a tese de Denis Chapman sobre o estereótipo do delinqüente que a Criminologia da 
Reação Social definitivamente rompe com as teorias da passagem ao ato', ou seja, com aquelas teorias 
etiológicas que buscam as causas do-crime entendendo o fenômeno criminológico com pré-constituído. Para 
Chapman todo comportamento desaprovado pode-se manifestar também em formas objetivamente idênticas que 
são, no entanto, aprovadas ou recebidas com indiferença. Não há assim maior diferença entre criminosos e não 
criminosos do que a condenação. Na lição do criminólogo norte-americano, o comportamento criminoso é 
geral, mas a incidência diferencial das condenações é em parte devida à sorte, em parte a processos sociais que 
dividem a sociedade em classes criminosas e não criminosas, correspondendo as primeiras às classes pobres e 
dominadas. 
A grande inovação de Chapman encontra-se no redimensionamento do delito enquanto componente 
funcional do sistema social. A tese de Chapman é assim resumida pela professora Lola Anyar de Castro: 
Na sociedade, existem vários estereótipos: o do alcoólatra, que seria um maltrapilho embrutecido pela 
bebida e deve, portanto, ser objeto de medidas violentas, ou sanções médicas, psiquiátricas e legais, cujo 
estereótipo serve para justificar a existência e o comportamento - agressivo e impune - dos alcoólatras das 
classes média e superior. O estereótipo do jovem hippie, drogado, sujo e amoral, serve para justificar à "gente 
de bem" burguesa a sua repressão contra os grupos de jovens politizados, considerados perigosos para as classes 
no poder. Ainda assim, a imagem do ladrão refere-se de preferência ao do pequeno assaltante e se contrapõe à 
do especulador, cujo comportamento acaba ratificado pela admiração e o êxito (...) O criminoso estereotipado é, 
pois, função do sistema estratificado e concorre 
 
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97 As teorias da passagem ao ato buscam identificar causas para o crime. 
 
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para mante-lo inalterado. Isto permite à maioria não criminosa, redefinir-se com base nas normas que aquele 
violou e reforçar o sistema de valores de seu próprio grupo 98. 
A funcionalidade do crime é então manifestada no momento em que o delinqüente estereotipado 
converte-se em "bode expiatório" da sociedade. Entre muitos que praticam as condutas definidas como crime, 
apenas os mais vulneráveis estarão sujeitos a serem observados e detidos, recaindo sobre eles toda a carga 
agressiva da sociedade, reduzindo-se