Acionistas do nada Quem so os traficantes de drogas
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Acionistas do nada Quem so os traficantes de drogas


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ter em depósito, guardar, ministrar ou de qualquer maneira entregar ao consumo substância 
entorpecente. 
A lei 4.451/64 introduz ao tipo do art. 281 do C.P. a ação de plantar, mas é quinze dias após a 
decretação do AI-5 (Ato 
 
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150DEL OLMO, op. cit., p. 36. 
 
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Institucional n° 5), pela ditadura militar brasileira, que ocorre modificação substancial na política de 
repressão nacional, conforme orientação do advogado e criminalista Salo de Carvalho: 
aos Estados Unidos porque eram "doentes" e seriam sujeitos à tratamento, de acordo com o discurso 
médico tão em moda153. 
(...) vigorava, até então, a interpretação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal, cujo 
entendimento era de que o art. 281 do Código Penal não abrangia os consumidores, pois em seu parágrafo 32 
previa a punição do induzidor ou instigador. A interpretação era de que, sancionando o induzidor ou o 
instigador, estaria excluído o usuário, visto que bastaria a regra geral do art. 25 do Código Penal de 1949 para a 
configuração da co-autoria151. 
Como bem orienta Rosa Del Olmo, a "ideologia da diferenciação" não poderia ser levada a cabo pelos 
países do cone sul, uma vez que o tratamento médico para os usuários/dependentes urgia investimento e 
recursos não disponíveis. "A conseqüência deste duplo discurso, importado sem as adaptações à realidade 
sócio-econômica e cultural dos países da América Latina, foi de gerar estereótipos bem definidos" 152. 
... tudo dependia na América Latina de quem a consumia. Se eram os habitantes de favelas, 
seguramente haviam cometido um delito, porque a maconha os tornava agressivos. Se eram "meninos de bem", 
a droga os tornava apáticos. Daí que aos habitantes das favelas fosse aplicado o estereótipo criminoso e fossem 
condenados a severas penas de prisão por traficância, apesar de só levarem consigo um par de cigarros; em 
troca, os \u201cmeninos de bem", que cultivavam a planta em sua própria casa, como aconteceu em inúmeras 
ocasiões, eram mandados para alguma clínica particular para em seguida serem enviados 
 
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151 CARVALHO, Saio de. A política criminal de drogas no Brasil. Rio de Janeiro: Luam, 1997, p. 24. 
152 Idem, p. 35. 
 
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Assim, empurrado por uma política de combate às drogas, cuja descriminalização do usuário pela via 
jurisprudencial criava preocupações no âmbito da repressão'', foi editado o Decreto-lei 385/68 que alterava a 
redação do Código Penal, estabelecendo a mesma sanção para traficante e usuário, com a seguinte redação para 
o parágrafo único do art. 281: "Nas mesmas penas incorre quem ilegalmente: III - traz consigo, para uso 
próprio, substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica". 
Durante três anos as condutas do consumidor e traficante foram equiparadas, com ambos respondendo 
pelas mesmas penas, fato que levou muitos juristas a criticar o Decreto-lei 385/68. Mena Barreto, citado por 
Salo de Carvalho', foi enfático ao considerar tal legislação vexatória, tornando-se inoperante e inaplicável pelos 
tribunais, que acabavam por absolver réus primários e/ou dependentes, ao invés de aplicar-lhes "equilibradas 
condenações". Futuro idealizador do projeto da Lei de Tóxico (Lei 6.368/76), Mena Barreto revela a 
incorporação do modelo médico-jurídico em seu discurso, que reforça a ideologia da diferenciação, ao exigir 
tratamento penal severo para traficantes e "equilibradas condenações" para usuários. 
A lei 5.726/71 fez com que o Brasil ingressasse, na década de setenta, "em perfeita sintonia com a 
orientação internacional no que diz respeito às legislações anti-drogas", marcando total autonomia da disciplina. 
No que diz respeito ao discurso médico-jurídico, a nova legislação deixa de considerar o dependente como 
criminoso, mas não diferenciava o experimentador ou usuário eventual do traficante, sendo considerada apenas 
uma passagem entre o modelo repressivo anterior e a nova legislação, que se encontra em vigor até hoje no país. 
 
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153 DEL OLMO, op. cit., p. 46. 
154 Idem, p. 46. 1" Idem. p. 27. 
 
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Esta legislação ainda preserva o discurso médico-jurídico encontrado na década anterior e sua notória 
conseqüência de definir usuário habitual como dependente - estereótipo da dependência - e traficante como 
delinqüente - estereótipo criminoso.Apesar de trabalhar com esta falsa realidade, distorcida e extremamente 
maniqueísta ao dividir a sociedade entre os "bons" e os "maus", a lei 5.726 representa real avanço em relação ao 
Decreto pretérito e inicia o processo de substituição do modelo repressivo, que atingirá seu ápice na lei 
6.368/76156. 
Os anos setenta revelam uma alteração no enfoque das políticas de repressão. A guerra do Vietnã traz à 
tona o consumo de heroína por militares e ex-combatentes norte-americanos, servindo para iniciar o "discurso 
político" sobre as drogas, como nos mostra Rosa Dei Olmo 156. Para a criminóloga venezuelana, o boom da he-
roína fez substituir o "inimigo interno" pelo "inimigo externo", referindo-se particularmente ao tráfico. Através 
deste novo discurso o consumo de drogas no "Mundo Livre" é associado a um país "inimigo", discurso este que 
se difundiria em outros países naquela época. O discurso político das drogas faz com que não só os EUA, bem 
como os demais países do continente, passem a tratar a questão das drogas como um problema de segurança 
nacional. 
Na visão de Rosa Dei Olmo, o novo discurso é condicionado por um fator geopolítico específico 
daquele momento que foi a guerra contra a subversão comunista, que "ameaçava" a democracia. Para 
estabelecer a vinculação entre ambas as guerras e a conexão entre os dois "inimigos principais" (comunistas e 
traficantes), se difundiu os termos "narcoguerrilha", "narcoterrorismo" e \u201cnarcosubversão". Em 1972, em 
pronunciamento, o então presidente Richard Nixon identifica os psicoativos ilícitos como inimigos n°1 da 
América e, em conseqüência, declara guerra às drogas. 
 
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156 Idem. p. 28. 
157 Idem. p. 40. 
 
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Essa guerra, longe de ser apenas uma metáfora, significava a intenção de aprofundar as medidos 
repressivas por meio de crescimento das ações policiais de busca e apreensão de drogas ilegais e do combate a 
grupos clandestinos e redes de tráfico 158. 
Aceita-se oficialmente a existência de países produtores de drogas ilícitas e países consumidores, 
atitude que cumpria o papel de exteriorizar o problema do tráfico de drogas, colocando Estados e regiões do 
então Terceiro Mundo como agressores e os Estados Unidos na posição de vítima: criminosos asiáticos e latino-
americanos levariam heroína, cocaína, maconha e LSD para corromper a juventude americana159. 
O discurso político deflagrou significante reforma nas organizações repressivas, em especial com a 
criação nos EUA, em 1974, da Drug Enforcement Agency, posteriormente renomeada como Drug Erdorcement 
Administration (DEA),ligada ao Departamento de Justiça, que funcionaria como órgão centralizador de toda a 
política de proibição, no território norte-americano e internacional, que iria se desenvolver a partir de meados da 
década de 70 até os nossos dias. 
A partir de 1976, uma substância específica passa a ocupar com destaque o discurso de proibição, 
dando novos contornos à declaração de guerra.A cocaína é observada como droga em ascensão no que diz 
respeito ao consumo e disponibilidade nos EUA, superando a heroína. A indústria da coca estava se instalando 
nos países andinos, adquirindo características próprias e criando para todo o continente um novo alarde, aos 
moldes dos que ocorreram com a maconha (anos 30) e heroína (anos 50). Estava criado o estereótipo da 
cocaína, que preparava novos "inimigos externos" para a guerra que já havia sido declarada