Acionistas do nada Quem so os traficantes de drogas
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Acionistas do nada Quem so os traficantes de drogas


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de violência, sem previsão legal, para aqueles autuados no tráfico de drogas. Não é 
por menos que o entendimento jurisprudencial, a prevalecer no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, era o da 
inadmissibilidade da aplicação de penas alternativas para os condenados a menos de quatro anos no tráfico de 
drogas. Um dos argumentos utilizados seria o de que a "culpabilidade" do agente não indicaria a substituição da 
pena privativa de liberdade, como se todos aqueles que respondem pelo delito de "tráfico de entorpecentes" 
fizessem parte de uma única categoria "herética" e violenta por "natureza". Recepcionando o clamor 
público/midiático a atual lei 11.343/06 aumentou a pena mínima 
 
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para o delito de tráfico (art. 33) para 5 anos, inviabilizando em definitivo a conversão da pena privativa em 
penas alternativas. 
Uma especial vinculação entre a mídia e o sistema penal constitui, por si mesma, importante 
característica dos sistemas penais do capitalismo tardio. Tal vinculação, mareada por militante legitimação do 
(ou, para usar um termo da moda, "parceria" com o) sistema penal - "parceria" na qual as fórmulas bisonhas do 
editorial ou do espaço cedido aos "especialistas" concorde são menos importantes do que as mensagens 
implícitas, que transitam da publicidade às matérias esportivas - tal vinculação levou Zaffaroni a incluir, em 
seu rol de agências do sistema penal, as "agências de comunicação social", e os exemplos que ministrou ("rádio, 
televisão e jornais") deixam claro que não se referia aos serviços de relações públicas de tribunais ou 
corporações po1iciais225. 
O homicídio que vitimou o repórter Tim Lopes fez surgir, no ano de 2002, uma série de reportagens 
vinculando o tráfico de drogas à desestabilização do Estado democrático."Narcoditadura"; "Estado paralelo"; 
"República do tráfico" são alguns dos termos usados como referência ao comércio de drogas ilícitas nas favelas 
do Rio. A ameaça de uma "narcofederação"226 , foi assim descrita em editorial do jornal O Globo de 26/06/02: 
Pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (Nesa), da Universidade do 
Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e publicada pelo Globo, chegou a uma conclusão alarmante: um entre cada 
quatro jovens favelados cariocas, na faixa entre 10 e 19 anos de idade, tem alguma ligação com o tráfico. 
 
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225 BATISTA, Nilo. "Mídia e sistema penal no capitalismo tardio". In: Discursos Sediciosos, n° 12. Rio de 
Janeiro: Revan, 2002, p. 271. 
226 Termo utilizado no editorial "Risco Brasil", na coluna Opinião do Jornal O Globo de 26/06/2002. 
 
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Quer dizer, 25% dos jovens favelados da cidade já trabalham para o crime organizado. Como há 1 
milhão de favelados no Rio, conclui-se que está em formação um exército de marginais. 
A idéia da formação de um "exército de marginais" através do comércio de drogas ilícitas é tão 
fantasiosa como a existência de armas químicas no Iraque. Pode até servir para justificar uma guerra, mas não 
se comprova através de dados reais. A imensa maioria das pessoas envolvidas no tráfico de drogas ilícitas 
ostenta uma realidade distinta de uma organização paramilitar voltada para a destruição do Estado e das 
instituições democráticas, conforme propõem as campanhas deflagradas pelos veículos de comunicação. 
"As forças armadas do tráfico" foi o título da reportagem da edição de 03/02/2002 do jornal O Globo, 
onde é relatado o processo de militarização das favelas do Rio: "Em toda a cidade, pelo menos 15 ex-militares 
treinam bandidos, num total de 265 jovens, o equivalente à metade de um batalhão do Leblon", comparou o 
repórter. Se for verdade, conforme publicou o editorial do mesmo jornal, que 250 mil pessoas (25% de 1 milhão 
de moradores da favela) estariam envolvidas com o "narcotráfico", 265 jovens representariam uma proporção 
insignificante, de pouco mais de 0,1%, a receber treinamento militar. 
Podemos, portanto, observar que a mídia organiza o mundo dando a este um sentido, aquilo a que a 
pesquisadora Sylvia Moretzsohn chamou de "recriação do caos": 
Jornais, já se disse, são uma forma de mapear o mundo. Um mapeamento muito particular, porém: 
trabalho ativo de produção de sentido, resultante da interação dos elementos verbais e não-verbais no espaço da 
página e nas edições de rádio e TV. Como dizTodd Gitlin,"os enquadramentos dos media, que em grande parte 
são tácitos e não admitidos, organizam o mundo tanto para os jornalistas que o descrevem como, num grau 
muito importante, para nós que confiamos nas suas descrições. Os enquadramentos de media são padrões 
persistentes 
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de cognição, de interpretação e de apresentação, de seleção, de ênfase e de exclusão, através dos quais os 
manipuladores de símbolos organizam habitualmente o discurso, seja ele visual ou verbal"227. 
A relação entre o tráfico de drogas e violência é um sentido construído pelos media, produzindo a idéia 
de que todas as pessoas envolvidas no comércio de drogas ilícitas são "bárbaros" e insuscetíveis de recuperação, 
sendo o recrudescimento penal o único caminho possível para o Estado na questão das drogas.Vejamos alguns 
editoriais recentes do jornal O Globo ao tratar do assunto: 
A violência é uma praga nacional, e, como se sabe, tem como principal combustível o tráfico de 
drogas. Pela sua topografia e distribuição espacial, São Paulo, com exceções como o bairro do Morumbi, não 
tem grandes favelas às portas das classes média e alta. Mas estas não deixam de padecer dos efeitos do tráfico; 
são elas alvo preferencial de seqüestros-relâmpago, assaltos, furtos e roubos das mais diversas 
modalidades.Tudo ou quase tudo com a finalidade de levantar fundos para, de alguma forma, financiar o 
comércio de drogas. O exemplo de São Paulo se estende para toda cidade brasileira de algum porte. (O Globo, 
editorial "Projeto nacional", em 14/04/04) 
É com o passar do tempo que o jovem que entrou para o crime organizado, por não encontrar outra 
opção, pode acabar se tornando um criminoso empedernido e irrecuperável - se tiver sobrevivido à guerra entre 
quadrilhas e perseguição policial. (O Globo, coluna Nossa Opinião, tema em discussão: Menores no tráfico, em 
30/12/02) 
Entende-se o princípio que lastreia a legislação penal brasileira, pelo qual o criminoso é um cidadão a 
quem deve ser dada a chance de recuperação. Muitos juristas chegam a defender, com 
 
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227 MORETZSOHN,Sylvia."A ética jornalística no mundo ao avesso". In: Discursos Sediciosos ngl 9 e 10. Rio 
de Janeiro: Freitas Bastos, 2000, p. 318. 
 
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argumentos sólidos, que mais do que o peso das penas é importante fazer o condenado cumprir a punição, 
mesmo que leve. O problema é que essa legislação e o embasamento filosófico que a lastreia são herdados de 
um país que não existe mais, em que crimes violentos costumavam ser passionais; um país sem tráfico 
organizado de drogas e armas, com ramificações internas e externas Assim como está evidente que sem a 
participação efetiva da União será impossível conter o crime organizado, é também claro que o arcabouço legal 
precisa ser reciclado para enfrentar um outro tipo de inimigo - mais profissional, bem mais perigoso. NÃO É 
NOVIDADE que o país enfrenta grave crise de segurança pública, na qual o Rio, São Paulo e outras regiões 
metropolitanas estão no epicentro.Também é sabido que a principal mola propulsora dessa indústria do crime é 
o tráfico de drogas, uma praga mundial que, por uma série de contingências geográficas e sociais, transformou o 
Brasil em um mercado consumidor e em escalada estratégica nas rotas internacionais de distribuição. E já faz 
algum tempo, o comércio de drogas converteu-se no vértice da maioria dos crimes praticados no país; de 
alguma maneira ele se relaciona com grande parte dos delitos do cotidiano. (O Globo, editorial "Várias frentes", 
em 18/03/03.)