bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
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DisciplinaPsicologia e Filosofia340 materiais1.509 seguidores
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que o conceito científico correspondente a um fenômeno particular é o 
agrupamento das aproximações sucessivas bem ordenadas. A conceitualização 
científica precisa de uma série de conceitos em via de aperfeiçoamento para 
chegar à dinâmica que pretendemos, para formar um eixo de pensamentos 
inventivos. 
Essa conceitualização totaliza e atualiza a história do conceito. Além da 
história, impelida pela história, suscita experiências para deformar um estágio 
histórico do conceito. Na experiência, procura ocasiões para complicar o conceito, 
para aplicá-lo, apesar da resistência desse conceito, para realizar as condições de 
aplicação que a realidade não reúne. É então que se percebe que a ciência 
constrói seus objetos, que nunca ela os encontra prontos. A fenomenotécnica 
prolonga a fenomenologia. Um conceito torna-se científico na proporção em que se 
torna técnico, em que está acompanhado de uma técnica de realização. Percebe-
se que o problema do pensamento científico moderno é, de novo, um problema 
filosoficamente intermediário. Como na época de Abelardo, gostaríamos de nos 
colocar num ponto médio, entre os realistas e os nominalistas, entre os positivistas 
e os formalistas, entre os adeptos dos fatos e os adeptos dos sinais. É, portanto, de 
todos os lados que nos expomos à crítica. 
 
IV 
 
Em oposição a esse breve esboço de uma teoria dos conceitos proliferantes, 
vejamos agora dois exemplos de conceitos esclerosados, resultantes da adesão 
apressada a um conhecimento geral. Esses dois exemplos são relativos à 
coagulação e à fermentação. 
O fenômeno tão especial da coagulação serve para mostrar como se 
constitui um mau tema de generalidade. Em 1669, a Académie propõe, nos 
seguintes termos, um estudo do fato geral da coagulação: 
 
Não há grande espanto no fato de o leite talhar. Não é uma experiência 
curiosa... é algo tão pouco extraordinário que chega quase a ser 
desprezível. Um Filósofo, porém, pode refletir muito sobre o fato; quanto 
mais o examina, mais o fato fica maravilhoso, e é a ciência que se torna a 
mãe da admiração. A Académie não considerou indigno dela o estudo de 
como se dá a coagulação; mas desejou considerar todos os diferentes tipos 
de coagulação para obter mais esclarecimentos através da comparação 
entre esses tipos.3 
 
O ideal baconiano aparece aqui com bastante clareza. Vamos, portanto, ver 
os fenômenos mais diversos, mais heteróclitos, serem incorporados sob a rubrica 
"coagulação". Dentre esses fenômenos, os produtos complexos obtidos da 
economia animal vão desempenhar, como de costume, o papel de instrutores 
principais. Essa é uma das características do obstáculo animista, que assinalamos 
de passagem mas a qual retornaremos mais tarde. A Académie estuda, portanto, a 
coagulação do leite, do sangue, do fel, da gordura. Para a gordura, que endurece 
nos pratos, o esfriamento é a causa visível. A Académie vai tratar então da 
solidificação dos metais fundidos. O congelamento da água é, em seguida, incluído 
na categoria da coagulação. A passagem é tão natural, desperta tão poucas 
dificuldades, que não se pode ignorar a ação persuasiva da linguagem. Passa-se 
insensivelmente da coagulação para o congelamento. 
Para melhor conhecer os tipos de congelamento natural, parece "oportuno 
considerar alguns que acontecem por arte". Du Clos lembra, sem entretanto 
afirmar, que 
 
Glauber... fala de um certo sal que tem a propriedade de congelar, em 
forma de gelo, não apenas a água comum, mas a aquosidade dos óleos, do 
vinho, da cerveja, da aguardente, do vinagre etc. Até reduz a madeira em 
pedra (p. 88-9). 
Essa referência a experiências vagas é muito característica do espírito pré-
científico. Marca com clareza a detestável solidariedade da erudição com a ciência, 
da opinião com a experiência. 
Mas vejamos agora a generalidade extrema, a generalidade pedante, típica 
do pensamento que se admira: 
 
Quando a seiva das árvores torna-se lenho, e o quilo transforma-se em 
solidez nos membros dos animais, é por uma espécie de coagulação. E a 
mais extensa de todas e pode, segundo o Sr. du Clos, chamar-se 
transmutativa (p. 88). 
 
Como se vê, é na região de extensão máxima que acontecem os erros mais 
grosseiros. 
O ponto de partida foram os líquidos orgânicos. Depois de uma volta pelo 
mundo inanimado, retorna-se a fenômenos orgânicos, prova de que o problema 
não avançou, sua formulação não progrediu e não foi encontrada uma ordenação 
das formas conceituais. Por este exemplo, aliás, é possível aquilatar os desastres 
produzidos pela aplicação extemporânea do princípio de identidade. Pode-se dizer 
que a Académie, ao aplicar com tanta facilidade o princípio de identidade a fatos 
díspares mais ou menos explicitados, compreendia o fenômeno da coagulação. 
Mas convém logo acrescentar que essa maneira de compreender é anticientífica. 
Inversamente, a unidade fenomenal da coagulação, constituída de modo tão 
livre, só pode provocar desconfiança diante de qualquer questão que proponha 
diversificações subseqüentes. Essa desconfiança das variações, essa preguiça da 
diferenciação, são marcas do conceito esclerosado! Por exemplo, doravante, o 
ponto de partida será esta proposição típica de identificação pelo aspecto geral: "O 
que haverá de mais parecido que o leite e o sangue?"; e quando, a respeito da 
coagulação, for encontrada uma ligeira diferença entre esses dois líquidos, não 
será julgado necessário deter-se nesse fato: "Determinar qual é essa qualidade é 
um pormenor e uma precisão nos quais não se pode entrar". Tal desdém pelo 
pormenor e tal desprezo pela precisão mostram com clareza que o pensamento 
pré-científico fechou-se no conhecimento geral e aí quer permanecer. Assim, com 
suas "experiências" sobre a coagulação, a Académie impedia as pesquisas 
fecundas. Não suscitava nenhum problema científico bem definido. 
A coagulação, a partir daí, será usada como um tema de explicação 
universal, para problemas cosmogônicos. Seria possível aqui estudar uma curiosa 
tendência que leva insensivelmente da explicação pelo geral à explicação pelo 
grande. Tendência que foi assinalada com muita sagacidade por Albert Rivaud:4 
ele mostra que na explicação mitológica é o Oceano que tem o papel de princípio, 
em vez da água, como se pretende habitualmente. Eis como Wallerius,5 num livro 
traduzido em 1780, faz da coagulação um motivo de explicação cosmogônica: 
 
As águas têm tendência a coagular com outras matérias e a formar um 
corpo sólido... Essa propensão da água à solidez também pode ser 
observada na espuma, provocada apenas pelo movimento. A espuma é 
muito menos fluida que a água, já que a podemos pegar com a mão... Logo, 
o mero movimento transforma a água em corpo sólido. 
 
Seguem-se longas páginas para descrever diversos processos de 
coagulação da água. No dizer do célebre geólogo, a coagulação é suficiente para 
explicar a formação do animal (p. 111): "Aliás, todo mundo sabe que os animais 
provêm de uma matéria líquida, a qual se torna sólida por uma espécie de 
coagulação". Reencontramos assim a intuição primeira do século anterior. Enfim, 
para firmar a convicção na ação genérica do princípio coagulante, Wallerius cita Jó: 
"Instar lactis me mulxisti, et instar casei coagulari permisisti" [Ordenhaste-me como 
se eu fosse leite e, como se eu fosse queijo, deixaste-me talhar]. 
Também muitos alquimistas devanearam diante da coagulação. Crosset de 
la Heaumerie escreve em 1722: 
 
Não é mais difícil, para um Filósofo hermético, fixar o mercúrio, do que, para 
uma camponesa, coagular o leite a fim de fabricar queijo... Transformar o 
mercúrio em prata, por meio do sêmen da prata, é