bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
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trazer um 
exemplo longo, no qual o acúmulo de imagens prejudica evidentemente a razão, no 
qual o lado concreto, apresentado sem prudência, impede a visão abstrata e nítida 
dos problemas reais. 
A seguir, Réaumur declara que as idéias propostas ainda são um esboço, 
que naturalmente é possível dar às "esponjas do ar" formas muito diferentes 
daquela da esponja comum. Mas todo o seu pensamento se nutre dessa imagem, 
não consegue se despregar de sua intuição primeira. Mesmo quando quer apagar 
a imagem, a função da imagem persiste. Assim, Réaumur não se pronuncia quanto 
à forma dos "grãos do ar". Só postula, para sua explicação, uma coisa (p. 286): "é 
que a água possa penetrar nos grãos do ar". Ou seja, ele pode até, no final das 
contas, sacrificar a esponja, mas quer conservar a esponjosidade. Aí está a prova 
de um movimento pura e simplesmente lingüístico que, ao associar a uma palavra 
concreta uma palavra abstrata, pensa ter feito avançar as idéias. Para ser 
coerente, uma teoria da abstração necessita afastar-se bastante das imagens 
primitivas. 
Talvez ainda fique mais nítido o deficiente caráter metafórico da explicação 
pela esponja se considerarmos casos em que essa explicação é proposta para 
fenômenos menos imediatos. Assim, escreve Franklin:1 
 
A matéria comum é uma espécie de esponja para o fluido elétrico; a esponja 
não absorveria água se as partes da água não fossem menores que os 
poros da esponja; só a absorveria muito devagar, se não houvesse uma 
mútua atração entre suas partes e as partes da esponja; esta ficaria 
embebida mais depressa se a atração recíproca entre as partes da água não 
formasse um obstáculo, pelo que deve existir alguma força empregada para 
separá-las; enfim, a absorção seria muito rápida se, em vez de atração, 
houvesse entre as partes da água uma mútua repulsão que concorresse 
com a atração da esponja. E exatamente o caso em que se encontram a 
matéria elétrica e a matéria comum. 
 
Todos esses pormenores, todas essas suposições, todos esses esboços 
cheios de hesitação mostram com clareza que Franklin tenta aplicar as 
experiências elétricas a partir da experiência primitiva da esponja. Mas Franklin fica 
apenas no plano da esponja. Para ele, a esponja é uma verdadeira categoria 
empírica. Talvez, quando jovem, tenha admirado esse simples objeto. Isso costuma 
acontecer. Muitas vezes vi crianças interessadíssimas por um mata-borrão que 
"chupava" a mancha de tinta. 
Naturalmente, se considerarmos autores subalternos, a aplicação será mais 
rápida, mais direta, se possível menos controlada. A imagem se explica 
automaticamente. Numa dissertação do padre Béraut, encontra-se condensada 
esta dupla explicação: os vidros e matérias vitrificáveis são "esponjas de luz porque 
(estão) cheios da matéria que constitui a luz; pelo mesmo motivo, pode-se dizer 
que são esponjas de matéria elétrica". Lémery chamava a pedra de Bolonha de 
"esponja de luz", com um pouco mais de pertinência, porque essa pedra 
fosforescente conserva, depois de exposta ao sol, certa quantidade de "matéria 
luminosa", que a seguir se desvanece. Também em três breves linhas, Marat2 
explica o resfriamento de um corpo quente imerso no ar ou na água: "No caso, o ar 
e a água agem apenas como esponjas; porque um corpo, quando encosta em 
outro, só o resfria se absorver o fluido ígneo que este outro corpo desprende". 
A imagem tão clara pode, quando aplicada, ficar mais confusa e complicada. 
Assim, o abbé de Mangin3 diz rapidamente: "Como o gelo é uma esponja de água 
condensada e congelada por meio da exclusão do fogo, tem a aptidão de receber 
com facilidade tudo aquilo que se apresente". Parece que, neste último caso, 
estamos diante da interiorização do caráter esponjoso. Esse caráter é uma aptidão 
para receber, para absorver. Seria fácil encontrar exemplos que se aproximam 
insensivelmente das intuições substancialistas. A esponja tem então um poder 
secreto, um poder primordial. Para o Cosmopolite:4 "A Terra é uma esponja e o 
receptáculo dos outros Elementos". Um médico parteiro chamado David5 acha útil 
esta imagem: "O sangue é uma espécie de esponja impregnada de fogo". 
 
III 
 
Talvez se aquilate melhor o tipo de obstáculo epistemológico apresentado 
pela imagem da esponja, observando-se a dificuldade que um experimentador 
paciente e hábil teve para se livrar dela. 
O Recueil de Mémoires, publicado sob o título de Analogie de Vélectriàté et 
du magnétisme em 1785 por J.-H. van Swinden, é uma longa série de objeções 
contra as múltiplas analogias por meio das quais pretendiam reunir, numa mesma 
teoria, a eletricidade e o magnetismo. Van Swinden mostra várias vezes sua 
preferência pela experiência concebida à luz da matemática. Mas, antes de ser um 
construtor do pensamento matemático, é preciso ser iconoclasta. Eis o programa 
de Van Swinden:6 
 
Vou examinar em segundo lugar as experiências com as quais Cigna 
pretendeu demonstrar que o ferro é um condutor do fluido magnético, ou que 
é a esponja desse fluido, como acha Brugmans. 
 
A intuição de Brugmans é reproduzida em toda a sua ingenuidade (p. 87): 
 
Assim como a esponja transporta água em toda a sua massa e em maior 
quantidade se seu volume for maior, assim também o ferro, que tem mais 
massa ou volume, parece atrair e retirar (abducere) uma maior quantidade 
de Fluido do que o Ferro de menor volume. 
 
A função do ferro que acaba de ser magnetizado é "transportar esse Fluido 
num lugar onde ele não estava, como a esponja mergulhada na água a suga e 
transporta". 
Somente depois de muitas e variadas experiências, Van Swinden achou-se 
no direito de rejeitar essa intuição. Escreve então (v. 1, p. 120): 
A expressão "o ferro é uma esponja do Fluido magnético" é portanto uma 
metáfora que foge à verdade; mas todas as explicações baseiam-se nessa 
expressão empregada em sentido próprio. Quanto a mim, acho que não é 
correto dizer que todos os Fenômenos se reduzem a isto, que o Ferro é uma 
esponja do fluido magnético, e, ao mesmo tempo, afirmar que se trata de 
uma aparência errônea; se a razão mostra que essas expressões são falsas, 
não podem ser utilizadas para explicar Experiências. 
 
Sob uma forma meio embaraçada, o pensamento de Van Swinden é muito 
claro: não se pode confinar com tanta facilidade as metáforas no reino da 
expressão. Por mais que se faça, as metáforas seduzem a razão. São imagens 
particulares e distantes que, insensivelmente, tornam-se esquemas gerais. Uma 
psicanálise do conhecimento objetivo deve pois tentar diluir, senão apagar, essas 
imagens ingênuas. Quando a abstração se fizer presente, será a hora de ilustrar os 
esquemas racionais. Em suma, a intuição primeira é um obstáculo para o 
pensamento científico; apenas a ilustração que opera depois do conceito, 
acrescentando um pouco de cor aos traços essenciais, pode ajudar o pensamento 
científico. 
 
 
IV 
Existem, aliás, exemplos em que espíritos eméritos ficam como que 
bloqueados pelas imagens primeiras. Duvidar da clareza e do caráter distintivo da 
imagem oferecida pela esponja é, para Descartes, tornar sutis, sem motivo, as 
explicações (Príncipes, II, § 7): "Não sei por que, quando quiseram explicar como 
um corpo é rarefeito, preferiram dizer que era pelo aumento de sua quantidade, em 
vez de se servirem do exemplo desta esponja". Em outras palavras, a imagem da 
esponja é suficiente numa explicação particular e, portanto, pode ser utilizada para 
organizar experiências diversas. Por que ir procurar mais longe? Por que não 
pensar seguindo esse tema geral? Por que não generalizar o que é claro e 
simples? Logo, expliquemos os fenômenos complicados com material formado