bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
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Vélectriàté, 
communiquées dans plusieurs Lettres a P. Collinson de La Soe. Roy. de Londres. 
Trad. Paris, 1752, p. 135. 
2. MARAT (Docteur en Médecine et Médecin des Gardes du Corps de Mon-
seigneur le Comte d'Artois). Découvertes sur le Feu, l'Electricité et la Lumière, 
constatées par une suite d'expériences nouvelles. Paris, 1779, p. 31. 
3. Abbé DE MANGIN. Question nouvelle et interessante sur Vélectriàté. 
Paris, 1749, p. 38. 
4. Cosmopolite ou nouvelle lumière chymique. Pour servir d'éclaircissement 
aux 3 Príncipes de Ía Nature. Paris, 1723, p. 142. 
5. Jean-Pierre DAVID (Docteur et Médecin, Maitre des-Arts et en Chirurgie 
de Paris, Professeur Royal de Chirurgie et d'Anatomie à Rouen, Lithotomis-te-
Pensionnaire, Chirurgien en Chef de l'Hôtel Dieu, et membre de l'Académie des 
Sciences, Belles-Lettres et Arts de la mêjne ville). Traité de Ia nutrition et de 
l'accroissement, précédé d'une dissertation sur Pusage des eaux de l'Amnios. 
Paris, 1771, p. 304. 
6. J.-H. VAN SWINDEN. Analogie de Vélectriàté et du magnétisme. Haia, 
1785, 3 v., v. l,p. 74. 
7. Conde DE LA CÉPÈDE (des Acad. et Soe. Roy. de Dijon, Toulouse, 
Rome, Stockholm, Hesse-Hombourg, Munich). Physique générale et particulière. 
Paris, 1782, 2 v., v. 1, p. 191. 
8. Benjamin FRANKLIN, Op. cit., p. 18. 
9. MARAT. Recbercbes physiques sur Vélectriàté. Paris, 1782, p. 112. 
10. Padre DE LOZERAN DU FESC (de la Compagnie de Jesus, Prof. Royal 
de Math. à l'Université de Perpignan). Dissertation sur Ia cause et Ia nature du 
tonnerre et des éclairs. Paris, 1727, p. 34. 
CAPÍTULO V 
O conhecimento unitário e pragmático como 
obstáculo ao conhecimento científico 
 
I 
Estudamos a função generalizante e seu perigo a respeito de experiências 
ou de intuições tão definidas quanto possível, tais como a coagulação, a 
fermentação e a função mecânica da esponja. Mas há ainda a sedução de 
generalidades bem mais amplas. Será, então, não mais o caso de pensamento 
empírico, mas de pensamento filosófico. Aí, uma suave letargia imobiliza a 
experiência; todas as perguntas se apaziguam numa vasta Weltanschauung; todas 
as dificuldades se resolvem diante de uma visão geral de mundo, por simples refe-
rência a um princípio geral da Natureza. Foi assim que, no século XVIII, a idéia de 
uma natureza homogênea, harmônica, tutelar apagou todas as singularidades, 
todas as contradições, todas as hostilidades da experiência. Vamos mostrar que tal 
generalidade \u2014 e outras generalidades conexas \u2014 são, de fato, obstáculos para o 
pensamento científico. Dedicaremos poucas páginas a esse ponto, pois é fácil de 
provar. Em especial, para não alongar demais este livro, não citaremos escritores 
nem filósofos. Por exemplo, um estudo meticuloso pode mostrar que a obra de 
Bernardin de Saint-Pierre é uma longa paródia do pensamento científico. Há 
também muito a dizer da física sobre a qual se apóia a filosofia de Schelling. Mas, 
tais autores, aquém ou além do pensamento científico, pouca influência têm sobre 
a evolução do conhecimento objetivo. 
O aspecto literário é, porém, um sinal importante, por vezes mau sinal, dos 
livros pré-científicos. À harmonia em grandes traços, junta-se uma grandiloqüência 
que precisamos caracterizar e que deve chamar a atenção do psicanalista. É a 
marca inegável de uma valorização abusiva. Daremos apenas alguns exemplos, 
porque são páginas das mais enfadonhas e inúteis que os "Físicos" já redigiram. 
Em um livro escrito sob a forma de cartas familiares, um autor desconhecido 
assim começa o seu Planétaire ou abrégé de l\u2019histoire du Caiei [Planetário ou 
resumo da história do Céu]: "Será ousado demais querer voar até a abóbada 
celeste? Quem me acusará de temeridade por querer eu examinar essas tochas 
que parecem suspensas no arco do firmamento?" O mesmo autor, em sua 29a 
carta, assim aborda a questão da Luz: 
 
Quão sublimes as palavras de que se serviu Moisés para nos transmitir a 
vontade de Deus \u2014 Fiat luz, et faca est \u2014 nenhuma distância entre o 
pensamento e a ação... Essa Expressão é tão maravilhosa e tão divina, que 
eleva a alma tanto quanto a inunda de respeito e admiração... É desse fluido 
tão precioso, desse Astro luminoso, desse elemento que ilumina o universo, 
da luz, enfim, que se deve tratar, procurar suas causas e demonstrar seus 
efeitos. 
 
A mesma admiração religiosa se encontra no Discurso de 105 páginas que 
serve de introdução à Physique génêrale et particulière do conde de La Cépède:1 
"Consideramos a luz, esse ser que, cada dia, parece produzir de novo o universo a 
nossos olhos e nos retraça a imagem da criação". Pode-se, aliás, captar o que há 
de pouco objetivo nessa admiração. De fato, se afastarmos os valores 
inconscientes que, a cada manhã, vêm consolar o coração do homem mergulhado 
na noite, acharemos bem pobre e pouco sugestiva essa "imagem da criação", 
oferecida pela aurora radiosa. Depois de um esforço de análise, o conde de La 
Cépède oferece uma síntese comovente (p. 17): 
 
Já examinamos em separado as diversas partes que compõem o esqueleto 
da natureza; reunamos essas partes, vamos revesti-las com seus brilhantes 
adereços e compor esse corpo imenso, animado, perfeito, que constitui 
propriamente essa natureza poderosa. Que magnífico espetáculo apresenta-
se a nossos olhos! Vemos o universo estender-se e expandir-se; uma 
multidão incontável de globos com luz própria brilham com esplendor... 
 
Quando tal admiração inspira um literato, depara-se com uma confidencia 
bem mais íntima e mais discreta. Trata-se menos do espetáculo admirável e mais 
do homem admirante que se admira e que se ama. No limiar de um estudo 
psicológico, antes que comece o romance, antes da confidencia, uma paisagem 
pode preparar o estado de espírito, estabelecer um vínculo simbólico entre a obra e 
o leitor. No limiar de uma demonstração de física, tais arroubos de admiração \u2014 
mesmo se eficazes \u2014 só poderiam preparar valorizações nocivas. Todo alarde 
literário só pode levar a desilusões. 
E claro que todo autor gosta de valorizar o assunto que escolheu. Quer 
mostrar, desde o prefácio, que o assunto vale a pena. Mas os atuais procedimentos 
de valorização, por mais repreensíveis que sejam, são mais discretos; estão estrei-
tamente ligados ao conteúdo da obra. Já ninguém ousa dizer, como C. de la 
Chambre,2 que o assunto tratado, A Luz, vai encontrar aplicação na luz do espírito, 
da honra, do mérito, da virtude. Não se aceitam argumentos tais como (Avant-
Propos, III): 
 
A Luz anima e alegra toda a Natureza; onde ela falta, não há alegria, nem 
força, nem vida; só há horror, fraqueza, vácuo. 
A luz é, portanto, a única de todas as criaturas sensíveis que se assemelha 
e é conforme à Divindade. 
 
Essa necessidade de elevar os assuntos está ligada a um ideal de perfeição 
concedido aos fenômenos. Nossas observações são, portanto, menos superficiais 
do que parecem, pois a perfeição vai servir de índice e de prova para o estudo dos 
fenômenos físicos. Por exemplo, para encontrar a essência da luz, C. de la 
Chambre formula a seguinte questão (p. 99): "Vejamos se conseguimos descobrir 
uma coisa que ofusque o espírito tanto quanto os olhos". Trata-se, assim, de 
colocar a luz numa escala de perfeição que vai da matéria a Deus, da obra ao 
operário. "Às vezes, fica bem claro que o valor atrapalha a tabela de presença: o 
autor em questão recusa-se a estabelecer qualquer relação entre as madeiras 
podres que brilham (por fosforescência) e as "substâncias tão puras e nobres como 
são as Estrelas". Em compensação, C. de la Chambre fala \u201cdos anjos\u201d... cuja 
extensão tem tanta relação com a da Luz" (p. 301). A idéia de perfeição será 
suficientemente