bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
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Como expressar melhor que a alma do cobre, que a substância preciosa do 
cobre, está no seu interior! Logo, é preciso encontrar o meio 
 
de retirar pouco a pouco, quase insensivelmente, esse corrosivo do cobre, a 
fim de que (o cobre) possa manter-se revirado e suave, tanto quanto com 
sua propriedade luminosa e luzente. 
Por isso, a notação psicológica do vira-se do avesso como uma luva está 
muito arraigada no inconsciente. Deu origem, como se vê, a um falso conceito de 
substância. Parece que não foi a luva que deu a lição inicial. A clareza consciente 
da imagem esconde, como de costume, o princípio da convicção inconsciente. 
Espíritos mais próximos do pensamento científico aceitam essa estranha 
imagem do virar do avesso as substâncias e até a adotam como tema orientador. 
Boerhaave,4 ao relatar as idéias dos alquimistas, reflete sobre os símbolos do ouro 
(um círculo) e da prata (um crescente formado de dois arcos de círculo, um 
côncavo e um convexo). Afirma que o crescente denota "o que é semi-ouro: o que 
se tornará ouro perfeito sem mistura com nenhuma matéria heterogênea ou 
corrosiva, se for conseguido virar para fora o que está dentro". Percebe-se, aliás, 
neste exemplo, que o pensamento pré-científico está muito ligado ao pensamento 
simbólico. Para ele, o símbolo é uma síntese ativa do pensamento com a experiên-
cia. Numa célebre carta filosófica5 impressa depois do Cosmopolite em 1723, lê-se: 
"Quem sabe reduzir as virtudes centrais do ouro à sua circunferência adquire as 
virtudes de todo o Universo numa única Medicina". Como melhor expressar que 
uma virtude material é homóloga a uma força psicológica íntima? 
Pode haver contradição entre "o exterior e o interior" de uma substância (p. 
53): "O ouro parece e é exteriormente fixo, mas, interiormente, é volátil". Expressão 
muito curiosa, fruto de imaginação pessoal porque não se percebe a que qualidade 
corresponde essa volatilidade íntima. Na mesma época, em 1722, Crosset de la 
Heaumerie6 escreve: "O mercúrio, embora branco por fora... é vermelho por 
dentro... A cor vermelha... surge quando ele é precipitado e calcinado ao fogo". 
Aqui, o químico vai reconhecer a oxidação do mercúrio e poderá mostrar uma 
racionalização do pensamento alquímico. Mas é bem verdade que essa 
racionalização não tem nada a ver com o pensamento sonhador do alquimista, que 
buscava ver a matéria de um ponto de vista íntimo. 
Se a substância tem um interior, é preciso vasculhá-la. Tal operação é 
chamada "a extração ou a excentricidade da alma". O Cosmopolite (p. 109) diz ao 
mercúrio que foi tão "sacudido e vasculhado": "Dize-me se estás em teu núcleo, e 
deixar-te-ei em paz". Nesse interior, "no centro do mínimo átomo dos metais 
encontram-se as virtudes ocultas, sua cor, seus tons". É fácil perceber que as 
qualidades substanciais são pensadas como qualidades íntimas. Da experiência, o 
alquimista recebe mais confidencias do que ensinamentos. 
De fato, desse centro, não se pode ter nenhum tipo de experiência direta, e 
um espírito positivo logo vê que todas as propriedades ativas necessariamente se 
"superficializam". Mas, entre os processos fundamentais do pensamento 
inconsciente, o mito do interior é um dos mais difíceis de ser exorcizado. A nosso 
ver, a interiorização pertence ao domínio do sonho. Ela aparece em plena força nos 
contos fantásticos. Neles, o espírito usa de toda a liberdade com a geometria. O 
grande cabe no pequeno. Assim, num conto de Nodier, Tesouro das Favas, 
carregando três litros de feijão ao ombro, entra num grão-de-bico. É verdade que 
esse grão-de-bico é a carruagem da fadinha Flor das Ervilhas. Também, em outro 
conto, quando o carpinteiro Michel tem de entrar na casa da Fada das Migalhas, 
ele exclama: "Céus! Fada das Migalhas... passa pela sua cabeça que vamos 
conseguir entrar aí?" Ele acabava de descrever a casa como um bonito brinquedo 
de papelão pintado. Mas, abaixando-se um pouco, guiado pela mão da fada, o 
grandalhão Michel consegue ajeitar-se na casinha. Logo sente-se muito à vontade, 
bem protegido... É o que se passa com o alquimista, que sonha com o poder de 
seu ouro dissolvido no mercúrio. A criança que brinca com a casinha de papelão 
pintado também mora nela com todas as alegrias de proprietário. Contistas, 
crianças, alquimistas vão ao cerne das coisas; tomam posse das coisas; crêem nas 
luzes da intuição que nos instala no coração do real. Apagando o que existe de 
pueril e preciso nesta Einfühlung, esquecendo o erro geométrico original do grande 
que cabe no pequeno, o filósofo realista acha que pode seguir a mesma via e 
realizar as mesmas conquistas. O realista acumula então na substância, como o 
homem previdente na despensa, os poderes, virtudes, forças, sem perceber que 
toda força é relação. Ao povoar, assim, a substância, também ele entra na casa de 
fadas. 
 
III 
A substancialização de uma qualidade imediata percebida numa intuição 
direta pode entravar os futuros progressos do pensamento científico tanto quanto a 
afirmação de uma qualidade oculta ou íntima, pois tal substancialização permite 
uma explicação breve e peremptória. Falta-lhe o percurso teórico que obriga o 
espírito científico a criticar a sensação. De fato, para o espírito científico, todo 
fenômeno é um momento do pensamento teórico, um estágio do pensamento 
discursivo, um resultado preparado. É mais produzido do que induzido. O espírito 
científico não pode satisfazer-se apenas com ligar os elementos descritivos de um 
fenômeno à respectiva substância, sem nenhum esforço de hierarquia, sem 
determinação precisa e detalhada das relações com outros objetos. 
Para mostrar quão insuficiente é a atribuição direta segundo o método do 
realismo imediato, vamos dar vários exemplos. Veremos assim como se constituem 
as falsas explicações substancialistas. 
Que os corpos leves se prendem num corpo eletrizado, é a imagem imediata 
\u2014 aliás, bem incompleta \u2014 de certas atrações. Dessa imagem isolada, que 
representa apenas um momento do fenômeno total e que não deveria ser aceita 
numa descrição correta se não estivesse bem delimitada, o espírito pré-científico 
vai fazer um meio absoluto de explicação e, por conseguinte, imediato. Em outras 
palavras, o fenômeno imediato será tomado como sinal de uma propriedade 
substancial: toda busca científica logo será interrompida; a resposta substancialista 
abafa todas as perguntas. É assim que se atribui ao fluido elétrico a qualidade 
"viscosa, untuosa, tenaz". Priestley7 diz: 
 
A teoria de Boyle sobre a atração elétrica era que o corpo Elétrico lançava 
uma emanação viscosa que ia apanhando pequenos corpos pelo caminho e 
os trazia com ela, ao voltar ao corpo de onde tinha saído. 
 
Como esses raios que vão buscar os objetos, raios que fazem ida e volta, 
são, claramente, adjunções parasitas, percebe-se que a imagem inicial equivale a 
considerar o bastão de âmbar eletrizado como um dedo lambuzado de cola. 
Se essa metáfora não fosse interiorizada, o mal não seria tão grande; 
sempre é possível afirmar que ela não passa de um meio de traduzir, de expressar 
o fenômeno. Mas, no fundo, não se limita a descrever com uma palavra; quer 
explicar por meio de um pensamento. Pensa-se como se vê, pensa-se o que se vê: 
a poeira gruda na parede eletrizada, logo, a eletricidade é uma cola, um visco. É 
assim adotada uma falsa pista em que os falsos problemas vão suscitar 
experiências sem valor, cujo resultado negativo nem servirá como advertência, a tal 
ponto a imagem primeira, a imagem ingênua, chega a cegar, a tal ponto é decisiva 
sua atribuição a uma substância. Diante de um fracasso na verificação, sempre é 
possível pensar que ficou disfarçada, oculta, uma