bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
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qualidade substancial que deve 
aparecer. Se o espírito continua a pensar assim, pouco a pouco torna-se 
impermeável aos desmentidos da experiência. O modo como Priestley se expressa 
mostra com clareza que ele nunca duvida da qualidade viscosa do fluido elétrico: 
 
Jacques Hartmann quis provar por meio de uma experiência que a atração 
elétrica é de fato produzida pela emissão de partículas viscosas. Ele pegou 
duas substâncias elétricas, isto é, dois pedaços de colofônio, e reduziu um 
deles, por destilação, até ficar com a consistência de um ungüento preto, e o 
privou, assim, de seu poder atrativo. Ele disse que aquele que não foi 
destilado conservou sua substância viscosa, ao passo que o outro ficou 
reduzido, pela destilação, a um verdadeiro Caput mortuum, e não conservou 
nada da substância betuminosa. Em conseqüência dessa hipótese, ele acha 
que o âmbar atrai os corpos leves com mais força do que as outras 
substâncias, porque oferece, em mais abundância do que elas, emanações 
untuosas e tenazes. 
 
Ora, essa experiência é mutilada; falta-lhe exatamente a parte positiva. Teria 
sido preciso examinar o produto resultante da refrigeração das partes 
empireumáticas do colofônio e constatar que a substância elétrica, viscosa, 
untuosa e tenaz aí tinha ficado concentrada. Isso não foi feito, é claro! Destruíram a 
qualidade para provar que ela existia, pela mera aplicação de uma tabela de 
ausência. Pois a convicção substancialista é tão forte que se satisfaz com pouco. E 
é também prova de que a convicção substancialista inviabiliza a variação da 
experiência. Se encontrar discrepâncias nas manifestações da qualidade íntima, 
ela logo as explica por uma intensidade variável: o âmbar é mais elétrico que as 
outras substâncias porque é mais rico em ria viscosa, porque sua cola é mais 
concentrada. 
Eis um segundo exemplo, bem nítido, que mostra os estragos causados pela 
atribuição direta, à substância., dos dados imediatos da experiência sensível. Em 
livro relativamente recente (Floréal an XI), Aldini,8 sobrinho de Galvani, refere-se a 
uma carta de Vassalli: "Rossi me garantiu que o fluido galvânico toma diferentes 
propriedades dos animais vivos e dos cadáveres pelos quais ele passa". Em outras 
palavras, a substância da eletricidade se impregna das substâncias que atravessa. 
De maneira mais exata, prossegue Aldini (p. 210), 
obtive os seguintes resultados de descargas sucessivas da mesma pilha: 
através da urina, 5 de força, gosto muito ácido, clarão branco; através do 
leite, 4 de força, gosto doce, ligeiramente ácido, clarão vermelho; através do 
vinho, 1/2 de força, gosto ligeiramente ácido; através do vinagre, 2 de força, 
gosto picante, clarão vermelho; através da cerveja, V2 de força, gosto 
picante, clarão esbranquiçado... através da solução de muriato de sódio, 10 
de força; nesta experiência e nas seguintes não dava para suportar a 
sensação na língua... 
 
Com toda a razão, visto que o "muriato de sódio", bom condutor, devia 
produzir uma corrente de intensidade bem maior que a dos líquidos anteriores, 
piores condutores de eletricidade. Mas, deixando de lado esta última observação 
correta, tentemos entender por meio de qual dispositivo foi possível descobrir o 
sabor da corrente elétrica. Só poderia ser de acordo com as sugestões 
substancialistas. O fluido elétrico foi considerado como um verdadeiro espírito 
material, uma emanação, um gás. Se essa matéria sutil atravessasse um tubo 
contendo urina ou leite, ou vinagre, iria ficar diretamente impregnada do gosto 
dessas substâncias; ao encostar dois eletrodos na ponta da língua, a pessoa 
sentiria o sabor dessa corrente elétrica material modificada pela passagem através 
de diferentes matérias; seria, portanto, muito ácida como a urina, ou doce como o 
leite, ou picante como o vinagre. 
Se o sentido considerado for o tato, em idênticas condições experimentais, a 
afirmação será menos categórica, porque o tato é menos sensível que o gosto. 
Como o macaco da fábula, não se sabe por que não se consegue distinguir direito, 
mas distingue-se assim mesmo (p. 211): 
 
Em todas essas experiências, tinha-se uma sensação muito diferente nos 
dedos... a sensação apresentada pelo fluido ao passar pelo ácido sulfúrico 
era aguda; a que ele oferecia ao passar pelo muriato de amônio... era a de 
um corpo gordo; através do leite, parecia que ficava meio doce. 
 
Assim, como o leite é doce ao paladar e untuoso ao tato, ele conserva a 
doçura e a untuosidade até no fenômeno da corrente elétrica que acaba de 
atravessá-lo. Essas falsas qualidades atribuídas pela intuição ingênua à corrente 
elétrica são, a nosso ver, uma ilustração cabal da influência do obstáculo 
substancialista. 
Para melhor perceber a falha dessa orientação sensualista da ciência, basta 
compará-la, neste caso preciso, com a orientação abstrata e matemática que 
consideramos decisiva e correta. O conceito abstrato que Ohm utilizou alguns anos 
depois para designar os diferentes condutores foi o conceito de resistência. Esse 
conceito libera a ciência de qualquer referência a qualidades sensíveis diretas. 
Talvez se possa objetar que o conceito de resistência ainda é muito ligado a uma 
imagem. Mas, ligado aos conceitos de intensidade e de força eletromotora, o 
conceito de resistência perde aos poucos o valor etimológico e torna-se metafórico. 
O conceito torna-se então o elemento de uma lei complexa, lei afinal muito 
abstrata, unicamente matemática, que constitui uma espécie de núcleo de 
conceitos. Então, admite-se que a urina, o vinagre, o leite possam ter efeitos 
específicos, mas esses efeitos só serão registrados através de uma noção de fato 
abstrata, isto é, sem significado imediato no conhecimento concreto, sem 
referência direta à sensação primeira. A resistência elétrica é uma resistência 
depurada por uma definição precisa; está incorporada numa teoria matemática que 
lhe limita qualquer extensão abusiva. O empirismo fica assim, de certa forma, 
aliviado; não tem a obrigação de dar conta de todos os caracteres sensíveis das 
substâncias sujeitas à experiência. 
Parece que, em poucas linhas, conseguimos esboçar a nítida oposição, a 
poucos anos de distância, entre o espírito pré-científico representado por Aldini e o 
espírito científico representado por Ohm. Sobre um exemplo concreto, 
apresentamos assim uma das principais teses deste livro, que é a da supremacia 
do conhecimento abstrato e científico sobre o conhecimento primeiro e intuitivo. 
A intuição substancialista de Aldini a respeito do fluido galvânico não é 
exceção. É o pensamento habitual do século XVIII. Aparece de forma mais sucinta, 
mas talvez ainda mais instrutiva, em vários textos. Por exemplo, o fogo elétrico é 
um fogo substancial. Mas o que convém destacar é que acham que ele participa da 
substância da qual é tirado. A origem substancial é sempre muito difícil de 
exorcizar. Le Monnier escreve na Encyclopédie (verbete Fogo elétrico): a luz que 
sai dos corpos atritados 
 
é mais ou menos viva de acordo com a natureza desses corpos; a do 
diamante, das pedras preciosas, do vidro etc. é mais branca, mais viva e 
tem muito mais brilho do que a que sai do âmbar, do enxofre, do lacre, das 
resinas ou da seda. 
 
Grifamos a palavrinha etc, porque ela sozinha já merece um longo 
comentário. Demonstra um tipo de pensamento. Se esse empirismo fosse correto, 
se juntasse e registrasse fielmente as experiências realizadas de fato, a 
enumeração teria de estar concluída. Mas o autor é iluminado por uma evidência 
primeira: esses corpos brilhantes e brancos desde a primeira aparência, por seu 
brilho natural, irão projetar, quando tiverem sido eletrizados,