bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
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Blaise VIGÉNÈRE. Traicté du feu et du sel. Paris, 1622, p. 25. 
32. Abbé DE VALLEMONT. Curiositez de la Nature et de l'Art sur la végétation ou 
l'Agriculture et le Jardinage dans leur perfection. Paris, 1709, p. 279. 
33. Abbé Pierre-Jean FABRE (Docteur en la Faculté de Médecine de l'Université de 
Montpellier). L'Abrégé des secrets chymiques. Paris, 1636, p. 83. 
34. Leon BRUNSCHVICG. La Connaissance de soi. Paris, p. 68. 
35. Herman BOERHAAVE, Op. cit., v. 1, p. 101. 
36. HERMAN BOERHAAVE, op. cit., V. 1, p. 10. 
37. T*** D. M. M. Mémoire physique et médical, montrant des rapports évidents entre les 
phénomènes de la Baguette divinatoire, du Magnétismne et de l'Electricité. Londres, Io v. 1781, 2o 
v. 1784, v. 1, p. 94. 
\u2022 Abbé BERTHOLON. De Vélectriàté du corps humain..., op. cit., v. 1, p. 205. 
 
CAPÍTULO VII 
Psicanálise do realista 
 
Para bem caracterizar o fascínio da idéia de substância, será preciso 
procurar-lhe o princípio até no inconsciente, no qual se formam as preferências 
indestrutíveis. A idéia de substância é tão clara, tão simples, tão pouco discutida, 
que deve apoiar-se numa experiência bem mais íntima que qualquer outra. 
Vamos, portanto, partir de algumas observações que poderão parecer 
exageradas. Até nós ficamos chocados no início de nossas reflexões. Depois, as 
intermináveis leituras que fizemos dos livros de alquimia, as sondagens 
psicológicas que pudemos efetuar no decorrer de um magistério longo e diversifi-
cado, puseram-nos diante de convicções substancialistas tão ingênuas que já não 
hesitamos em fazer do realismo um instinto e em propor a seu respeito uma 
psicanálise especial. De tato, a convicção primeira do realismo não é discutida, 
como nem chega a ser ensinada. De forma que o realismo pode, com razão, ser 
considerado a única filosofia inata, o que não nos parece vantagem. Para aquilatá-
lo, é preciso ultrapassar o plano intelectual e compreender que a substância de um 
objeto é aceita como um bem pessoal. Apossa-se dela espiritualmente como se 
toma posse de uma vantagem evidente. Siga a argumentação de um realista; 
imediatamente ele está em vantagem sobre o adversário porque tem, acha ele, o 
real do seu lado, porque possui a riqueza do real, ao passo que seu adversário, 
Uno pródigo do espírito, persegue sonhos vãos. Em sua forma ingênua, em sua 
forma afetiva, a certeza do realista provém de uma alegria avarenta. Para bem 
explicitar nossa tese, vamos afirmar em tom polêmico: do ponto de vista 
psicanalítico e nos exageros da ingenuidade, todo realista é um avarento. 
Reciprocamente, e neste sentido sem reservas, todo avarento é realista. 
A psicanálise a ser instituída para a terapia do substancialismo deve ser a 
psicanálise do sentimento de ter. O complexo a ser desfeito é o complexo do 
pequeno lucro, que, para simplificar, pode ser chamado de complexo de Harpagon. 
É o complexo do pequeno lucro que chama a atenção para as pequenas coisas 
que não se devem perder porque, uma vez perdidas, a pessoa não as encontra 
mais. Assim, um objeto pequeno é guardado com muito cuidado. O vaso frágil é o 
que vai durar mais. Não perder nada é, de saída, uma prescrição normativa. Essa 
prescrição torna-se, em seguida, uma descrição: passa do normativo para o 
positivo. Enfim, o axioma fundamental do realismo não provado \u2014 nada se perde, 
nada se cria \u2014 é uma afirmação de avarento. 
O complexo do pequeno lucro já foi muito estudado na psicanálise clássica. 
Só vamos abordá-lo na medida em que constitui obstáculo à cultura científica, na 
medida em que inflaciona um tipo de conhecimento particular, valoriza matérias e 
qualidades. Sou obrigado a propor a discussão de modo oblíquo, insistindo 
primeiro em valorizações na aparência objetivas. Assim, é verdade que as pedras 
preciosas são, nas sociedades atuais, valores materiais indiscutíveis. Mas, ao acei-
tar como fundamentada essa valorização social, é interessante ver como ela se 
estende a outros campos alheios à valorização inicial, como ao da farmácia. Esse 
deslize já foi muito indicado, mas talvez ainda não tenham sido apresentados os 
matizes afetivos dessa valorização secundária. Vamos, num primeiro parágrafo, 
caracterizar rapidamente essa primeira mutação de valores para preparar o exame 
de valorizações mais subjetivas. Mostraremos, daqui a algumas páginas, a 
contribuição de textos bem menos conhecidos nos quais transparece a afetividade 
pesada e confusa dos autores. Aliás, em nossas demonstrações, não podemos dar 
conta de tudo, porque, em vista da natureza deste livro, não podemos fazer 
psicologia direta; só temos direito à psicologia de reflexo, resultado de reflexões 
sobre a teoria do conhecimento. É, portanto, no próprio ato de conhecer que 
devemos detectar o distúrbio produzido pelo sentimento predominante do ter. É 
apenas nele \u2014 e não na vida corrente, que pode oferecer tantas provas! \u2014 que va-
mos mostrar essa avareza direta e inconsciente, avareza que, por não saber 
contar, atrapalha todas as contas. Encontraremos uma forma talvez ainda mais 
primitiva dessa avareza no mito da digestão, quando tratarmos do obstáculo 
animista. Para um exame mais completo do problema, o leitor poderá consultar, por 
exemplo, o curioso livro de R. e Y. Alinda: Capitalismo et Sexualité. 
 
II 
Primeiro, é surpreendente que "as matérias preciosas" tenham mantido, por 
tanto tempo, um lugar privilegiado nas pesquisas pré-científicas. Mesmo no 
momento em que aparece o espírito crítico, ele respeita o valor que está atacando. 
Basta examinar as numerosas páginas dedicadas às pedras preciosas nos tratados 
de Matéria médica do século XVIII para admitir essa induração de crenças antigas. 
Nossa demonstração ficaria mais fácil, mas teria menos sentido, se focalizássemos 
épocas mais remotas. Vejamos, pois, o embaraço do espírito pré-científico diante 
de preconceitos grosseiros. Mesmo quando as crenças são eivadas de superstição, 
é preciso examinar com atenção para ter certeza que o autor livrou-se delas. 
Primeiro, ele sente a necessidade de registrá-las; deixar de referir-se a elas 
equivaleria a decepcionar o público, quebrar a continuidade da cultura. Mas, em 
seguida, o que é mais grave, quase sempre o autor assume a tarefa de corrigi-las 
parcialmente, efetuando assim a racionalização a partir de uma base absurda, 
como já mostramos inspirando-nos no psicanalista Jones. Essa racionalização 
parcial está para o conhecimento empírico como a sublimação dos instintos está 
para a produção estética. Mas, no caso, a racionalização prejudica a pesquisa 
puramente racional. A mistura de pensamento erudito, de pensamento 
experimental é, com efeito, um dos maiores obstáculos para o espírito científico. 
Não se pode completar uma experiência que não se recomeçou, pessoalmente, de 
ponta a ponta. Não se possui um bem espiritual quando não foi ele adquirido 
inteiramente por esforço pessoal. O primeiro sinal da certeza científica é o fato de 
ela poder ser revivida tanto em sua análise quanto em sua síntese. 
Mas, vejamos alguns exemplos em que, apesar de críticas agudas, a 
experiência mais ou menos exata vem juntar-se à tradição completamente 
equivocada. No Traité de la Matière médicale, de Geoffroy,1 tratado que expressa 
uma vasta cultura e que foi extraordinariamente conhecido no século XVIII, lê-se: 
 
Além das virtudes supersticiosas atribuídas (à esmeralda) que não 
citaremos, é crença comum que ela estanca as hemorragias, as disenterias, 
o fluxo hemorroidal. Ela é utilizada junto com outros fragmentos de pedras 
preciosas no Eletuário que é preparado, e na Confecção de Jacinto, com o 
jacinto e a safira. 
 
É impossível dar melhor demonstração de que a superstição é uma antiga