bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
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sabedoria que basta modernizar e aparar, para descobrir-lhe o verdadeiro valor. 
Já que há alguma verdade nessa tradição, serão feitas objeções e 
encontradas respostas, sem mais nenhuma preocupação com experiências 
positivas. Geoffroy diz à p. 158: 
 
Podem objetar que esses fragmentos (de esmeralda) são tão duros que 
resistem quase sempre à água-forte e que, por conseguinte, o lêvedo do 
estômago não consegue dissolvê-los e eles saem do jeito que eram ao 
serem tomados. Mas tal objeção não tem valor. Porque a esmeralda 
colocada sobre brasas acende-se como o enxofre e, quando sua cor verde 
se exala com a chama, a pedra fica diáfana e incolor como o cristal... Com 
certeza o que é feito por meio do fogo... pode ser feito pelo calor natural e 
pela linfa estomacal. Embora a substância cristalina dessas pedras não se 
dissolva, pode a parte sulfurosa e metálica separar-se da parte cristalina e, 
assim liberada, exercer suas propriedades sobre os líquidos do corpo 
humano. 
 
Portanto, a ação médica pretendida se dá por meio de uma quintessência, 
de uma cor que substantifica de certo modo a parte mais preciosa da pedra 
preciosa. Essa propriedade, apresentada como simples possibilidade, visto que 
nunca se conseguiu constatar a "descoloração" das esmeraldas pela ação 
estomacal, não passa, a nosso ver, de substituta do valor imediato, substituta do 
prazer que se tem ao contemplar o brilho verde e suave da esmeralda. Ela é tão 
valorizada pela ciência farmacêutica quanto pela poesia. As metáforas do boticário 
não contêm mais realidade que as metáforas de Remy Belleau quando, cantava a 
cor e a virtude da esmeralda, 
 
Cor que reúne e congrega 
A força dos olhos abatida 
Por demorados e súbitos olhares, 
E que reabastece de chamas suaves 
Os raios desmaiados, cansados ou embotados 
De nosso olhar, quando estão esparsos. 
 
Portanto, as possibilidades e os sonhos que trabalham o inconsciente 
bastam para que Geoffroy peça respeito pela sabedoria antiga (p. 159): "Não se 
deve pois proscrever sem motivo as pedras preciosas das fórmulas Farmacêuticas, 
recebidas desde há muito e aprovadas por uma longa e feliz paciência". Respeitar 
uma ciência que não se entende! Isso significa substituir por valores subjetivos os 
valores objetivos do conhecimento experimental. E lidar com duas avaliações dife-
rentes. O médico que ordena ao doente uma preparação de esmeralda já tem a 
garantia de que o doente conhece um valor, o valor comercial do produto. Sua 
autoridade de médico só precisa reforçar um valor existente. Nunca é demais lem-
brar a importância psicológica do acordo entre a mentalidade do doente e a do 
médico, acordo fácil na era pré-científica. Esse acordo dá um destaque especial e, 
por conseguinte, um valor maior a certas práticas médicas. 
Também é interessante estudar o aparelho doutrinai dos portanto e dos é 
por isso que, por meio dos quais as pessoas de autoridade ligam os preconceitos 
antigos aos costumes comuns. Por exemplo, a respeito do topázio, escreve 
Geoffroy (p. 160): 
 
Os Antigos lhe atribuíam à natureza do Sol: é por isso que se acha que 
diminui os medos noturnos e a depressão, que fortifica o coração e a mente, 
que impede os maus sonhos e estanca as hemorragias. É também usado na 
Confecção de Jacinto. 
 
Não se esgotou essa bivalência psicológica e física. Conhecemos 
medicamentos que, por meio de uma ação somática, acalmam certas depressões. 
Conhecemos também uma medicina psicológica. Mas não acreditamos em 
remédios bivalentes. Tal ambivalência sempre denota uma valorização impura. É 
preciso destacar que, para a maioria das pedras preciosas, o espírito pré-científico 
admite uma ação conjunta sobre o coração e sobre a mente. É um índice da 
convergência das alegrias da riqueza com as alegrias da saúde. Quando um me-
dicamento é considerado capaz de estancar uma hemorragia, isto é, quando se 
pensa que ele pode entravar a perda do bem mais precioso \u2014 o sangue \u2014, torna-
se um cordial em toda a acepção do termo. Geoffroy lembra (p. 153) as 
propriedades da cornalina que é, no dizer de Belleau, de encarnada cor: 
Os Antigos achavam que a Cornalina tornava o espírito alegre; que 
dissipava o medo, conferia audácia, impedia os feitiços e protegia o corpo 
contra toda espécie de venenos. A Cornalina pulverizada é para uso interno 
a fim de estancar toda espécie de fluxo de sangue: mas é pouco usada 
atualmente, porque temos outros remédios ainda melhores. 
 
Percebe-se que a restrição não é total. Permanece uma indecisão que 
revela a resistência aos sadios métodos científicos. 
Por vezes a ação da matéria preciosa é toda psicológica. O cavaleiro Digby2 
afirma, como se fosse evidente: "O diamante, a granada, a esmeralda... estimulam 
a alegria no coração". Percebe-se que tipo de alegria é assim substantificada. 
Nicolas Papin, provavelmente o pai de Denis Papin, acrescenta, o que é menos 
compreensível: "a safira, a esmeralda, as pérolas e outras favorecem a castidade". 
Mais uma vez, o dizer do médico coincide com a voz do poeta. Remy Belleau 
também enaltecia a castidade da esmeralda: 
 
Enfim, é tão casta e tão santa 
Que, assim que percebe a investida 
De alguma amorosa ação, 
Ela se encolhe e se quebra 
De vergonha por ver-se presa 
De alguma sórdida afeição. 
 
A ciência dos árabes merece o mesmo respeito que a ciência dos Antigos. 
Aliás, é curioso que, ainda hoje, a ciência árabe que nos traz a meditação do 
deserto continue a ser bem recebida. A respeito do ouro, Geoffroy3 escreve: 
 
Outrora os gregos não conheciam o uso do Ouro na medicina. Os árabes 
foram os primeiros que o recomendaram; misturavam-no em suas 
composições, depois de reduzi-lo em folhas. Achavam que o Ouro fortifica o 
coração, reanima as mentes e alegra a alma; por isso, garantiam que é útil 
para a depressão, os tremores e as palpitações cardíacas. 
Nos séculos mais materialistas, essa crença precisou ser sustentada por 
argumentos mais materiais. Assim, 
os Químicos acrescentam ainda que o ouro contenha um enxofre fixo mais 
forte; que, por ser incorruptível, se for ingerido e misturado ao sangue, 
preserva este de toda corrupção; restabelece e reanima a natureza humana 
do mesmo modo que o Sol, que é a fonte inesgotável desse enxofre e faz 
reviver toda a natureza. 
 
Não se pode encontrar melhor exemplo de raciocínio por participação, que 
consegue fundir num mesmo valor o ouro, o sol e o sangue! Sem dúvida, Geoffroy 
hesita em aceitar tais convergências, mas mesmo essa hesitação é característica 
do espírito pré-científico. É essa hesitação que nos faz afirmar que o pensamento 
pré-científico encontra-se aqui diante de um obstáculo ainda não superado, mas 
em via de sê-lo. Essa hesitação demanda uma psicanálise. Nos séculos anteriores, 
aceita-se de olhos fechados. Nos seguintes, não aparecem mais elucubrações 
como essas. Mas aí está o fato: em pleno século XVIII, Geoffroy afirma seu 
respeito pela Escola Árabe; não tem coragem, como diz, de "exilar o ouro de todas 
as preparações cordiais". 
Exilar o ouro! Afirmar tranqüilamente que o ouro não dá saúde, que o ouro 
não dá coragem, que o ouro não estanca o fluxo de sangue, que o ouro não dissipa 
os fantasmas noturnos, as más lembranças do passado e da culpa, que o ouro não 
é a preciosidade ambivalente que defende o coração e a alma! Isso exige um 
verdadeiro heroísmo intelectual; exige um inconsciente psicanalisado, isto é, uma 
cultura científica bem separada de qualquer valorização inconsciente. O espírito 
pré-científico do século XVIII não conseguiu essa liberdade de julgamento. 
Seria fácil mostrar mais exemplos dessas preciosas medicações tais