bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
266 pág.

bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico


DisciplinaPsicologia e Filosofia340 materiais1.509 seguidores
Pré-visualização50 páginas
e a seda não passam de excrementos dos corpos que tiveram vida" (p. 13). 
 
IV 
 
A vida concebida como propriedade generalizada leva a uma atraente tese 
filosófica, contanto que permaneça vaga e sustentada por uma simpatia indistinta 
que una todos os seres do Universo. Por isso, lembrar as aplicações precisas 
dessa tese é, na certa, provocar a reprovação no mundo dos filósofos. Parece que 
se ridiculariza uma convicção profunda, respeitável. Que saudades do tempo em 
que a tese da vida universal podia ser especificada sem cerimônia! Vamos mostrar 
algumas dessas especificações intempestivas para esboçar um estado de espírito 
ultrapassado. Neste item reuniremos várias citações atribuindo vida aos minerais. A 
Sra. Metzger não deixou de assinalar essa atribuição. Observou que, nos séculos 
XVII e XVIII, a química e a mineralogia eram, como ela bem o diz, "o inorgânico 
aplicado sobre o vivente", o que é propriamente a tese que expomos ao 
caracterizar como obstáculo a intuição animista nos fenômenos da matéria. Se 
voltamos a falar desse problema, é para mostrar a sua extensão. A nosso ver, a in-
tuição da vida tem um caráter afetivo que precisa ser destacado. Ela é menos 
intelectualista do que pensa a Sra. Metzger. É também mais duradoura; é 
encontrada em textos mais recentes que os que chamaram a atenção da Sra. 
Metzger. Na área da cultura intelectual, quanto mais recente for a falta, mais grave 
é o pecado... 
Em época um pouco longínqua, em 1640, Guillaume Granger9 assinala uma 
diferença entre os metais que manipulamos e os metais em seu meio natural. Ao 
examinar-lhes as propriedades, é preciso \u2014 diz ele \u2014 lembrar que estão agora 
"fora de suas matrizes e lugares naturais, completamente isolados da tutela e 
proteção da natureza". Nicolas de Locques,10 em 1664, desenvolve o mesmo tema: 
"As doenças dos minerais vêm de mais longe que dos Elementos... vêm de sua 
forma e das Virtudes que lhe estão ligadas, as quais lhes vêm dos Astros e do vício 
de sua Matriz". Segue uma longa enumeração dessas doenças congênitas. Ainda 
na mesma data, um químico tão célebre quanto Glauber sustenta as mesmas 
opiniões. O metal, tirado da terra da qual já não recebe alimento algum, pode muito 
bem ser comparado nesse estado ao homem velho, decrépito... a natureza 
conserva a mesma circulação de nascimento e morte tanto nos metais como nos 
vegetais e nos animais.11 
Em data mais próxima, e num autor dos mais célebres, aparecem 
afirmações também incríveis. Boerhaave12 afirma que o ar das Bermudas é tal que 
"até os Metais logo se destroem". 
Evidentes valorizações propiciam pontos de vista morais muito curiosos. 
Assim, para inúmeros autores a ferrugem é uma imperfeição. Também outro autor 
escreve em 1735 que, antes do pecado de Adão, "os minerais e metais não tinham 
ferrugem nas entranhas da terra". 
O conceito de doença, considerada como entidade clara e absoluta, é 
aplicado aos objetos do mundo material. Em fins do século XVIII, em 1785, De 
Bruno,13 num livro de experiências por vezes bem exatas, escreve: 
A ferrugem é uma doença à qual o ferro está sujeito... O ímã perde sua 
virtude magnética quando é corroído pela ferrugem. Alguns recuperam parte de 
sua força quando lhe retiram a superfície atacada por essa doença. 
Em 1737, um autor anônimo14 que, em outros momentos, demonstra ter 
espírito crítico, escreve: 
Há minas em que os metais ainda imperfeitos se aperfeiçoam, enfim, é 
costume encher os buracos onde haviam sido encontradas matérias metálicas 
ainda não completamente formadas; com o correr dos anos aí foram encontradas 
minas muito ricas. 
A Académie, em 1738, dá seu aval a afirmações deste tipo: há séculos são 
extraídas pederneiras das pedreiras situadas no Berry. Apesar dessa longa 
extração, 
 
as pederneiras não se esgotam nunca; assim que uma pedreira fica vazia, é 
fechada e, anos depois, volta a ter pederneiras como antes... As pedreiras e 
as Minas esgotadas tornam a encher-se, portanto, de novo e são sempre 
fecundas. 
 
A idéia de produção é tão predominante que a simples relação segundo a 
qual o conteúdo deve ser menor que o continente é desmentida sem hesitação. R. 
Decartes, o homônimo do grande filósofo, afirma que o ferro extraído das minas da 
ilha de Elba foi duas ou três vezes maior que a própria montanha. Outro autor, 
Dedu, escreve em 1862 sobre 
 
minas que não diminuem, independentemente da quantidade de matéria que 
delas se extraia; porque o ar vizinho toma o lugar do mineral e adquire-lhe a 
natureza. Temos várias dessas minas: há uma de salitre no Estado de 
Veneza e uma de ferro na Ilha de Elba. 
 
Além disso, é preciso deixar à reprodução metálica seu mistério e evitar abrir 
cedo demais as minas: 
 
Ao abrir uma Mina, alguns metais podem não estar concluídos; e, se a 
abertura da mina interromper a ação da Natureza, esses Metais podem ficar 
imperfeitos, sem conclusão, e todo o sêmen metálico contido na mina 
perderá sua força e propriedade; de modo que se tornará ingrato e estéril.15 
 
Outro autor importante, cuja obra foi estudada por numerosos mestres de 
forja e que foi traduzida em 1751 do espanhol para o francês, lembra também ele a 
fecundidade das minas de ferro da Ilha de Elba e acrescenta que em Potosi 
extraem-se das Minas 
 
pedras carregadas de Prata que se havia deixado aí alguns anos antes, 
porque antes elas não estavam carregadas. Tal fato acontece todos os dias 
e a abundância é tão contínua que só pode ser atribuída à ação do sêmen 
vegetativo da Prata. 
 
Às vezes, depara-se com tentativas de racionalização baseadas em 
comparações fáceis.16 Segundo Hecquet, 
 
os minerais crescem e renascem como as plantas, porque, se as estacas 
para enxerto das plantas formam raízes, os estilhaços das pedras ou dos 
diamantes que foram lapidados, se enterrados na terra, reproduzem outros 
diamantes e outras pedras ao cabo de alguns anos. 
No fim do século XVIII, ainda se encontram afirmações desse tipo. Em 1782, 
Pott17 relata vários casos de fecundidade mineral: 
 
Todos esses fatos, diz ele, provam a sucessiva reprodução dos metais, de 
maneira que os filões que foram explorados numa época precedente podem, 
ao cabo de certo tempo, encontrar-se de novo cheios de matérias metálicas. 
 
Crosset de la Heaumerie18 relata que, em alguns países, é costume espalhar 
na mina esgotada "fragmentos e limalha de ferro", ou seja, semeia-se ferro. Depois 
dessa semeadura, aguarda-se por quinze anos e 
 
ao fim desse tempo, extrai-se um grande volume de ferro... Não há dúvida 
de que essa multiplicação tão copiosa de ferro resulta do fato de o velho 
ferro que se jogou na terra ter-se apodrecido e misturado com o fermento 
seminal da mina dissolvido pela ação da chuva; de forma que a essência 
seminal do velho ferro, dissolvida e liberada dos laços que a mantinham 
presa, age mais ou menos como as outras sementes, atraindo como um ímã 
e transformando em sua natureza o ar, a água e o sal da terra, que se 
convertem em ferro no decorrer do tempo. 
 
Apesar de inúmeras buscas, não encontramos em livros do século XIX 
afirmações desse teor. O mito da fecundidade das minas é nitidamente 
incompatível com o espírito científico. É, ao contrário, marca profunda da 
mentalidade pré-científica. Aliás, depois de estudarmos a noção de germe, 
voltaremos a esse problema. Poderemos então provar que a intuição de 
fecundidade das minas procede da psicanálise. Por enquanto, desejamos apenas 
despertar o leitor moderno para essa introdução específica do conceito de vida 
num campo que lhe é 
 
V 
Independentemente dessas observações filosóficas gerais, certos 
progressos técnicos se