bachelard-gaston-a-formaçao do espírito científico
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DisciplinaPsicologia e Filosofia332 materiais1.507 seguidores
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deram por extensão do privilégio de explicação dos 
fenômenos biológicos. Assim, o microscópio foi, no início, usado para examinar 
vegetais e animais. Seu objeto primitivo é a vida. Só por acidente e raramente, ele 
serve para examinar os minerais. Aí é que se pode perceber com clareza como se 
torna obstáculo epistemológico uma ocupação habitual: revela o microscópio uma 
estrutura dos seres vivos íntima e desconhecida? Logo se estabelece uma 
estranha recíproca: se o microscópio revela uma estrutura num mineral, essa 
estrutura \u2014 para o espírito pré-científico \u2014 é indício de vida mais ou menos 
obscura, mais ou menos lenta, adormecida ou latente. Às vezes, tal indício não 
engana: quando é descoberta a origem animal dos corais, o fato é recebido como 
natural. Mas, outras vezes, o indício leva a um erro total. Por exemplo, vejamos 
como Robinet19 reúne conjeturas: 
 
Vi em vários asteróides vasos fibrosos, dispostos em forma de pequenos 
arcos, como sobre a membrana do ventrículo do estômago. Poderia mostrar 
uma infinidade de tubos, pêlos, fios, mamilos e tufos glandulares nos corpos 
mais compactos, mais duros, considerados brutos... Logo, já que a organi-
zação das partes sólidas do corpo animal é apenas o tecido das fibras 
capilares permeadas de glândulas que o compõem e que nele se encontram 
em bloco, em rede, em cordão, em lâmina, em borla, em arco, em espiral, 
com diversos graus de tensão, de rigidez, de elasticidade, não somos 
obrigados a admitir como corpos verdadeiramente organizados todos 
aqueles nos quais se encontra semelhante estrutura? 
 
Aqui está, exposta em toda a sua ingenuidade, a recíproca que havíamos 
mencionado. 
Ao apoiar-se nessa intuição fina e erudita das estruturas microscópicas, o 
devaneio pedante de Robinet20 perde as estribeiras, acumula as valorizações: 
 
Os minerais têm todos os órgãos e todas as faculdades necessárias à 
conservação de seu ser, isto é, à nutrição. Não dispõem da faculdade de 
locomoção, tanto quanto as plantas e alguns animais de concha como a 
ostra e o marisco. Isso porque não precisam ir em busca de alimento, o qual 
vem até eles. Essa faculdade, longe de ser essencial à animalidade, é, nos 
animais que a possuem, apenas um meio de contribuir para sua 
conservação... de modo que aqueles que não a têm podem ser vistos como 
Seres privilegiados, visto que com um meio a menos realizam a mesma 
finalidade... Estarei enganado, depois dessas observações, em considerar 
os minerais como privilegiados a esse respeito, já que, sem mudar de lugar, 
eles encontram alimento ao alcance de seus sugadouros? Se lhes faltar 
alimento, eles se ressentem e se enfraquecem, e não há dúvida de que 
sentem a dolorosa sensação de fome e o prazer quando a satisfazem... Se 
(o alimento) estiver misturado, eles sabem tirar o que lhes convém e rejeitar 
as partes impróprias: de outro modo, nunca ou quase nunca seria formado o 
ouro perfeito nem o diamante transparente. Aliás, eles possuem, como os 
outros animais, os órgãos internos necessários para filtrar o alimento, 
destilá-lo, prepará-lo e conduzi-lo a todos os pontos da substância que os 
forma. 
 
A valorização essencial do microscópio é a descoberta do oculto sob o 
manifesto, do rico sob o pobre, do extraordinário sob o usual. Leva a passagens 
extremas. De fato, a hipótese de Buffon sobre as moléculas de vida era quase 
forçosa. Pode subsistir um dualismo entre a matéria e a vida nas formas su-
periores; mas esse dualismo será mínimo no infinitamente pequeno. Um discípulo 
de Buffon, o abbé Poncelet, indica com clareza como a invenção do microscópio 
possibilitou estabelecer relações, que ele considera exatas, entre o vivente e o iner-
te. Percebe-se que as fantasias animistas persistem mesmo quando o olho está 
colocado por trás do microscópio:21 
 
Antes da invenção do microscópio, julgava-se a matéria a partir de relações 
muito vagas, palpáveis, grosseiras, como, por exemplo, pela extensão, 
divisibilidade, impenetrabilidade, forma externa etc. Mas, desde a invenção 
desse instrumento admirável, descobriram-se relações novas e até então 
desconhecidas, que abriram à Filosofia uma carreira interessante. De tanto 
variar, repetir, revirar as observações em todos os sentidos, conseguiu-se 
analisar a matéria quase ao infinito. Foi possível observar de fato partículas 
espalhadas por toda parte, sempre em movimento, sempre vivas, e outras, 
por assim dizer mortas, em estado de inércia. Donde, concluiu-se que a 
matéria é essencialmente dotada de duas forças, uma ativa e outra 
resistente, que podem ser vistas como dois dos principais agentes da 
Natureza. 
 
É assim proposta uma equivalência gratuita entre atividade e vida; um 
movimento vivo é sinal de vivacidade; logo, de vida (p. 19): 
 
Percebi, coisa surpreendente, que o movimento dessas partículas parece 
indestrutível, já que \u2014 caso essas partículas vivas venham a perder o 
movimento, como acontece quando o fluido no qual estão imersas e são 
vistas fica seco \u2014 ao devolver-lhes um novo fluido como a água comum... é 
como se elas revivessem de suas cinzas, voltassem à vida e se agitassem 
com a mesma vivacidade de antes de o movimento ter sido interrompido, e 
isso seis meses, um ano, dois anos após a sua aparente destruição. 
 
Graças a essa valorização animista de experiências microscópicas, o abbé 
Poncelet pode afirmar (p. 59) que existe 
 
uma grande afinidade entre as partículas vivas e brutas da matéria; essa 
afinidade, essa inclinação, essa tendência só podem ter por objeto a 
conservação do indivíduo: ora, essa tendência é muito parecida com o 
desejo... 
 
Como se vê, é a intuição do querer-viver apresentada mais de meio século 
antes de Schopenhauer. Aparece aqui, no plano dos estudos pré-científicos, o que 
lhe confere caráter superficial. De fato, para o físico como para o metafísico, essa 
intuição tem uma fonte comum, fonte que está no inconsciente. É inconsciente que 
interpreta toda continuidade como uma duração íntima, como um querer-viver, 
como um desejo... Enquanto a intuição animista permanece geral, ela nos abala e 
convence. Na escala das partículas, segundo o que escreve o abbé Poncelet, 
ela manifesta sua insuficiência. É, porém, nesse ponto que ela deveria verificar-se 
se fosse feito um controle objetivo. Mas, na realidade, trata-se apenas de 
prosseguir, com as novas imagens fornecidas pelo microscópio, os ancestrais 
devaneios. Que durante tanto tempo e tão literalmente alguém possa maravilhar-se 
com tais imagens é a melhor prova de que não passam de um sonho. 
VI 
Mas vamos ampliar a precisão de nossas observações, pondo em destaque 
a total inversão dos meios de explicação. Vamos mostrar que, em certo estágio do 
desenvolvimento pré-científico, são os fenômenos biológicos que servem de meio 
de explicação para os fenômenos físicos. E essa explicação não é uma simples 
referência à obscura intuição da vida, à surda emoção das satisfações vitais; é um 
desenvolvimento minucioso que aplica o fenômeno físico sobre o fenômeno 
fisiológico. Acima do mecanismo objetivo, é o mecanismo corporal que serve de 
instrutor. Por vezes, como veremos em vários exemplos, o corpo humano é, em 
toda a acepção do termo, um aparelho de física, um detector químico, um modelo 
de fenômeno objetivo. 
Vejamos, para começar, um exemplo de imagem anatômica privilegiada. E o 
caso das veias e dos pêlos. Um experimentador hábil como Fuss ainda apresenta, 
no fim do século XVIII, intuições tão ingênuas como as intuições de Descartes 
sobre o ímã. \u201cEnquanto com paciência, multiplicando e diversificando os arranjos, 
Fuss fabrica os melhores