A+Ideologia+do+Afeto (1)
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A+Ideologia+do+Afeto (1)


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Ideologias (fragmentos) 
Sergio Resende de Barros 
A evolução dos estudos da psicologia social fez perceber que não só as classes sociais, mas 
qualquer corporação ou grupo em qualquer tempo e lugar \u2013 e até mesmo os indivíduos por si 
mesmos \u2013 pensam ideologicamente. Todos nós pensamos condicionados por nossa vivência 
social. Esse condicionamento é natural e, portanto, inevitável. Nós pensamos ideologicamente, 
sem querer, nem perceber. Ou seja, esse condicionamento não se dá por caso pensado. De fato, 
até um certo ponto, o pensamento reflete a experiência de vida do seu autor. A ideologia é um 
fenômeno natural. Não é má, não é boa, mas simplesmente é o que é: um fato natural. Como diz 
Frederick WATKINS, a ideologia constitui algo que sempre esteve e sempre estará conosco. 
Decorre daí a possibilidade e a necessidade de recuperar o termo ideologia, a fim de que \u2013 além 
do significado negativo que herdou de Napoleão e foi acentuado pelo marxismo \u2013 readquira o 
significado positivo, original, em que pode designar uma produção de idéias novas, 
cientificamente elaboradas, como era intenção de Antoine de Tracy, ao criar o termo. É com esse 
sentido positivo e renovador que a ideologia do afeto surge e insurge contra a velha e superada 
ideologia da família patriarcal. 
Ainda hoje, uma das ideologias de maior impacto no mundo ocidental é a ideologia da família 
patriarcal, herdada da cultura romana. Nem sequer o individualismo, a ideologia do indivíduo, 
irrompendo radical nas revoluções liberais, na passagem da Idade Moderna para a 
Contemporânea, logrou suplantar a ideologia da família. Para esta, o elemento basilar da 
sociedade não é o indivíduo, mas sim a entidade familiar monogâmica, parental, patriarcal, 
patrimonial, isto é, a tradicional família romana, que veio a ser recepcionada pelo cristianismo 
medieval, que a reduziu à família nuclear, consagrando como família-modelo o pai, a mãe e o 
filho. Essa concepção restritiva da família bem servia, no plano ideológico, para justificar o 
domínio das terras pelos patriarcas antigos e, depois, pelos senhores feudais, corroborando a 
idéia-força de que a família patriarcal e senhorial é a base da sociedade. Ou seja, a sociedade 
humana não é uma sociedade de indivíduos, nem a sociedade política é uma sociedade de 
cidadãos, mas sim um agrupamento de famílias. O indivíduo sem a família é pouco mais do que 
ninguém: um deserdado, um desafortunado, um pobre coitado. Também assim, igualmente, é o 
cidadão. Veja-se, por exemplo, o instituto do bem de família, cuja proteção somente agora 
alcança o indivíduo que vive sozinho em seu lar, mas mesmo assim sob a alegação de que ele tem 
a possibilidade de um dia vir a constituir nesse bem uma família. Aí se nota como a ideologia da 
família patriarcal ainda se reflete na ordem jurídica. 
Com o patriarcalismo principiou a asfixia do afeto. Os patriarcas deram início à prática dos 
casamentos por conveniência, que com o passar do tempo proliferaram ainda mais, quando se 
somaram aos motivos patrimoniais os motivos políticos. Nessa evolução histórica, do primitivo 
casamento afetivo, passou-se ao casamento institucional, com o qual se buscou assegurar o 
patrimônio, dando origem à ideologia da família parental, patriarcal, senhorial, patrimonial. Esta 
se define pela existência de um pai e uma mãe com seus filhos sob o poder pátrio, fruindo de um 
patrimônio familiar, que deve ser mantido como base física e para segurança econômica da 
família. A família assim concebida e praticada acabou por revestir e mascarar interesses 
meramente patrimoniais, que muitas vezes deslocam, degeneram, sufocam ou até substituem as 
relações de afeto. 
Essa ideologia tradicional da família \u2013 fulcro do direito estampado no Código Civil de 1916 \u2013 ainda 
sobreviveu na definição constitucional da família brasileira. Suas conseqüências estão no artigo 
226 da Constituição da República. Por exemplo, à luz dos conceitos contidos nos parágrafos 3
o
 e 
4
o
 desse artigo constitucional, a comunidade formada por irmãos sem pais \u2013 órfãos que tenham 
perdido pai e mãe \u2013 não é família. O que constitui um absurdo, pois é fato notório que existe um 
sem-número de famílias assim formadas, nas quais geralmente o irmão mais velho cumpre o 
papel de pai de família, ou seja, chefe de família, exercendo de fato o antigo pátrio poder, 
atualmente dito poder familiar. Em entidades tais, estão conjugadas pessoas que funcionam \u2013 
atuam e vivem \u2013 como família e que, realmente, são cônjuges, porque conjugam de forma 
familiar as suas vidas. Pergunta-se: o que se diz quando se diz cônjuges? 
Cônjuges são, como o próprio nome diz, os que se sentem conjugados por uma origem ou 
destino de vida em comum. Nessa conjugação de vidas, atua o afeto. O que define a família é 
uma espécie de afeto que \u2013 enquanto existe \u2013 conjuga intimamente duas ou mais pessoas para 
uma vida em comum. É o afeto que define a entidade familiar. Mas não um afeto qualquer. Se 
fosse qualquer afeto, uma simples amizade seria família, ainda que sem convívio. O conceito de 
família seria estendido com inadmissível elasticidade. 
Na realidade, o que identifica a família é um afeto especial, com o qual se constitui a diferença 
específica que define a entidade familiar. É o sentimento entre duas ou mais pessoas que se 
afeiçoam pelo convívio diuturno, em virtude de uma origem comum ou em razão de um destino 
comum, que conjuga suas vidas tão intimamente, que as torna cônjuges quanto aos meios e aos 
fins de sua afeição, até mesmo gerando efeitos patrimoniais, seja de patrimônio moral, seja de 
patrimônio econômico. Este é o afeto que define a família: é o afeto conjugal. Mais conveniente 
seria chamá-lo afeto familiar, uma vez que está arraigada nas línguas neolatinas a significação 
que, desde o latim, restringe o termo cônjuge ao binômio marido e mulher, impedindo ou 
desaconselhando estendê-lo para além disso. Mas, embora o afeto conjugal entre marido e 
mulher seja a espécie mais relevante, não é a única espécie de afeto familiar. 
Hoje é evidente que, para haver família, não é preciso haver homem e mulher, pai e mãe, 
cônjuges em sentido restrito. Mas basta haver cônjuges em sentido amplo, na mais lídima 
acepção etimológica desse termo, a saber: pessoas conjugando suas vidas intimamente, por um 
afeto que as enlaça especialmente, quanto aos fins e aos meios de vivência, convivência e 
sobrevivência. Para alguns, ainda parece ser inconveniente usar o termo cônjuge em sua 
compreensão etimológica pura, apegando-lhe um sentido amplo, para incluir quaisquer pessoas 
que conjuguem suas vidas nesses termos. Isso estenderia o termo para além do binômio 
tradicional: homem e mulher. Contudo, já não é mais possível deixar de definir a família por essa 
conjugação de vidas independentemente do sexo e da procriação; e essa definição pode ser feita 
sem usar o termo cônjuge, empregando-se a expressão afeto familiar para designar a diferença 
específica que define a família, ou seja: um afeto que enlaça e comunica as pessoas, mesmo 
quando estejam distantes no tempo e no espaço, por uma solidariedade íntima e fundamental de 
suas vidas \u2013 de vivência, convivência e sobrevivência \u2013 quanto aos fins e meios de existência, 
subsistência e persistência de cada um e do todo que formam. 
Em conclusão: é preciso que uma nova ideologia, presa à realidade social presente \u2013 e, por isso, 
positiva \u2013 substitua a velha ideologia herdada dos patriarcas antigos e dos senhores medievais. 
No jogo histórico das ideologias, inevitável na evolução da humanidade, sempre uma nova 
ideologia surge de uma outra à qual supera no sentido do progresso da sociedade geral dos seres 
humanos. Nesse sentido, olhando para o presente e para o futuro, deve a ideologia