A Ciência do Direito
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A Ciência do Direito


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2.2. O objeto 
 
Sobre o objeto, já tecemos praticamente todas as considerações mais relevantes 
para a compreensão deste trabalho. Queremos apenas ressaltar que tomamos o termo tanto na 
acepção de objeto real como na de objeto de conhecimento, construído pela teoria, consoante 
a distinção que apresentamos na p. 14. É este último o que mais particularmente nos interessa, 
visto que a ele é que se dirigem especificamente as teorias científicas. Não desconsideramos, 
contudo, a importância do objeto real, pois afinal é a ele que, em última instância, as ciências 
procuram explicar. 
Vale destacar, ainda, que, segundo o racionalismo dialético, que abraçamos neste 
trabalho, o objeto real nunca toma qualquer iniciativa no processo de sua própria 
inteligibilidade. Nós é que o problematizamos e procuramos conhecê-lo e, nesse mister, 
construímos o objeto científico. Em outras palavras e para usarmos a feliz expressão de 
SAUSSURE, \u201cé o ponto de vista que cria o objeto\u201d.31 
 
2.3. O método 
 
Para o empirismo, o método consiste em um conjunto de procedimentos que por si 
mesmos garantem a cientificidade das teorias elaboradas sobre o real. Como o sujeito se 
limitaria a captar o objeto, essa captação seria tanto mais eficaz e neutra quanto mais preciso e 
rigoroso fosse o método utilizado. Desse modo, a metodologia se reduz, na concepção 
empirista, a um corpo de regras cuja validade não apenas é considerada inquestionável porque 
afirmada dogmaticamente, como ainda por cima assegura a validade do conhecimento 
científico que se quer produzir. \u201cO pesquisador é aqui levado a adotar os padrões aceitos e 
estabelecidos do \u201cmétodo científico\u201d, sem uma discussão mais profunda dos critérios de 
cientificidade, segundo os quais deva acatá-los e não a outros. Não explicitando esses 
critérios, dificulta-se a reflexão autêntica, necessariamente crítica, sobre o método. Ela se 
debate no interior do próprio método, encontra nele os seus limites e todas as tentativas de 
aprofundamento resultam num refinamento das proposições dele mesmo, que deste modo 
jamais se questiona\u201d.32 A elaboração científica se limitaria, assim, ao cumprimento rigoroso 
de certas técnicas pré-estabelecidas, que conteriam o poder quase miraculoso de conferir 
cientificidade aos conhecimentos elaborados através delas. Quanto mais o pesquisador se 
abstivesse de qualquer participação ativa e crítica no processo de construção científica, quanto 
mais ele se limitasse a cumprir mecanicamente as regras metodológicas, tanto melhor cientista 
ele seria, e tanto maior o grau de confiabilidade de suas teorias.
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 Esse ponto de vista, comum 
a todas as correntes empiristas, inclusive o positivismo lógico (V. nota nº 5, p. 32-3), está bem 
de acordo com o fundo ideológico do empirismo: a crença na transparência do objeto, que se 
daria a conhecer como realmente é. O mito positivista do cientificismo, para sustentar-se, teria 
que se apoiar em alguma crença afirmada dogmaticamente: essa crença é a transparência do 
dado. Mas só isto não basta, porque inevitavelmente o positivismo teria que responder à 
pergunta: Como é que o sujeito capta o objeto, e como esse processo de captação pode 
efetuar-se objetivamente, de modo que a produção teórica possa revestir-se do rigor e da 
exatidão necessários para dar-lhe a credibilidade tão essencial ao conhecimento científico? O 
positivismo responde que essa credibilidade será, tanto maior quanto mais precisas e 
confiáveis forem as técnicas metodológicas usadas no processo de investigação científica. 
Dessa maneira, ele transfere a crença no objeto para a crença no método, o qual se, validaria 
por si mesmo. É por isso que o positivismo afirma a possibilidade da existência de um método 
único, comum a todas as ciências, independentemente do grau de evolução que elas tenham 
atingido e das circunstâncias histórico-culturais em que se processe sua elaboração. Ora, 
como acentua MIRIAM CARDOSO, \u201cdeslocar a atenção da cientificidade só para o método 
tem como conseqüências principais utilizar critérios a-históricos para ele e esquecer a teoria.\u201d 
Com isso a definição da cientificidade escapa progressivamente da prática científica para se 
resguardar em postulados apriorísticos e inacessíveis à ciência como tal. Atomizando a 
totalidade teórica, autoriza a autonomia de cada uma de suas partes e tende a considerar tão-
somente a técnica, cuja suposta neutralidade gera a confusão e deforma o desenvolvimento 
teórico. Um paradoxo surge marcante: a ciência, busca do novo, deve ater-se à manutenção de 
um estilo, definido para garanti-la como tal. Para não correr o risco de se descientificizar, ela 
deve ser conformista! (...) Estranho apego à ciência que emperra o desenvolvimento 
científico!
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 O mito positivista do cientificismo implica, portanto, necessariamente, na 
mitificação do método, o qual é apresentado como algo eficaz em si mesmo, como se 
possuísse, à maneira do que ocorre nos contos de fadas, uma varinha de condão capaz de, ao 
menor toque, transformar tudo em ciência. Não é de estranhar, portanto, a supervalorização 
que o empirismo atribui à indução como método único na elaboração científica.
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 Afinal, se 
os empiristas pressupõem que é no objeto real que estão todas as verdades, que é do objeto 
que flui todo e qualquer tipo de conhecimento, nada mais natural do que ver nele o ponto de 
partida de toda pesquisa rigorosamente científica.
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A concepção empirista do método, que acabamos de criticar, é insuficiente para 
atender às características das ciências modernas, que resultam de um trabalho de construção 
em que a teoria é que é prioritária. Com efeito, um dos traços mais significativos da ciência 
contemporânea \u201cé o desenvolvimento do método estar-se fazendo cada vez mais no interior 
dela mesma\u201d.37 Em outros termos, isso significa que o método faz parte do processo de 
elaboração científica e, por isso mesmo, deve ser estudado em função da ciência a que serve, e 
não como algo apartado dela, como se existisse autonomamente e contivesse prescrições 
infalíveis a serem cegamente obedecidas. Os cientistas, hoje, não abrem mão de discutir a 
adequação do instrumental metodológico à natureza e às peculiaridades do problema em 
estudo. E isto porque a ciência é fundamentalmente um processo de construção, tanto da 
teoria quanto do método e do objeto.
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 Aliás, mais do que por seu processo de construção, a 
ciência moderna se caracteriza por sua função retificadora, em que temos insistido inúmeras 
vezes, por intermédio da qual ela se renova. Ora, para renovar-se, para formular proposições 
verdadeiramente novas, o trabalho científico não pode ser executado mecanicamente, através 
do simples cumprimento de regras metodológicas. O verdadeiro cientista é muito mais um 
criador de conhecimentos novos - e, para tanto, há de possuir necessariamente mentalidade 
crítica -, do que um mero seguidor de normas ou repetidor de verdades estabelecidas. Quem 
só sabe ver as coisas através da bitola estreita de um método único não está habilitado a 
introduzir nas ciências as inovações que elas por natureza reclamam. 
A renovação científica exige uma renovação metodológica, não só porque o 
método é interior à ciência, como porque não se pode esperar que as novidades teóricas 
decorram da aplicação de métodos obsoletos ou inadequados. Como BACHELARD observa 
magistralmente, \u201c(...) la condamnation d\u2019une méthode est immédiatement, dans la science 
moderne, la proposition d\u2019une méthode nouvelle, d\u2019une jeune méthode, d\u2019une méthode de 
jeunes. ( ... ) Il n\u2019y a pas d\u2019interregne dans le développement des méthodes scientifiques 
modernes. En changeant de méthodes, la science devient de plus en plus méthodique. Nous