A Ciência do Direito
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A Ciência do Direito


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função da teoria que 
o explica. 
Parece-nos que a exposição acima deixa clara a impossibilidade de traçarmos uma 
fronteira rígida entre as ciências naturais e as sociais, como se elas constituíssem 
compartimentos absolutamente estanques. Em primeiro lugar, a sociedade não é algo apartado 
da natureza, visto que existe dentro dela. Em segundo lugar, o mundo cultural é estreitamente 
relacionado com o mundo natural, operando inclusive parte da transformação deste último e 
sendo, por seu turno, condicionado por ele, numa autêntica cadeia de ação e reação. Em 
terceiro lugar, respeitadas as especificidades de cada ciência, elas possuem muitos princípios 
teóricos e metodológicos comuns, além de poderem ocupar-se às vezes, sob enfoques 
diferentes, do mesmo objeto, o que lhes oferece amplas possibilidades de manterem uma 
interação constante, que implica num enriquecimento mútuo. Importa não esquecer aqui as 
palavras de MARX e ENGELS: \u201c(...) enquanto existirem homens, a história da natureza e a 
história dos homens se condicionarão reciprocamente\u201d.7 
Vejamos algumas das principais distinções que comumente têm sido apresentadas 
para diferençar os dois grandes grupos de ciências de que ora estamos tratando: 
a) Costuma-se dizer que as ciências naturais são mais precisas do que as sociais, 
porque conseguem formular leis de caráter universal, ao passo que estas últimas raramente 
conseguem formular alguma lei, em virtude do caráter pouco geral de suas proposições. 
Alguns sociólogos americanos, como TALCOTT PARSONS e ROBERT MERTON, 
considerando o baixo nível de generalização da maioria das teorias sociais, chegaram mesmo 
a sugerir que a maior necessidade dos sociólogos são as teorias de médio alcance, ou seja, 
\u201cteorias que tentam explicar tipos particulares de fenômenos, com clareza e concretização 
suficientes para sugerir um conjunto de hipóteses interrelacionadas, aplicáveis a vários 
fenômenos aparentemente diversos\u201d.8 Este critério distintivo em parte é correto, porque a 
complexidade maior do social em relação ao natural é um sério obstáculo para que as ciências 
sociais elaborem proposições de um grau muito elevado de generalidade. Por outro lado, 
cumpre observar que as ciências sociais, de um modo geral, não só em razão da complexidade 
de seu objeto, mas também pelo fato de terem alcançado autonomia científica em épocas 
relativamente recentes, encontram-se em certo atraso com relação às ciências naturais, tanto 
em suas formulações teóricas, como em suas aplicações práticas. Mas não podemos levar a 
um ponto radical este critério de distinção, a ponto de afirmarmos que as ciências naturais são 
exatas e as sociais meramente probabilísticas, porque com isso estaríamos ignorando que o 
caráter essencial de todo conhecimento científico é ser retificável e, conseqüentemente, 
aproximado. Realmente, como já afirmamos citando POPPER (p. 85, nota 41), uma teoria não 
pode ser absolutamente confirmada pela experiência, por mais exaustiva que esta seja, pois 
esta não pode dar conta de todos os casos particulares previstos por aquela, havendo sempre a 
possibilidade da ocorrência de algum caso particular, ainda não experimentado, que infirme 
ou limite a proposição teórica. Por isso, as ciências naturais são também probabilísticas, no 
sentido de que suas predições não são absolutas, mas retificáveis.
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 Mas, sem dúvida, o grau de 
probabilidade de que uma predição formulada no âmbito de uma ciência natural venha 
efetivamente a ocorrer na forma prevista é, via de regra, maior do que a probabilidade de que 
os fenômenos sociais aconteçam dentro das predições formuladas, porque o mundo social é 
muito mais dinâmico e complexo que o natural e, por isso mesmo, muito mais sujeito a 
modificações bruscas.
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 Com isto, não queremos dizer, em absoluto, que as ciências sociais 
não possam formular princípios gerais, nem fazer predições eficazes. Tal suposição implicaria 
na negação da possibilidade de estudos sobre o social. O que afirmamos é que as teorias 
sociais possuem um nível mais baixo de generalização e, por conseqüência, suas predições 
apresentam menor probabilidade de efetivar-se do que as das ciências naturais. \u201cAs mais 
rigorosas leis científicas assumem, no âmbito da Sociologia, caráter probabilitário, que torna 
menos inteligível e, portanto, mas complexo o fenômeno social, que é a resultante de uma 
entre inúmeras combinações possíveis de seus fatores. Todas as leis científicas são leis 
probabilitárias. Se diminui o número de fatores a combinar, aumenta a probabilidade de 
ocorrência de determinado efeito (...).\u201d11 
b) Outro critério distintivo geralmente apresentado leva em conta a objetividade, 
que seria maior nas ciências naturais, porque o cientista natural estaria mais 
descompromissado com ideologias, preconceitos e influências políticas do que o cientista 
social. Já apontamos detalhadamente o fato de que a neutralidade científica absoluta é um 
mito. Trata-se de um lamentável equívoco considerar que as ciências naturais são isentas de 
qualquer conteúdo ideológico ou de qualquer influência política, tanto em seus aspectos 
teóricos quanto práticos. A história das ciências está repleta de exemplos que demonstram a 
falsidade dessa suposição. Basta lembrarmos as perseguições de que foi vítima GALILEU 
(1564-1642) e as restrições de caráter ideológico feitas na União Soviética contra certos 
princípios da teoria da relatividade, para ilustrarmos o que estamos afirmando. Além do mais, 
este critério confunde a objetividade da ciência com a objetividade do cientista, transferindo 
para o plano da intersubjetividade, ou seja, da concordância de opiniões entre vários 
cientistas, a objetividade científica. O ponto de vista segundo o qual o cientista natural seria 
mais neutro que o cientista social é magnificamente refutado por POPPER: \u201cÉ absolutamente 
errôneo conjeturar que a objetividade da ciência dependa da objetividade do cientista. E é 
totalmente falso crer que o cientista da natureza seja mais objetivo que o cientista social. O 
cientista da natureza é tão partidarista quanto o resto dos homens e, natureza é tão partidarista 
quanto o resto dos homens e, em geral, se não pertence ao escasso números daqueles que 
produzem idéias novas, é extremamente unilateral e partidário no que diz respeito às suas 
próprias idéias. (...) O que pode ser qualificado de objetividade científica baseia-se única e 
exclusivamente na tradição crítica (...), nessa tradição que permite criticar um dogma 
dominante. Em outras palavras, a objetividade da ciência não é assunto individual dos 
diversos cientistas, mas o assunto social de sua crítica recíproca (...), de seu trabalho em 
equipe e também de seu trabalho por caminhos diferentes, inclusive opostos uns aos outros\u201d.12 
c) Um terceiro critério, relacionado aos dois anteriores, confere às ciências 
naturais o caráter de explicativas e descritivas, enquanto as ciências sociais seriam 
compreensivas. Este critério se baseia na dificuldade e, muito freqüentemente, na 
impossibilidade que as ciências sociais encontram para controlar seu próprio objeto e 
submetê-lo a testes experimentais. Ora, em primeiro lugar, a experimentação nem sempre é 
possível nas próprias ciências naturais, como já observamos, o que não impede que as teorias 
formuladas mesmo sem ela sejam não apenas científicas, como ainda possam retificar outras 
teorias estabelecidas experimentalmente. Em segundo lugar, o objetivo de toda ciência é 
fornecer algum tipo de explicação sobre seu objeto. É certo que as ciências naturais 
conseguem, mais que as sociais, estabelecer relações causais entre fenômenos, isto é, são mais 
explicativas. Mas isto não significa que as ciências sociais estejam por natureza