A Ciência do Direito
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A Ciência do Direito


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que já sintetizamos seus aspectos filosóficos e gnoseológicos, bem como o fato de ter aberto 
espaço para as epistemologias dialéticas contemporâneas, no item 3.1 do Capítulo I. 
 MARX postula que é sobre a base da infra-estrutura da produção material que se 
eleva toda a superestrutura social: política, jurídica, ideológica, moral, artística etc. Mas é 
bom frisar que, em sua concepção, a infra e a superestrutura da sociedade se condicionam 
reciprocamente, num autêntico processo dialético, em que nenhuma das duas se reduz a mero 
reflexo passivo da outra. E isto porque o termo infra-estrutura é tomado em seu sentido 
próprio, significando base, e não apenas causa. 
O Direito se encontra, portanto, visceralmente ligado à estrutura de produção, que 
o condiciona, sobretudo numa sociedade de classes, em que ele, como produto do Estado, 
consagra os interesses da classe dominante, da qual o Estado, por sua vez, é antigo aliado. Daí 
a conhecida predição do marxismo, segundo a qual, numa sociedade sem classes, tanto o 
Direito quanto o Estado desapareceriam.
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A contribuição de MARX para o Direito não é tão grande quanto a que ele 
inegavelmente prestou a outras ciências sociais e à teoria do conhecimento. Como observa 
MIAILLE, \u201c(...) MARX não produziu em lado nenhum uma teoria do Direito, explícita e 
completa. No entanto, ocupou-se várias vezes de problemas jurídicos, mas nunca deu as 
chaves de uma explicação teórica do conjunto\u201d.66 Como a sua concepção jurídica se situava 
mais no terreno do Direito Positivo, ele apenas entreviu o direito-fenômeno, interior ao espaço 
social, que a ciência faz seu, através de um processo de construção teórica e da colocação de 
problemas específicos. Daí a apressada preconização do desaparecimento do Direito, quando 
este, necessariamente intrínseco à convivência humana, subsistirá enquanto houver 
sociedade.
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 Na aplicação prática dos princípios marxistas, embora inequivocamente 
deformados e dogmatizados no Estado autoritário soviético, o que se tem constatado é uma 
tendência para a hipertrofia do Estado e uma validação formal e imposta, quase dentro do 
figurino kelseniano, das normas jurídicas dele emanadas, com o que se desvirtua, pela força 
da ditadura, o princípio mesmo do pensamento marxista que, sendo dialético, não pode deixar 
de ser aberto à crítica. 
Mas certos papéis efetivos, desempenhados pelo Direito Positivo, MARX viu 
muito bem, sobretudo a função que aquele tem exercido claramente ao longo da História, de 
manter e agravar a estrutura de dominação de uma classe sobre outra, ocultando, sob o manto 
ideológico da legalidade e de uma, não raro pretensa, legitimidade, as contradições sociais, e 
contribuindo, dessa forma, para assegurar os privilégios que a si mesmas se conferem as 
classes dominantes. Além disso, formulou o princípio dialético para o estudo científico do 
Direito, rompendo com todo tipo de empirismo e idealismo: \u201cNos meus estudos cheguei à 
conclusão de que as relações jurídicas - assim como as formas do Estado - não podem ser 
compreendidas nem por si mesmas, nem pela pretensa evolução geral do espírito humano, 
inserindo-se pelo contrário nas condições materiais de existência, de que HEGEL, a exemplo 
dos ingleses e dos franceses do século XVIII, compreende o conjunto pela designação de 
\u201csociedade civil\u201d (...)\u201d.68 Esta proposição é muito mais do que uma simples constatação de 
que o Direito só existe no interior da sociedade. Ela é a chave para procurarmos a explicação 
não só dos fenômenos produzidos, como da própria lógica que rege essa produção, tornando-a 
inteligível. \u201cNão basta contentarmo-nos com a habilidade de que o Direito está sempre ligado 
à existência da sociedade: uma reflexão científica tem de ir mais longe e dizer-nos que tipo de 
direito produz tal tipo de sociedade e por que é que esse direito corresponde a essa 
sociedade\u201d.69 
 
1.3.2. O tridimensionalismo jurídico de REALE 
 
MIGUEL REALE consegue superar diversas limitações empiristas e idealistas na 
abordagem tanto filosófica quanto científica do Direito. Para ele, o Direito deve ser estudado 
em seu tríplice aspecto: histórico-social, axiológico e normativo, pois realiza historicamente 
um valor através de uma norma de conduta. \u201cAssim, não há que separar o fato da conduta, 
nem o valor ou finalidade a que a conduta está relacionada, nem a norma que incide sobre ela, 
pois o Direito é fato, valor e norma\u201d.70 O Direito, portanto, possui sempre uma 
tridimensionalidade ôntica que o situa no mundo da cultura. 
Para REALE, as normas jurídicas constituem o objeto específico da ciência do 
Direito, mas não as normas consideradas em si mesmas. Qualquer análise jurídica deve 
considerar necessariamente o \u201ccomplexo das normas em função das situações normadas\u201d,71 
isto é, deve apreender o objeto do Direito em sua estrutura tridimensional, porquanto é só 
através de suas relações com o fato a que se refere e com os valores que consagra, que a 
norma jurídica pode fazer sentido. Mas, apesar disso, é ela, em última instância, a 
preocupação maior do jurista. Daí atribuir REALE ao Direito o caráter de ciência social 
compreensivo-normativa, que estuda o seu objeto numa perspectiva que vai muito além do 
formalismo kelseniano e da tendência idealista que vê no Direito sobretudo um complexo de 
juízos lógicos. A norma exerce, no tridimensionalismo jurídico, o papel dinâmico de integrar 
o elemento fático ao elemento axiológico,
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 sendo, por conseguinte, parte essencial da 
realidade jurídica. Por isso, ela é variável em função dos outros elementos da relação 
tridimensional: o fato e o valor. 
A teoria tridimensional do Direito, em razão da interação essencialmente dinâmica 
dos três elementos que a constituem, implica numa forma especial de dialética na abordagem 
do fenômeno jurídico, a que MIGUEL REALE denomina dialética de implicação-
polaridade,
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 distinguindo-a na hegeliana e da marxista. A dialética de implicação-polaridade 
pode ser sintetizada da seguinte maneira: nas relações entre fato e valor, esses elementos são 
irredutíveis um ao outro, ou seja, constituem realidades autônomas, distintas, de modo que do 
ser não se pode passar diretamente para o dever-ser, embora a recíproca não seja verdadeira - 
e aí está o fator polaridade -; mas se exigem mutuamente, de tal modo que não podem ser 
considerados em separado, nem desvinculados da norma, que, em os ligando, realiza o 
Direito, e que, por seu turno, não pode ser compreendida senão em função desses dois 
elementos, que constituem, respectivamente, seu conteúdo e seu fim
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 - eis o fator implicação. 
Para REALE, a essência do Direito reside, portanto, na integração normativa de fatos e 
valores. 
A contribuição de MIGUEL REALE é importante tanto para a epistemologia 
quanto para a filosofia jurídica. Partindo de um realismo crítico (que ele denomina 
ontognoseologia), de fundo kantiano 
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 mas depurado do idealismo que caracteriza a obra do 
filósofo de Konigsberg, REALE supera, em grande parte, as concepções metafísicas de cunho 
empirista e idealista que tradicionalmente comandaram os estudos do Direito, considerando-o 
ou só como valor (idealismo), ou só com norma (formalismo), ou só como fato 
(sociologismo), e propõe que a análise do problema jurídico seja feita a partir da experiência, 
mas através de processos que assegurem a contribuição sintética do espírito. 
Uma orientação tridimensional no estudo do Direito aparece em várias das 
doutrinas de que já nos ocupamos, tanto em STAMMLER, RADBRUCH, RECASÉNS 
SICHES e DEL VECCHIO, como em COSSIO e, ainda que de forma latente, no próprio 
KELSEN. Nenhum deles, porém, viu a tridimensionalidade tão claramente e sobre