MariaHelenaDiniz.CursodeDireitoCivilBrasileiro-Vol.2TeoriaGeraldasObrigações(2007)
490 pág.

MariaHelenaDiniz.CursodeDireitoCivilBrasileiro-Vol.2TeoriaGeraldasObrigações(2007)


DisciplinaDireito Civil II11.901 materiais126.391 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Revista 
de Derecho Privado, 29:485 e 546, 1945; Carresi, L'obbligazione naturale nella piu recente 
letteratura giuridica italiana, Riv. Trim. di Dir. e Proc. Civile, p. 546, 1948; Gobert, Essai sur le 
rôle de l'obligation naturelle, 1956; Oppo, Adempimento e liberalità, 1947, p. 20 e s.; Martin-
Ballesteros, L'obligation naturelle, in Annales de la Faculté de Droit de Toulouse, 1960, t. 8, p. 31 ; 
Machelard, Des obligations naturelles en droit romain, § l 2. 
7. Antunes Varela, op. cit., p. 284. 
8. R. Limongi França, Obrigação natural, in Enciclopédia Saraiva do Direito, v. 55, p. 355; Manu-
el A. Domingues de Andrade, op. cit., p. 74; Orlando Gomes, op. cit., p. 101 ; Torrente, op. cit., p. 
379; Antunes Varela, op. cit., p. 287-8. 
Teoria Geral das Obrigações 55 
b) acarreta inexigibilidade da prestação, daí ser também designada 
como obrigação juridicamente inexigível; 
c) se for cumprida espontaneamente por pessoa capaz, ter-se-á a vali-
dade do pagamento; 
d) produz irretratabilidade do pagamento feito em seu cumprimento; 
e) seus efeitos dependem de previsão normativa, como logo mais ve-
remos. 
De um lado, seu efeito negativo é a ausência do direito de ação do 
credor para exigir seu adimplemento; p. ex., se um imóvel lhe for entregue 
em cumprimento de uma obrigação natural e se se verificar a evicção, ele 
nada poderá exigir do devedor; mas, por outro lado, seu principal efeito 
positivo é a denegação da repetido indebiti ao devedor que a realizou, tor-
nando válido e irretratável o seu pagamento. Se for objeto de remissão, 
escreve Washington de Barros Monteiro, esta deverá ser entendida como 
renúncia ao eventual direito que, para o credor, adviria do cumprimento, ou 
seja, renúncia à soluti retentio9. Para haver irrevogabilidade do pagamento, 
é imprescindível que a prestação seja espontânea, efetuada sem qualquer 
coação, e que tenha sido feita por pessoa capaz (CC, art. 814). Daí ser invá-
lido o cumprimento de obrigação natural feito por incapaz, ou obtido por 
dolo ou por coação, ou, ainda, efetuado por terceiro em nome do devedor, 
mas sem que haja manifestação de vontade deste nesse sentido 1 0. Para que 
haja validade e irrepetibilidade do pagamento de uma obrigação natural, 
bastará liberdade, espontaneidade e capacidade do solvens11. Por conseguinte, 
o pagamento parcelado de uma obrigação a quem seja credor civil não obri-
ga o devedor ao cumprimento das prestações subseqüentes, pois do con-
trário, ensina-nos Oppo 1 2 , violar-se-ia o princípio positivo, segundo o qual 
o efeito da obrigação natural se limita à irretratabilidade da prestação es-
pontaneamente efetuada. A execução parcial de obrigação natural não au-
toriza o credor a exigir o pagamento do restante, pois o fato de ter havido 
amortização parcial não transforma a obrigação natural em civil, de forma 
que o remanescente não poderá ser reclamado pelo credor; tem-se uma con-
dição potestativa, dependente unicamente da vontade do devedor (RT, 
103:523,487:55,435:170; RTJ, 72:310)1 3. Conseqüentemente, segue-se que: 
9. Serpa Lopes, op. cit., p. 48-9; Orlando Gomes, op. cit., p. 101; W. Barros Monteiro, op. cit., p. 
22; Guido Belmonte, II novo Códice commentato, Liv. IV, p. 507. 
10. Torrente, op. cit., p. 379; Antunes Varela, op. cit., p. 287-9. 
11. Manuel A. Domingues de Andrade, op. cit., p. 74. 
12. Oppo, op. cit., p. 276 e 320. 
13. Carvalho de Mendonça, Doutrina e prática das obrigações, 4. ed., 1956, t. 1, p. 166; W. Barros 
Monteiro, op. cit., v. 4, p. 223-4. No mesmo teor de idéias: Crome, Manuale di diritto civile 
francese, v. 2, p. 211, nota 2; Lacerda de Almeida, Obrigações, 2. ed., nota 5 ao § 4 2 . 
56 Curso de Direito Civil Brasileiro 
a) o credor, que recebe o pagamento, terá direito de retenção da coisa ou 
quantia dada em cumprimento da obrigação natural, tornando-o efetivo por 
meio de exceção contra a repetição do devedor; b) o seu pagamento não se 
sujeita às normas reguladoras da doação, porque a retenção não se opera a 
título de liberalidade; c) a obrigação natural, como a civil, aumenta o patri-
mônio do credor, diminuindo o do devedor 1 4. 
Fora desses casos, a obrigação natural não produz outros efeitos, pois 1 5: 
a) não é suscetível de novação*6, segundo alguns autores, já que esta 
pressupõe a extinção de uma dívida antiga por uma nova relação obriga-
cional; logo, havendo obrigação natural, não há obrigação anterior válida, 
por ser juridicamente inexigível que possa ser eliminada para dar lugar a 
nova obrigação. Como substituir uma obrigação inexigível por um víncu-
lo de caráter exigível? 1 7. Todavia, há juristas que admitem novação de obri-
gação natural, como veremos no capítulo IV deste livro; 
b) não pode ser compensada com obrigação civil, visto que a com-
pensação requer que as dívidas sejam vencidas (CC, art. 369), isto é, 
cobráveis, atualmente exigíveis, e a obrigação natural se caracteriza pela 
inexigibilidade da prestação 1 8; 
c) não comporta fiança19, pois esta não pode existir sem uma obriga-
ção civil válida; 
d) não lhe será aplicável o regime prescrito no Código Civil (arts. 441 
e s.) para os vícios redibitórios, na hipótese da coisa entregue como paga-
mento conter vícios ocultos, pois as sanções jurídicas só poderão ser apli-
cadas a prestações exigíveis pelo credor e não a prestações espontaneamente 
cumpridas pelo devedor 2 0. 
14. Aubry e Rau, Cours de droit civil {rançais, 5. ed., v. 4, § 297, v. 7, § 659. 
15. Gianturco, op. cit., v. 1, § 67; W. Barros Monteiro, op. cit., p. 222-3. 
16. Alguns autores entendem que nada obsta que o devedor de uma obrigação natural assuma, em 
sua substituição, uma obrigação civil. E o que entendem Lacerda de Almeida, Dos efeitos das 
obrigações, p. 268; Bonf ante, II concetto dell' obbligazione naturale, Rivista di Diritto Commercials 
75:358, 1. parte. 
17. W. Barros Monteiro, op. cit., p. 223; Clóvis Beviláqua, Código Civil comentado, v. 4, p. 163; 
Antunes Varela, op. cit., p. 290. 
18. W. Barros Monteiro, op. cit., p. 223. 
19. Contrariamente: Enneccerus, Kipp e Wolff, op. cit., p. 13. 
20. Antunes Varela, op. cit., p. 290. 
Teoria Geral das Obrigações 57 
a.4.2. Obrigação natural no direito brasileiro 
Nosso Código Civil, diferentemente da legislação estrangeira21, é quase 
que omisso em relação ao regime da obrigação natural, referindo-se ape-
nas de passagem a ela (CC, arts. 564, III, 814 e 882) para proteger juridi-
camente seu cumprimento, vedando a repetição do que tiver sido pago (CC, 
art. 882, infine). Com isso leva nossos civilistas, juízes e tribunais a pro-
curar no ordenamento jurídico, no direito e na doutrina alienígenas, por 
meio dos processos de integração de lacuna, subsídios para delinear as obri-
gações desprovidas de ação ou de executoriedade 2 2. 
O art. 882 do Código Civil prescreve a irrepetibilidade da prestação 
paga para cumprir obrigação natural, como exceção ao regime geral do pa-
gamento indevido, cuja repetição tem por requisito essencial o erro do 
solvens. Logo, havendo adimplemento de obrigação natural, o autor da 
prestação não pode alegar erro sobre a exigibilidade do vínculo para obter 
a sua restituição. Dessa forma, a irrevogabilidade do que se pagou para 
cumprir obrigação natural só vigorará quando houver pagamento espontâ-
neo e sem coação, sem erro sobre a inexecutoriedade do vínculo. Portan-
to, pelo art. 814, 2a parte, do Código Civil, só será possível recobrar quan-
tia voluntariamente paga se houver dolo no ganho dessa quantia ou se o 
solvens for incapaz 2 3. 
O art. 882 do Código Civil, lâ parte, reza que "não se pode repetir o 
que se pagou para solver dívida prescrita". Se a dívida está prescrita, o que 
21. O Código Civil argentino é minucioso, pois no art. 515 estatui: "Las obligaciones son civiles o 
meramente naturales. Civiles son aquellas que dan derecho a exigir su cumplimiento. Naturales
Eliza
Eliza fez um comentário
perfeito
0 aprovações
Carregar mais