MariaHelenaDiniz.CursodeDireitoCivilBrasileiro-Vol.2TeoriaGeraldasObrigações(2007)
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(CC, art. 335, III e IV). 
Qualquer pessoa física (maior ou menor, capaz ou incapaz, casada ou sol-
teira, nacional ou estrangeira, nascituro) ou jurídica (não só as de direito 
Teoria Geral das Obrigações 31 
privado ou público, de fins econômicos ou não, mas também as socieda-
des irregulares ou de fato \u2014 CPC, art. 12) pode apresentar-se ativa ou 
passivamente numa relação obrigacional 2 4. 
O sujeito ativo é o credor, ou seja, é aquele a quem a prestação, positi-
va ou negativa, é devida, tendo por isso o direito de exigi-la. O credor pode 
ser único ou coletivo; nesta última hipótese terá direito a uma quota-parte 
ou à totalidade da prestação, conforme a natureza da relação creditória 2 5, 
como mais adiante demonstraremos. Por outro lado, há permissão jurídica 
de que se tenha um credor no início da relação jurídica e outro na sua exe-
cução, por ser a transmissão da obrigação um fator de sua função econô-
mica, exceto nas obrigações personalíssimas, por serem inerentes à pessoa 
do credor 2 6. Não há exigência jurídica de que o credor seja sempre indivi-
duado ou determinado; basta que seja determinável, identificando-se no 
momento do adimplemento da prestação ou na ocasião em que se exigir o 
seu cumprimento. P. ex.: em todos os títulos ao portador (CC, art. 905), o 
credor será sempre aquele que tiver a sua posse, de forma que o sujeito 
ativo é pessoa incerta, que se determina pela apresentação do título (A/, 
111:210; RT, 356:119, 358:350)21. Carmelo Scuto 2 8 salienta que, mesmo 
que não exista qualquer documento cuja detenção possibilite a identifica-
ção do credor, a obrigação será jur idicamente perfeita com a sua 
individualização posterior. É o que se dá, p. ex., com bolsa de estudos em 
favor do aluno de um colégio que mais se distinguir durante o curso; logo, 
aquele que sobressair será o credor da bolsa. Igualmente, numa promessa 
de recompensa, anunciada em jornal, o credor será o que, tendo prestado o 
serviço reclamado, assim se apresentar para receber o prêmio prometido 
(CC, art. 855) 2 9 . O credor, por ser titular de um direito subjetivo, terá auto-
24. Polacco, op. cit., n. 31; Caio M. S. Pereira, op. cit., p. 19; W. Barros Monteiro, op. cit., p. 
12-3; Bassil Dower, Curso moderno de direito civil, São Paulo, Nelpa, v. 2, p. 16; Antunes Varela, 
op. cit., p. 69-70; Hedemann, Derecho de obligaciones, p. 39. 
25. R. Limongi França, Direito das obrigações, in Enciclopédia Saraiva do Direito, v. 26, p. 79; 
Domingues de Andrade e Rui de Alarcão (Teoria geral das obrigações, 3. ed., Coimbra Livr. 
Almedina, 1966, p. 17) ensinam-nos que o sujeito ativo é designado credor, porque acreditou no 
devedor, na sua lealdade e na sua capacidade de pagamento. 
26. W. Barros Monteiro, op. cit., p. 13. 
27. Demogue, Traité des obligations, v. 1, p. 15; Clóvis Beviláqua, Código Civil comentado, v. 5, 
p. 263. 
28. Scuto, Istituzioni di dirittoprivato, v. 2, parte 1, p. 15. 
29. W. Barros Monteiro, op. cit., p. 14. 
32 Curso de Direito Civil Brasileiro 
rização de exigir o cumprimento da prestação (CC, art. 331) ou a execução 
da obrigação (CPC, arts. 566 e 580), bem como terá permissão para ceder 
(onerosa ou gratuitamente) seu crédito (CC, art. 286), para aceitar coisa 
diferente da devida (CC, arts. 356 e s.), para perdoar, no todo ou em parte, 
a dívida (CC, arts. 385 e 386) etc. 3 0. 
O sujeito passivo é o que deverá cumprir a prestação obrigacional, li-
mitando sua liberdade, pois deverá dar, fazer ou não algo em atenção ao 
interesse de outrem, que, em caso de inadimplemento, poderá buscar, por 
via judicial, no patrimônio do devedor, recursos para satisfazer seu direito 
de crédito (CPC, arts. 568 e 591) 3 1 . Pode ser único ou plural. Se houver 
mais de um devedor, a prestação devida consistirá quer em uma fração do 
objeto, quer na totalidade; neste último caso, uma vez paga, competirá ao 
que a cumpriu direito regressivo em relação aos co-devedores quanto à parte 
proporcional que lhes cabe 3 2 . Não é preciso que o devedor esteja rigorosa 
ou perfeitamente individuado, embora a indeterminação do sujeito passivo 
não seja muito comum; exige-se que seja determinável, isto é, que haja a 
simples possibilidade de sua ulterior determinação 3 3, como ocorre nas obri-
gações propter rem, nas quais será devedor o que estiver investido de um 
direito real; identifica-se, portanto, o sujeito passivo segundo a posição da 
pessoa ante uma coisa. P. ex., no condomínio sobre parede (CC, art. 1.327, 
c/c o art. 1.297), o comunheiro responde proporcionalmente pelas despe-
sas de conservação, mas essa responsabilidade subsiste apenas enquanto 
ele for proprietário; se, por acaso, vender o imóvel em que se encontre a 
parede, transferirá ao adquirente a obrigação de contribuir para a sua ma-
nutenção. O sujeito passivo não é determinado, porque transeunte, variá-
vel; porém, em dado instante, individualiza-se3 4. 
30. Antunes Varela, op. cit., p. 66. Sobre o cumprimento da prestação vide Código Civil, arts. 127, 
954, 960, 1.264, 1.530; Lei n. 5.172/66, art. 160. A respeito de cessão de crédito, vide Código 
Civil, arts. 347,1, 348, 358,498 e 1.749, III; Decreto-lei n. 70/66, art. 16; a Consolidação das Leis 
da Previdência Social, arts. 152 a 155, foi aprovada pelo Decreto n. 77.077/76, que por sua vez foi 
revogado pelo Decreto n. 89.312/94; Leis n. 8.212/91, 8.213/91, 8.444/92, 8.540/92, 8.619/93, 
8.620/93, 8.861/94, 8.870/94 e Decretos n. 2.172/97 e 1.197/94. Relativamente à remissão de 
crédito tributário consulte a Lei n. 5.172/66 (CTN), art. 172. 
31. Vide Silvio Rodrigues, Direito civil, 3. ed., São Paulo, Max Limonad, 1968, v. 2, p. 16-7; 
Alfredo Buzaid, Do concurso de credores no processo de execução, São Paulo, 1952, p. 43 e s. 
32. R. Limongi França, op. cit., p. 79. 
33. Trabucchi, Istituzioni di diritto civile, 7. ed., Padova, CEDAM, 1953, p. 449 e 488. 
34. W. Barros Monteiro, op. cit., p. 15-7; Orlando Gomes, Obrigações, cit., p. 25. 
Teoria Geral das Obrigações 33 
É preciso ressaltar que o importante é a presença de ambos os sujei-
tos \u2014 ativo e passivo \u2014 na relação obrigacional; se, p. ex., houver fusão 
desses sujeitos numa só pessoa, ter-se-á a extinção da obrigação (CC, art. 
381), sem que haja qualquer cumprimento da prestação. É o que sucederá 
se, em virtude de testamento, o herdeiro receber do de cujus um título de 
crédito contra si mesmo 3 5 . 
2°) O material, atinente ao objeto da obrigação, que é a prestação 
positiva ou negativa do devedor, ou melhor, a atuação do sujeito passivo, 
que consiste em dar, fazer ou não fazer algo. A prestação sempre se cons-
titui na prática de um ato humano positivo, como, p. ex., o transporte de 
uma mercadoria, a realização de um trabalho, a entrega de uma coisa ou 
de seu preço, ou negativo, como, p. ex., a não-construção de uma obra. O 
objeto da obrigação, para a maior parte dos autores, consiste na prestação, 
isto é, na prática do ato que o credor pode exigir do devedor. Logo, na 
obrigação de entregar uma jóia, o objeto da obrigação é o ato do sujeito 
passivo de efetuar a entrega e não a jóia. A jóia é objeto da prestação. O 
credor não dispõe de um direito sobre o bem devido, mas tão-somente de 
um direito à sua prestação 3 6. Deveras, Antunes Varela pontifica, com mui-
ta propriedade, que "uma coisa é o ato, a prestação a que o obrigado se 
encontra vinculado; outra a coisa material, em si mesma considerada, so-
bre a qual o ato incide" 3 7. Em que pese tal opinião, entendemos que o po-
der do sujeito ativo incide sobre um objeto imediato, que é a prestação de-
vida pelo sujeito passivo, por ter a autorização de exigir uma prestação de 
dar, fazer ou não fazer, e sobre um objeto mediato, que é o bem móvel, 
imóvel ou semovente sobre o qual recai o direito, devido à permissão que 
lhe é dada por norma jurídica de ter alguma coisa como sua 3 8. 
Há quem ache \u2014 ante o fato de que
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