MariaHelenaDiniz.CursodeDireitoCivilBrasileiro-Vol.2TeoriaGeraldasObrigações(2007)
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DisciplinaDireito Civil II11.437 materiais123.309 seguidores
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os dois sujei tos, abrangendo o dever da 
pessoa obr igada (debitum) e sua responsabi l idade em caso 
de inad implemento (obligatió), possibi l i tando ao credor recor-
rer à in tervenção estatal para obter a prestação, tendo como 
garant ia o patr imônio do devedor. 
2 . O B R I G A Ç Ã O 
M O R A L 
É a que, fundada no vinculum solius aequitatis, sem obligatio, 
const i tui mero dever de consc iênc ia, sendo cumpr ida apenas 
por questão de pr incíp ios; logo, sua execução é mera l ibera-
l idade. 
Concei to 
E aque la em que o credor não pode exigir do 
devedor uma certa prestação, embora em caso 
de seu ad implemento , espontâneo ou voluntá-
rio, possa retê-la a título de pagamento e não 
de l iberal idade. 
O B R I G A Ç Ã O 
N A T U R A L 
Caracteres < 
\u2014 Não é obr igação moral . 
\u2014 Acarre ta inexigibi l idade da prestação. 
\u2014 Se for cumpr ida espontaneamente por pes-
soa capaz, ter-se-á a val idade do pagamen-
to. 
\u2014 Produz irretratabi l idade do pagamento feito 
em seu cumpr imento . 
\u2014 Seus efeitos dependem de previsão norma-
t iva. 
63. J. Nascimento Franco, op. cit., p. 77. 
64. De Gasperi, Tratado de las obligaciones, v. 1, p. 69. 
Teoria Geral das Obrigações 69 
3 . O B R I G A Ç Ã O 
N A T U R A L 
Efeitos 
Obr igação 
natural no 
direito 
brasi leiro 
(CC, art . 
882 , in 
fine) 
a) Ausênc ia do direito de ação do credor para 
exigir seu ad implemento . 
b) Denegação da repetitio indebiti ao devedor 
que a real izou. 
c) Não é suscetível de novação e de compen -
sação. 
d) Não compor ta f iança. 
e) Não lhe será apl icável o reg ime prescr i to 
para os víc ios redibi tór ios. 
\u2014 Dívida prescr i ta (CC, art . 882, 1 â par te) . 
\u2014 Dívidas para obter f im ilícito, imoral ou proi-
bido por lei (CC, art . 883) . 
\u2014 Débitos resul tantes de jogo e aposta (CC, 
arts. 814 e 815) . 
\u2014 Mútuo feito a menor, sem a prévia autor iza-
ção daquele sob cuja guarda est iver (CC, 
arts. 588 e 589) . 
\u2014 Juros não est ipulados (CC, arts. 586 e 591). 
\u2014 Gorjetas a empregados de restaurantes, de 
hotéis etc. 
\u2014 C o m i s s ã o am igáve l o u t o r g a d a a i n t e r m e -
d iá r ios o c a s i o n a i s em negóc i os imob i l i á -
r ios . 
Trata-se de norma não au tônoma, por não au-
tor izar o emprego da coação como meio para 
consegu i r a obse rvânc ia de seus prece i tos , 
mas que tem jur id ic idade por se l igar essen-
c ia lmente a uma norma que contenha tal au-
tor ização, visto que apenas estabelece nega-
t ivamente o pressuposto da sanção. 
B. Obrigações quanto ao seu objeto 
b.l. Obrigações atinentes à natureza do objeto 
b.1.1. Obrigação de dar 
b.l.1.1. Espécies de prestação de coisa 
A obrigação de prestação de coisa vem a ser aquela que tem por obje-
to mediato uma coisa que, por sua vez, pode ser certa ou determinada (CC, 
arts. 233 a 242) ou incerta (CC, arts. 243 a 246) 6 5 . 
Natureza 
65. Antunes Varela, op. cit., p. 325; Sebastião José Roque, Direito das obrigações, cit., p. 31 a 36; Raphael 
de Barros Monteiro Filho, Ralpho Waldo de Barros Monteiro e Ralpho Waldo de Barros Monteiro 
70 Curso de Direito Civil Brasileiro 
A obrigação será específica se tiver por objeto coisa certa e determi-
nada, como, p. ex., a que recai sobre o vendedor do cavalo de corridas Faraó 
ou do quadro &quot;X&quot; de Portinari. E será genérica se seu objeto for 
indeterminado, como, p. ex., a que incide sobre o vendedor de 100 pipas 
de vinho ou de 50 sacas de café. 
São consideradas como prestações de coisa as obrigações do vende-
dor e do comprador, do locador e do locatário, do doador e do depositário 
(CC, art. 627), do segurador e do segurado (CC, art. 757), do comodatário, 
do rendeiro ou censuario (CC, art. 810), do mutuário (CC, art. 586) etc. 
Nas chamadas obrigações de dar (de prestação de coisa) 6 6 incluem-se 
prestações de índole diversa: 
a) Obrigação de dar (ad dandum), caso em que a prestação do obri-
gado é essencial à constituição ou transferência do direito real sobre a coi-
sa móvel ou imóvel. A entrega da coisa tem por escopo a transferência de 
domínio ou de outros direitos reais. 
Tal obrigação surge, p. ex., por ocasião de um contrato de compra e ven-
da, em que o devedor se compromete a transferir o domínio para o credor 
do objeto da prestação, tendo este, então, direito à coisa (jus ad rem), embo-
ra a aquisição do direito fique na dependência da tradição do devedor. E o 
que se dá, p. ex., com o vendedor ou doador de bem móvel, que ficam obri-
gados a transferir a propriedade da coisa vendida ou doada, embora conti-
nuem donos enquanto não realizarem o ato posterior da entrega (CC, art. 
237; RT, 486:206, 377:146, 479:16, 398:340, 456:209, 431:66). 
A obrigação de dar, por si só, confere tão-somente ao credor mero 
direito pessoal (jus ad rem) e não real (jus in re), visto que o credor só 
adquirirá o domínio pela tradição da coisa pelo devedor, pois, conforme 
nosso ordenamento jurídico, o contrato não opera transferência de proprie-
dade (CC, art. 1.267), exigindo, para tanto, tradição para os móveis e tra-
dição solene (CC, art. 1.245, I, e Lei n. 6.015/73, arts. 227 a 245) ou re-
gistro para os imóveis. Se o vendedor deixar de entregar a coisa avençada, 
Filho, Obrigação de dar, O novo Código Civil \u2014 estudos em homenagem a Miguel Reale, São 
Paulo, LTr, 2003, p. 178 a 203. Competirá a quem pretender, com base em prova escrita sem 
eficácia de título executivo, pagamento de soma em dinheiro, entrega de coisa fungível ou de 
determinado bem móvel, ingressar em juízo com ação monitoria (CPC, arts. 1.102a, b e c, este 
último com redação da Lei n. 11.232/2005). 
66. Antunes Varela, op. cit., p. 74 e s.; Renan Lotufo, Código Civil comentado, São Paulo, 
Saraiva, 2003, v. 2, p. 13 a 45. Vide: JTACSP, 740:83; RT, 714:220, 555:133; RJTJSP, 755:324; 
RJ, 754:109. 
Teoria Geral das Obrigações 71 
o adquirente não poderá requerer a reivindicatória porque não há direito 
real de propriedade; terá direito, porém, de mover ação de indenização para 
ser ressarcido dos danos sofridos com o inadimplemento da obrigação (CC, 
art. 389). Logo, a obrigação de dar, segundo lição de R. Limongi França, 
é aquela em virtude da qual o devedor fica jungido a promover, em bene-
fício do credor, a tradição da coisa (móvel ou imóvel), já com o fim de 
outorgar um novo direito. Dessa forma, o devedor somente poderá com-
prometer-se a entregar a coisa ao credor para transferir-lhe o domínio. O 
adquirente será mero credor antes de tal tradição 6 7. 
b) Obrigação de restituir6*, que não tem por escopo transferência de 
propriedade, destinando-se apenas a proporcionar o uso, fruição ou posse 
direta da coisa, temporariamente. 
A obrigação de restituir se caracteriza por envolver uma devolução, 
como, p. ex., a que incide sobre o locatário, o mutuário, o comodatário, o 
depositário, o mandatário, uma vez findo o contrato, dado que o devedor 
deverá devolver coisa a que o credor já tem direito de propriedade por tí-
tulo anterior à relação obrigacional. O devedor, por haver recebido coisa 
alheia, encontra-se adstrito a devolvê-la, pois o credor é o proprietário do 
bem 6 9 , já que houve apenas uma cessão de posse da coisa ao devedor. As-
sim, se este, vencido o prazo, não a devolver ao credor, cometerá esbulho, 
competindo ao titular da posse a ação de reintegração (RT, 389:122, 
457:255, 458:231; RF, 146:351), enquanto pela Lei do Inquilinato (Lei n. 
8.245/91, arts. 59 a 66) o proprietário pode valer-se da ação de despejo, 
para obter-lhe a desocupação 7 0. 
67. R. Limongi França, Manual, cit., v. 4, t. 1, p. 60; Pothier, Traité des obligations, p. 71; De 
Page, op. cit., v. 2, p. 375; W. Barros Monteiro, op. cit., p. 56; Bassil Dower, op. cit., v. 2, p. 37. O 
Código Civil francês dispõe a esse respeito de modo contrário ao nosso, pois admite que o simples
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