GEOGRAFIA-PEQUENA HISTORIA CRITICA.pdf
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DisciplinaEspaço, Natureza e Sociedade84 materiais452 seguidores
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Crítica. A polêmica, entre as duas vertentes, reflete o antagonismo político existente na 
sociedade burguesa; manifesta a contradição de classe, na discussão de um campo específico do 
conhecimento. É assim um debate político, ao nível da ciência; uma luta ideológica, expressão da 
luta de classe, no plano do pensamento. Cabe analisar o teor das críticas levantadas à perspectiva 
pragmática. 
 Um questionamento levantado ao conjunto de propostas, que constituem a Geografia 
Pragmática, incide no empobrecimento que ela introduz na reflexão geográfica. A Geografia 
Tradicional, em função da prática da observação direta (da pesquisa de campo), concebia o espaço 
em sua riqueza (em sua complexidade). A Geografia Pragmática, ao romper com estes 
procedimentos, simplifica arbitrariamente o universo da análise geográfica, torna-o mais abstrato, 
mais distante do realmente existente. Seus autores empobrecem a Geografia, ao conceber as 
múltiplas relações entre os elementos da paisagem, com relações matemáticas, meramente 
quantitativas. Empobrecem a Geografia, ao conceber a superfície da Terra (para o pensamento 
tradicional a \u201cmorada do homem\u201d ou o \u201cteatro da História\u201d), como um espaço abstrato de fluxos, ou 
uma superfície isotrópica, sob a qual se inclina o planejador, e assim a desistoricizam e a 
desumanizam. Empobrecem a Geografia ao conceber a região (no pensamento tradicional o \u201cfruto 
de um processo histórico\u201d) como a região-plano, a área de intervenção, cuja dinâmica é dada pela 
ação do planejador. Há, assim, um empobrecimento, advindo de um anti-historicismo, comum a 
todas as propostas da Geografia Tradicional. E, vinculado a este, um triunfo do formalismo, das 
teorizações genéricas e vazias, muito mais distantes da realidade do que aquelas teorias tradicionais. 
Desta forma, a concepção do espaço da Geografia Tradicional era mais rica, possuía maior grau de 
concretude, maior correspondência ao real. É esse o sentido do empobrecimento aludido, que vem 
acompanhado de uma sofisticação técnica e lingüística. Apresenta-se um discurso, na essência mais 
pobre, com uma linguagem mais rica e mais elaborada. Porém a sofisticação instrumental veicula 
um conteúdo mais simplista. Este é o teor das críticas, ao nível teórico, às propostas pragmáticas. 
Outras poderiam ser levantadas, como a do fracionamento do objeto, em que esta proposta incorre. 
A progressiva especialização dos estudos, dada pela finalidade utilitária e pelas exigências do 
trabalho aplicado, leva à perda total de qualquer perspectiva, quanto à unidade do universo da 
análise geográfica. Entretanto, esta questão é englobada pela anterior, sendo mais uma manifestação 
do empobrecimento contido na Geografia Pragmática. 
 
 Em suma, esta é uma das vertentes do movimento de renovação, do pensamento geográfico. 
Aquela que engaja a produção dessa disciplina no projeto da manutenção da realidade existente, 
sendo assim a vertente conservadora. O saldo da Geografia Pragmática é um desenvolvimento 
técnico, minimizado frente ao empobrecimento real da análise por ela empreendida. As várias 
correntes da Geografia Pragmática representam uma das opções postas para quem faz Geografia na 
atualidade. Sua aceitação decorrerá do posicionamento social do geógrafo, sendo assim um ato 
político, uma opção de classe. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo 11 
A Geografia Crítica 
 
 A outra vertente, do movimento de renovação do pensamento geográfico, agrupa aquele 
conjunto de propostas que se pode denominar Geografia Crítica. Esta denominação advém de uma 
postura crítica radical, frente à Geografia existente (seja a Tradicional ou a Pragmática), a qual será 
levada ao nível de ruptura com o pensamento anterior. Porém, o designativo de crítica diz respeito, 
principalmente, a uma postura frente à realidade, frente à ordem constituída. São os autores que se 
posicionam por uma transformação da realidade social, pensando o seu saber como uma arma desse 
processo. São, assim, os que assumem o conteúdo político de conhecimento científico, propondo 
uma Geografia militante, que lute por uma sociedade mais justa. São os que pensam a análise 
geográfica como um instrumento de libertação do homem. 
 Os autores da Geografia Crítica vão fazer uma avaliação profunda das razões da crise: são os 
que acham fundamental evidenciá-la. Vão além de um questionamento acadêmico do pensamento 
tradicional, buscando as suas raízes sociais. Ao nível acadêmico, criticam o empirismo exacerbado 
da Geografia Tradicional, que manteve suas análises presas ao mundo das aparências, e todas as 
outras decorrências da fundamentação positivista (a busca de um objeto autonomizado, a idéia 
absoluta de lei, a não-diferenciação das qualidades distintas dos fenômenos humanos etc.). 
Entretanto, vão além, criticando a estrutura acadêmica, que possibilitou a repetição dos equívocos: 
o \u201cmandarinato\u201d, o apego às velhas teorias, o cerceamento da criatividade dos pesquisadores, o 
isolamento dos geógrafos, a má formação filosófica etc. E, mais ainda, a despolitização ideológica 
do discurso geográfico, que afastava do âmbito dessa disciplina a discussão das questões sociais. 
Assim, ao nível da crítica de conteúdo interno da Geografia, não deixam pedra sobre pedra. 
 A vanguarda desse processo crítico renovador vai ainda mais além, apontando o conteúdo de 
classe da Geografia Tradicional. Seus autores mostram as vinculações entre as teorias geográficas e 
o imperialismo, a idéia de progresso veiculando sempre uma apologia da expansão. Mostram o 
trabalho dos geógrafos, como articulado às razões do Estado. Desmistificam a pseudo-
\u201cobjetividade\u201d desse processo, especificando como o discurso geográfico escamoteou as 
contradições sociais. Atingem assim seu caráter ideológico, que via a organização do espaço como 
harmônica; via a relação homem-natureza, numa ótica que acobertava as relações entre os homens; 
via a população de um dado território, como um todo homogêneo, sem atentar para a sua divisão em 
classes. Enfim, os geógrafos críticos apontaram a relação entre a Geografia e a superestrutura da 
dominação de classe, na sociedade capitalista. Desvendaram as máscaras sociais aí contidas, pondo 
à luz os compromissos sociais do discurso geográfico, seu caráter classista. As razões da crise 
foram buscadas fora da Geografia. 
 O autor que formulou a crítica mais radical da Geografia Tradicional foi, sem dúvida, Yves 
Lacoste, em seu livro A Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra. Lacoste 
argumenta que o saber geográfico manifesta-se em dois planos: a \u201cGeografia dos Estados-Maiores\u201d 
e a \u201cGeografia dos Professores\u201d. Para ele, a primeira sempre existiu ligada à própria prática do 
poder. Todo conquistador (Alexandre, César ou Napoleão) sempre teve um projeto com relação ao 
espaço, também os Estados e, mais modernamente, a direção das grandes empresas monopolistas. 
Essa Geografia seria feita, na prática, ao se estabelecer estratégias de ação no domínio da superfície 
terrestre, acontecendo, entretanto, que dificilmente esta teorização é explicitada. Porém, sempre 
existe vinculada à gestão do poder. A \u201cGeografia dos Professores\u201d seria a que foi aqui denominada 
de tradicional. Esta, para Lacoste, tem uma dupla função: Em primeiro lugar, mascarar a existência 
da \u201cGeografia dos Estados-Maiores\u201d, apresentando o conhecimento geográfico como um saber 
inútil; assim, mascarar o valor estratégico de saber pensar o espaço, tornando-o desinteressante, 
para a maioria das pessoas. Em segundo lugar, a \u201cGeografia dos Professores\u201d serve para levantar, 
de uma forma camuflada, dados para a \u201cGeografia dos Estados-Maiores\u201d, e, assim, fornecer 
 
informações precisas, sobre os variados lugares da Terra, sem gerar suspeita, pois tratar-se-ia de um 
conhecimento eminentemente
Fábio
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