TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas
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TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas


DisciplinaTeoria e Critica Literária I42 materiais561 seguidores
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flexão de número 
depende muitas vezes da \u201csignificação gramatical\u201d, mas sua 
função é semântica. Assim, em literatura, os signos de função 
sintática não dependem necessariamente das regras de 
composição, que correspondem à gramática (à forma do 
conteúdo) de uma língua articulada. A exposição de uma narrativa 
não se encontra forçosamente no começo, nem o desenlace no 
fim. 
As diferenças entre relações e funções são bastante 
complexas. Os formalistas observam-nas sobretudo nas 
transições, onde seu papel aparece mais claramente. Para eles, um 
dos fatores principais da evolução literária reside no fato de certos 
processos ou certas situações aparecerem automaticamente e 
perderem então seu papel \u201csemântico\u201d para representar apenas um 
papel de ligação. Numa substituição \u2014 fenômeno freqüente no 
folclore \u2014 o novo signo pode representar o mesmo papel 
sintático, sem ter mais a menor relação com a \u201cverossimilhança\u201d 
da narrativa; assim se explica a presença, nas canções populares, 
por exemplo, de certos elementos cujo \u201csentido\u201d é inexplicável. 
Inversamente, os elementos de função dominante semântica 
 
____________________ 
Nota de rodapé (7) Seguimos a distinção formulada por E. Benveniste em seu 
curso no Collège de France, 1963-1964. (N. do A.) [Página 45] 
 
podem ser modificados sem que mudem os signos sintáticos da 
narrativa. Skaftimov, que se preocupou com esse problema em 
seu estudo sobre as bilinas (canções épicas russas), dá exemplos 
convincentes: \u201cMesmo nos pontos onde, em razão das mudanças 
sobrevindas nas outras partes da canção épica, o disfarce não é 
absolutamente necessário e até contradiz a situação criada, ele é 
conservado apesar de todos os inconvenientes e absurdos que 
engendra\u201d (p. 77). 
O problema que reteve, acima de tudo, a atenção dos 
formalistas concerne à relação entre os constrangimentos 
impostos à narrativa por suas necessidades internas 
(paradigmáticas) e os que decorrem do acordo exigido com aquilo 
que os outros sistemas de signos nos revelam sobre o mesmo 
assunto. A presença de tal ou tal elemento na obra se justifica pelo 
que eles chamam sua \u201cmotivação\u201d. Tomachévski (1925) distingue 
três tipos de motivação: composicional, que corresponde aos 
signos essencialmente sintáticos; realista, que diz respeito às 
relações com as outras linguagens; estética, enfim, que torna 
manifesto o fato de pertencerem todos os elementos ao mesmo 
sistema paradigmático. As duas primeiras motivações são 
geralmente incompatíveis, enquanto a terceira concerne a todos os 
signos da obra. A relação entre as duas últimas é ainda mais 
interessante, porque suas exigências não estão no mesmo nível e 
não se contradizem. Skaftimov propõe que se caracterize esse 
fenômeno da seguinte maneira: \u201cMesmo no caso de uma 
orientação direta em direção à realidade, o domínio da realidade 
encarada, mesmo quando se limita a um só fato, possui uma 
moldura e um núcleo do qual ele recebe sua organização... A 
realidade efetiva é dada em suas grandes linhas, o acontecimento 
se inscreve unicamente na trama do esboço principal e somente na 
medida em que ele é necessário à reprodução da situação 
psicológica fundamental. Embora a realidade efetiva seja 
retransmitida com uma aproximação sumária, é ela que representa 
o objeto imediato e direto do interesse estético, isto é, da 
expressão, da reprodução e da interpretação; e a consciência do 
cantor lhe é subordinada. As substituições concretas, no campo da 
narrativa, não lhe são indiferentes, pois elas são regidas não 
somente pela expressividade emotiva geral, mas também pelas 
[Página 46] urgências do objeto da canção, isto é, por critérios de 
reprodução e semelhança\u201d (p. 101). Tomachévski vê as relações 
entre as duas motivações numa perspectiva estatística, e nisso ele 
está próximo da teoria da informação. \u201cNós exigimos de cada 
obra uma ilusão elementar... Nesse sentido, cada motivo deve ser 
introduzido como um motivo provável para aquela situação. Mas 
já que as leis de composição do enredo nada tem a ver com a 
probabilidade, cada introdução de motivos é um compromisso 
entre essa probabilidade objetiva e a tradição literária\u201d (1925, p. 
149). 
Os formalistas procuraram essencialmente analisar a 
motivação estética, sem ignorar entretanto a motivação \u201crealista\u201d. 
O estudo da primeira é mais justificado por não termos 
geralmente nenhum meio de estabelecer a segunda. Nosso 
procedimento habitual, que restabelece a realidade a partir da obra 
e tenta uma explicação da obra pela realidade restituída, constitui, 
com efeito, um círculo vicioso. A visão literária pode, é verdade, 
comparar-se às vezes a outras visões fornecidas quer pelo próprio 
autor, quer por outros documentos concernentes à mesma época e 
às mesmas personagens, quando se trata de personagens 
históricas. É o caso das canções épicas russas, que refletem uma 
realidade histórica conhecida alhures; as personagens são 
freqüentemente príncipes ou senhores russos. Estudando essas 
relações, Skaftimov escreve: \u201cO fim trágico da canção épica é 
sem dúvida sugerido por sua fonte histórica ou legendária, mas a 
motivação da desgraça de Sukhomanti... não se justifica por 
nenhuma realidade histórica. E também nenhuma tendência moral 
está em jogo. Resta unicamente a orientação estética, só ela dá 
sentido à origem desse quadro e o justifica\u201d (p. 108). Comparando 
as diferentes personagens das canções e as personagens reais, 
Skaftimov chega à seguinte conclusão: \u201cO grau de realismo dos 
diferentes elementos da canção épica varia segundo sua 
importância na organização geral do conjunto... A relação entre as 
personagens da canção épica e seus protótipos históricos é 
determinada por sua função na concepção geral da narrativa\u201d (p. 
127). 
Enquanto os lingüistas utilizam cada vez mais os processos 
matemáticos, é preciso lembrar que os formalistas foram os 
primeiros a tentar fazê-lo: Toma- [Página 47] chévski aplicou a 
teoria das cadeias de Markov ao estudo da prosódia. Esse esforço 
merece nossa atenção agora que as matemáticas \u201cqualitativas\u201d 
conhecem larga extensão em lingüística. Tomachévski deixou não 
só um estudo precioso sobre o ritmo de Púchkin, como soube ver 
também que o ponto de vista quantitativo não devia ser 
abandonado, quando a natureza dos fatos o justifica, 
principalmente quando ela depende de leis estatísticas. 
Respondendo às múltiplas objeções suscitadas por seu estudo, 
Tomachévski escreve (1929): \u201cNão se deve proibir à ciência a 
utilização de um método, qualquer que seja... O número, a forma, 
a curva são símbolos do pensamento tanto quanto as palavras e 
são compreensíveis unicamente por aqueles que dominam esse 
sistema de símbolos... O número não decide nada, não interpreta, 
é apenas uma maneira de estabelecer e de descrever os fatos. Se 
se tem abusado dos números e gráficos, o método não se tornou 
por isso vicioso: o culpado é aquele que abusa, não o objeto do 
abuso\u201d (pp. 275-276). Os abusos são bem mais freqüentes que as 
tentativas bem sucedidas, e Tomachévski não cessa de nos 
prevenir contra o perigo das simplificações prematuras: \u201cOs 
cálculos têm freqüentemente por objetivo estabelecer um 
coeficiente suscetível de autorizar imediatamente um julgamento 
sobre a qualidade do fato submetido à prova... Todos esses 
coeficientes são dos mais nefastos por causa de uma \u201cestatística\u201d 
filológica... Não se deve esquecer que, mesmo no caso de um 
cálculo correto, o número obtido caracteriza unicamente a 
freqüência de aparecimento de um fenômeno, mas não nos 
esclarece de modo algum sobre sua qualidade\u201d (pp. 35-36). 
Tomachévski aplica os processos estatísticos ao estudo do 
verso de Púchkin. Como ele próprio disse, \u201ctoda estatística deve 
ser precedida de um estudo, que procura a diferenciação real dos 
fenômenos\u201d (p. 36). Essa pesquisa o leva a distinguir, para