TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas
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TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas


DisciplinaTeoria e Critica Literária I42 materiais563 seguidores
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abordar o estudo do metro, três diferentes níveis; por um lado, um 
esquema de caráter obrigatório, mas que não determina as 
qualidades do verso, por exemplo, o verso iâmbico de cinco 
medidas; por outro lado o \u201cuso\u201d, isto é, o verso particular. Entre 
os dois se situa o impulso rítmico, ou norma (o \u201cmodelo de 
execução\u201d, na terminologia de Jakobson, 1963, p. 232). Essa 
norma pode [Página 48] ser estabelecida por uma obra ou por um 
autor, sendo o método estatístico aplicado ao conjunto escolhido. 
Assim, o último tempo forte em Púchkin leva acento em 100% 
dos casos, o primeiro em 85%, o penúltimo em 40% etc. 
Vemos, ainda uma vez, as noções da análise literária 
aproximarem-se das da lingüística. Lembremos com efeito que 
para Hjelmslev, que estabelece uma distinção entre uso, norma e 
esquema na linguagem, \u201ca norma é apenas uma abstração tirada 
do uso por um artifício de método. No máximo pode Constituir 
um corolário conveniente para se poderem colocar as bases da 
descrição do uso\u201d (p. 80). O estudo da norma se reduz, para 
Tomachévski, \u201cà observação das variantes típicas nos limites das 
obras unidas pela identidade de forma rítmica (por exemplo: o 
troqueu de Púchkin em seus contos dos anos 30); ao 
estabelecimento do grau de freqüência à observação dos desvios 
do tipo; à observação do sistema de organização dos diferentes 
aspectos sonoros do fenômeno estudado (os pretensos traços 
secundários do verso)8; à definição das funções construtivas 
desses desvios (as figuras rítmicas) e à interpretação das 
observações\u201d (p. 58). Esse vasto programa é ilustrado por análises 
exaustivas do iambo de quatro e cinco medidas em Púchkin, 
confrontado ao mesmo tempo com as normas de outros poetas e 
de outras obras do mesmo autor. 
Esse método aplica-se melhor ainda nos domínios onde o 
quadro obrigatório não é definido com precisão. É o caso do verso 
livre, e sobretudo da prosa, onde nenhum esquema existe. Assim, 
para o verso livre, \u201cque é construído como uma violação da 
tradição, é inútil procurar uma lei rigorosa que não admita 
exceções. Só se deve procurar a norma média, e estudar a 
amplitude dos desvios com relação a ela\u201d (p. 61). Da mesma 
forma, para a prosa, \u201ca forma média e a amplitude das oscilações 
são os únicos objetos de investigação... O ritmo da prosa deve, 
por princípio, ser estudado com a ajuda de um método estatístico\u201d 
(p. 275). 
A conclusão é que não se deve aplicar esses métodos nem ao 
estudo de um exemplo particular, isto é, à interpretação de uma 
obra, nem ao estudo das 
 
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Nota de rodapé (8) Tais como a sonoridade, o léxico, a sintaxe etc. (N. do A.) 
[Página 49] 
 
leis e das regularidades que regem as grandes unidades do sistema 
literário. Podemos deduzir daí que a distribuição das unidades 
literárias (do sistema conotativo) não segue nenhuma lei 
estatística, mas que a distribuição dos elementos lingüísticos (do 
sistema denotativo) no interior dessas unidades, obedece a uma 
norma de probabilidade. Assim se justificariam os numerosos e 
brilhantes estudos estilísticos dos formalistas (por exemplo, 
Skaftimov, Vinogradov, 1929) que observam o acúmulo de certas 
formas sintáticas ou de diferentes estratos do léxico em torno de 
unidades paradigmáticas (por exemplo, as personagens) OU 
sintagmáticas (os episódios) do sistema literário. evidente que se 
trata aqui de norma e não de regra obrigatória. As relações dessas 
grandes unidades permanecem puramente \u201cqualitativas\u201d, e são 
geradora de uma estrutura cujo estudo é inacessível por métodos 
estatísticos, o que explica o relativo êxito desses métodos, quando 
aplicados ao estudo do estilo, isto é, à distribuição de formas 
lingüísticas numa obra. O defeito fundamental desses estudos é 
ignorar a existência de dois sistemas diferentes de significação 
(denotativo e conotativo) e tentar a interpretação da obra 
diretamente a partir do sistema lingüístico. 
Essa conclusão poderia, sem dúvida, ser estendida a 
sistemas literários de maiores dimensões. A evolução formal de 
uma literatura nacional, por exemplo, obedece a leis não-
mecânicas. Ela passa, segundo Tinianov (1929), pelas seguintes 
etapas: \u201c1º) o princípio de construção automatizada evoca 
dialeticamente o princípio de construção oposto; 2°) este encontra 
sua aplicação na forma mais fácil; 3°) ele se estende à maior parte 
dos fenômenos; 4°) ele se automatiza e evoca por sua vez 
princípios de construção opostos\u201d (p. 17). Essas etapas nunca 
poderão ser delimitadas e definidas senão em termos de acúmulo 
estatístico, o que corresponde às exigências gerais da 
epistemologia, a qual nos ensina que só os estados temporários 
dos fenômenos obedecem às leis probabilistas. Dessa maneira 
será fundada, melhor do que foi até agora, a aplicação de certos 
processos matemáticos aos estudos literários. [Página 50] 
 
 
(Obras citadas)9 
 
BENVENISTE (E.), 1954: \u201cLa classification des langues\u201d, 
Conferences de l\u2019Institut de Linguistique de l\u2018Université de 
Paris, XI (1952-1953), Paris. 
BERNSTEIN (S.), 1927: \u201cStikh i deklamátzia\u201d (Verso e declama- 
 ção), Rússkaia retch, Nóvaia siéria, I, Leningrado. 
BOGATIRIÓV (P.) e JAKOBSON (R.), 1929: \u201cDie Folklore als 
cine besondere Form des Schaffens\u201d, Donum Natalicium 
Schrijnen, Chartres. 
BRIK (O.), 1919: \u201cZukovíe povtóri\u201d (As repetições sonoras), 
Poétika, Sbórniki po teórii poetítcheskovo iaziká, Petro-
grado. 
CHKLÓVSKI (V.), 1926: Trétia fábrika (A terceira fábrica), 
Moscou. 
\u2014 1929: O teórii prózi (Sobre a teoria da prosa), 
Moscou, 1ª edição 1925). 
\u2014 1959: Khudójestvennaia proza (A prosa literária), 
Moscou. 
EICHENBAUM (B.), 1927: Literatura. Teória, krítika, 
polémika (Literatura. Teoria, crítica, polêmica), Leningrado. 
ERLICH (V.), 1955: Russian Formalism, History-Doctrine, \u2018s\u2019 
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HOCKET (Ch.), 1958: A Course in Modern Linguistics, New 
 York. 
IAKUBÍNSKI (L.), 1916: \u201cO zvukakh stikhotvórnovo iaziká\u201d 
(Sobre os sons da língua poética), Sbórniki po teórii 
poetítcheskovo iaziká, I, Petrogrado. 
JAKOBSON (R.), 1921: Novéichaia rússkaia poézia (A poesia 
 russa moderna), Praga. 
\u2014 1923: O Tchechskom stikhé (Sobre O verso tcheco), 
Berlim. 
\u2014 1963: Essais de linguistique générale, Paris. 
LEVI-STRUASS (Cl.), 1960: \u201cLa structure et la forme\u201d, 
Cahiers de l\u2019I.S.E.A, 99. 
MUKAROVSKY (J.), 1938: \u201cLa dénomination poétique et la 
fonction sthétique de la langue\u201d, Actes du quatrième con-
grès international des linguistes, copenhague 
PETERSEN (J.), 1939: Die Wissenschaft von der Dichtung, 
Bd. I, Berlim. 
PROPP (V.), 1928a: Morfo1óguia skázki (A morfologia do con- 
to), Leningrado (= Morphology of the Folktale, Bloo-
mington, 1958). 
\u2014 1929b: \u201cTransformátzii volchébnikh skazok\u201d (Trans-
formações do conto fantástico), poétika. Vrémennik otdela 
slovésnikh iskusstv, IV, Leningrado. 
Rússkaia proza, 1926 (A prosa russa), Leningrado. 
 
 
____________________ 
Nota de rodapé (9) O leitor poderá encontrar a maior paste dos textos citados na 
coletânea Théorie de la littérature. Textes des formalist russes (Seuil. 1965) (N. do A.) 
[Página 51] 
 
SKAFTIMOV (A.), 1924: Poétika i guénezis bilin (Poética 
e gênese das canções épicas russas), Moscou-Saratov. 
TINIANOV (I.), 1924: Problema stikhotvórnovo iaziká (O 
problema da língua poética), Leningrado. 
\u2014 1929: Arkhaísti i novátori (Arcaizantes e inovadores), 
Leningrado. 
TOMACHÉVSKI (B.), 1925: Teória literatúri (Teoria da 
literatura), 
Leningrado. 
VINOGRADOV (V.), 1923: \u201cO zadátchakh stilîstiki\u201d (Sobre 
os problemas estilísticos), Rússkaia retch, I, Petrogrado. 
\u2014 1929: Evoliútzia rússkovo naturalisma (Evolução do 
naturalismo russo), Leningrado. 
 
[Página 52]