TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas
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TODOROV, Tzvetan - As Estruturas Narrativas


DisciplinaTeoria e Critica Literária I42 materiais563 seguidores
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Não bastará que os significantes e os significados, as 
narrativas a interpretar e as interpretações sejam da mesma 
natureza. A Demanda do Graal vai mais longe; ela nos diz: o 
significado é significante, o inteligível é sensível. Uma aventura é 
ao mesmo tempo uma aventura real e o símbolo de outra aventura; 
nisso a narrativa medieval se distingue das alegorias às quais 
estamos habituados, e nas quais o sentido literal se tornou pura 
transparência, sem nenhuma lógica própria. Pensemos nas 
aventuras de Boorz. Esse cavaleiro chega uma noite a uma \u201cforte 
e alta torre\u201d; aí fica para passar a noite; enquanto está sentado à 
mesa com a \u201cdama deste lugar\u201d, um criado entra para anunciar 
que a irmã mais velha desta vem contestar-lhe a propriedade de 
seus bens; que salvo se ela enviar, no dia seguinte, um cavaleiro, 
para encontrar um representante de sua irmã mais velha em 
combate singular, ela será privada de suas terras. Boorz propõe 
seus serviços para defender a causa de sua anfitriã. No dia 
seguinte, vai ao campo do encontro e uma rude peleja se trava. 
\u201cOs dois cavaleiros eles próprios se afastam, depois se lançam a 
galope, um sobre o outro, e se golpeiam tão duramente que seus 
escudos se furam e suas cotas se rasgam. (...) Por cima, por baixo, 
dilaceram seus escudos, arrebentam suas cotas nos quadris e nos 
braços; ferem-se profundamente, fazendo jorrar o sangue sob as 
claras espadas cortantes. Boorz encontra no cavaleiro uma 
[Página 175] resistência bem maior do que esperava.\u201d Trata-se 
pois de um combate real, onde se pode ser ferido, onde é preciso 
empregar todas as suas forças (físicas) para levar a bom termo a 
aventura. 
Boorz ganha o combate; a causa da irmã mais nova está 
salva e nosso cavaleiro vai à cata de outras aventuras. Entretanto, 
depara-se com um santo homem que lhe explica que a dama não 
era absolutamente uma dama, nem o cavaleiro-adversário um 
cavaleiro. \u201cPor essa dama, entendemos a Santa Igreja, que 
conserva a cristandade na verdadeira fé, e que é o patrimônio de 
Jesus Cristo. A outra dama, que tinha sido deserdada e lhe 
declarava guerra, é a Antiga Lei, o inimigo que guerreia sempre 
contra a Santa Igreja e os seus.\u201d Portanto, aquele combate não era 
um combate terrestre e material, mas simbólico; eram duas idéias 
que lutavam, não dois cavaleiros. A oposição entre material e 
espiritual é continuamente posta e negada. 
Tal concepção do sinal contradiz nossos hábitos. Para nós, o 
combate deve desenrolar-se ou no mundo material ou no das 
idéias; é terrestre ou celeste, mas não os dois ao mesmo tempo. Se 
são duas idéias que lutam, o sangue de Boorz não pode ser 
derramado, só seu espírito é concernido. Sustentar o contrário é 
infringir uma das leis fundamentais de nossa lógica, que é a lei do 
terceiro excluído, isto e o contrário não podem ser verdadeiros ao 
mesmo tempo, diz a lógica do discurso cotidiano; A Demanda do 
Graal afirma exatamente o oposto. Todo acontecimento tem um 
sentido literal e um sentido alegórico. 
Essa concepção da significação é fundamental para A 
Demanda do Graal e é por causa dela que temos dificuldade em 
compreender o que é o Graal, entidade ao mesmo tempo material 
e espiritual. A intersecção impossível dos contrários é entretanto 
constantemente afirmada: \u201cEles que até então não eram mais que 
espírito, embora tivessem um corpo\u201d, dizem-nos de Adão e Eva, e 
de Galaaz: \u201cPôs-se a tremer porque sua carne mortal percebia as 
coisas espirituais\u201d. O dinamismo da narrativa repousa sobre essa 
fusão dos dois em um. 
Pode-se dar, desde já, a partir dessa imagem da significação, 
uma primeira estimativa acerca da natureza da demanda e acerca 
do sentido do Graal: a busca do Graal é a busca de um código. 
Encontrar o Graal é [Página 176] aprender a decifrar a linguagem 
divina, o que quer dizer, como vimos, fazer seus os a-priori do 
sistema; aliás, como em psicanálise, não se trata aqui de uma 
aprendizagem abstrata (qualquer um conhece os princípios da 
religião, como hoje do tratamento psicanalítico), mas de uma 
prática muito personalizada. Galaaz, Persival e Boorz conseguem, 
de modo mais ou menos fácil, interpretar os sinais de Deus. 
Lançalot, o pecador, apesar de toda a sua boa vontade, não o 
consegue. No limiar do palácio, onde ele poderia contemplar a 
divina aparição, vê dois leões montando guarda. Lançalot traduz: 
perigo, e tira sua espada. Mas este é o código profano e não 
divino. \u201cImediatamente viu vir do alto uma mão toda inflamada 
que o golpeou rudemente no braço e fez voar sua espada. Uma 
voz lhe disse: \u2014 Ah! homem de pouca fé e crença medíocre, por 
que te fias em teu braço mais do que em teu Criador? Miserável, 
acreditas que Aquele que te tomou em seu serviço não seja mais 
poderoso que tuas armas?\u201d O acontecimento deveria pois ser 
traduzido como: prova de fé. Por essa mesma razão, no interior do 
palácio, Lançalot não verá mais que uma parte ínfima do mistério 
do Graal. Ignorar o código é ver recusar-se para sempre o Graal. 
 
 
Estrutura da Narrativa 
 
 
Pauphilet escreve: \u201cEsse conto é uma reunião de 
transposições das quais cada uma, tomada à parte, revela com 
exatidão nuanças do pensamento. E preciso traze-las à sua 
significação moral para descobrir seu encadeamento, O autor 
compõe, por assim dizer, no plano abstrato e traduz em seguida\u201d. 
A organização da narrativa se faz pois no nível da 
interpretação e não no dos acontecimentos-a-interpretar. As 
combinações desses acontecimentos são por vezes singulares, 
pouco coerentes, mas isto não quer dizer que a narrativa seja 
destituída de organização; simplesmente, essa organização se 
situa no nível das idéias, não no dos acontecimentos. Tínhamos 
falado, a esse propósito, da oposição entre causalidade episódica e 
causalidade filosófica; e Pauphilet aproxima, com justeza, essa 
narrativa do conto filosófico do século XVIII. [Página 177] 
A substituição de uma lógica por outra não se produz sem 
problemas. Nesse movimento, A Demanda do Graal revela uma 
dicotomia profunda, a partir da qual se elaboram diferentes 
mecanismos. Torna-se então possível explicitar, a partir da análise 
desse texto particular, certas categorias gerais da narrativa. 
Tomemos as provas, acontecimento dos mais freqüentes na 
Demanda do Graal. A prova já está presente nas primeiras 
narrativas folclóricas; consiste na reunião de dois acontecimentos, 
sob a forma lógica de uma frase condicional: \u201cSe X fizer tal ou tal 
coisa, então acontecer-(lhe)-á isto ou aquilo\u201d. Em princípio, o 
acontecimento do antecedente oferece certa dificuldade, enquanto 
o do conseqüente é favorável ao herói. A Demanda do Graal 
conhece, está claro, essas provas com suas variações: provas 
positivas, ou proezas (Galaaz retira a espada do padrão), e 
negativas, ou tentações (Persival consegue não sucumbir aos 
encantos do diabo transformado em bela jovem); provas bem 
sucedidas (principalmente as de Galaaz) e provas malogradas (as 
de Lançalot), que inauguram respectivamente duas séries 
simétricas: prova-êxito-recompensa ou prova-malogro-penitência. 
Existe aqui uma outra categoria que permite melhor situar as 
diferentes provas. Se se comparam as provas a que são 
submetidos Persival ou Boorz, de um lado, com as de Galaaz, de 
outro, percebe-se uma diferença essencial. Quando Persival 
empreende uma aventura, não sabemos de antemão se ele sairá 
vitorioso ou não; às vezes ele malogra, às vezes triunfa. A prova 
modifica a situação precedente: antes da prova, Persival (ou 
Boorz) não era digno de continuar a procura do Graal; depois 
dela, se ele triunfa, o é. O mesmo não acontece no que concerne a 
Galaaz. Desde o começo do texto, Galaaz é indicado como o Bom 
Cavaleiro, o invencível, o que acabará as aventuras do Graal, 
imagem e reencarnação de Jesus Cristo. É impensável que Galaaz 
malogre; a forma condicional da partida